# Mistério do HIV decifrado

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- Published: 2010-02-03T14:04:19-02:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

 

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 * [CORREIO BRAZILIENSE ](https://soropositivo.org/misterio-do-hiv-decifrado/#correio-braziliense%c2%a0)
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Depois de quatro anos de pesquisas e 40 mil testes, equipe liderada por russo obtém
cópia tridimensional da integrase, a proteína responsável pela infecção do **HIV**
no corpo humano

 

Rodrigo Craveiro

 

“Ainda não acredito que fizemos isso! É incrível!” Assim reagiu o cientista russo
Peter Cherepanov, especialista do Imperial College London, em entrevista por e-mail
ao Correio. Para chegar a uma das maiores descobertas recentes na luta contra o **
HIV** – o vírus da **AIDS** -, ele realizou mais de 40 mil testes. “Tivemos muitos
altos e baixos”, lembra. Cherepanov obteve pela primeira vez uma cópia tridimensional
da integrase, a proteína essencial para que o **HIV** infecte o organismo. Por meio
dessa enzima, o micro-organismo replica e transmite suas informações genéticas para
as células. A façanha, realizada em parceria com a Harvard University (Estados Unidos),
deverá ajudar no desenvolvimento de uma droga usada no tratamento e no controle 
da doença. “Já conhecíamos a identidade da integrase há bastante tempo e também 
sabíamos o que ela faz. Mas não tínhamos domínio de sua estrutura tridimensional
precisa”, afirmou à reportagem.

 

 

O trabalho de Cherepanov teve início em 2006. O cientista sabia que para decrifrar
uma estrutura complexa era necessário um cristal. “A cristalização é uma tentativa
e um procedimento sujeito a erros”, explica. “A técnica requer uma grande quantidade
de material puro – nesse caso, a proteína integrase e o DNA do Prototype Foamy Virus(
PFV), um vírus muito parecido com o **HIV**.” Ele e sua equipe submeteram o conjunto
integrase-DNA a vários tratamentos, em busca de um método que favorecesse a cristalização.“
Uma vez que quantidades suficientes de cristais são ‘fabricadas’, é relativamente
direta a obtenção da estrutura em 3D. Nosso sucesso se deve à escolha correta do
alvo e a um trabalho muito duro”, acrescenta. No entanto, ele adverte que não determinou
a estrutura da integrase do **HIV**. “O que fizemos foi decifrar a estrutura de 
uma proteína muito similar – uma enzima do PFV”, afirma.

 

 

Os resultados de sucesso começaram a ser obtidos em outubro passado, quando Cherepanov
conseguiu as primeiras amostras de alta qualidade de cristais de integrase ligadas
ao DNA do **HIV**. Até então, os 40 mil testes produziram sete tipos diferentes 
de cristais, mas apenas um deles tinha qualidade suficiente para permitir a visualização
da proteína em três dimensões. “Ainda que nosso trabalho tivesse a ajuda de um robô,
uma grande quantidade de esforço humano foi exigida”, comenta o russo.

 

 

Segundo ele, o cristal é um arranjo tridimensional de moléculas, dispostas de modo
preciso e previsível no espaço. “Usando uma técnica chamada difração por raios X,
é possível reconstruir a estrutura em 3D de uma molécula cristalizada, com grande
precisão, já que as posições de quase todos os átomos são conhecidas”, explica. 
O cristal age como uma espécie de lente. Cherepanov comemora ainda o fato de ter
impregnado os cristais em soluções de inibidores de integrase – semelhantes aos 
medicamentos usados contra a **AIDS**. “Fomos capazes de observar como esses inibidores
se colam à integrase!”, comemora.

 

 

Passo importante

 

 

De acordo com o cientista, a medicina agora sabe como os inibidores de integrase
funcionam – o que pode ser considerado um importante passo. “Agora, queremos entender
o mecanismo que existe por atrás da resistência às drogas. Nós sabemos que a integrase
adquire mudanças quando o vírus desenvolve resistência ao Isentress(1), por exemplo”,
admite. Uma vez que a ciência conhece esse mecanismo, será capaz de desenhar drogas
mais ativas contra variantes do **HIV** resistentes aos antirretrovirais. “Usando
o sistema que desenvolvemos, seria possível determinar novas estruturas, que explicariam
a resistência às drogas”, conclui.

 

 

Em [artigo publicado](https://soropositivo.org/hiv-misterio-desvendado/) na revista
científica Nature, a equipe responsável pela descoberta escreveu: “Desmascarar a
integrase ajudará os médicos a melhorarem a atual terapia e evitar a resistência,
além de desenvolver novos medicamentos”. Cherepanov revela que já manteve contato
com três companhias farmacêuticas para que a pesquisa se converta em realidade terapêutica
o mais breve possível. “É muito compensador ver as pessoas tão excitadas. Finalmente
sabemos como as drogas inibidoras de integrase funcionam”, diz. Ainda que a palavra“
cura” permaneça uma promessa, o russo acredita que a cada droga desenvolvida aumentam
as chances do paciente. “É uma luta contínua entre o vírus, que rapidamente descobre
novos truques, e as farmacêuticas, que desenvolvem as novas drogas.”

 

 

 

1 – Única no mercado

 

O Isentress é a única droga inibidora da integrase aprovada para o tratamento da**
AIDS**. Com o nome comercial de RALTEGRAVIR, foi desenvolvida pela farmacêutica 
Merck. Ainda que funcione em boa parte dos casos, o Isentress apresenta índice de
fracasso, pois o vírus **HIV** pode rapidamente desenvolver resistência a qualquer
droga única. Outras companhias farmacêuticas unem esforços para criar mais medicamentos
do tipo. O Elvitergavir, por exemplo, está na fase de testes clínicos. As empresas
também tentam criar drogas eficientes contra variantes do **HIV** resistentes ao
Isentress – os chamados inibidores de integrase de segunda geração.

 

 

Pesquisa em pílulas

 

 

Conheça detalhes do estudo realizado pela equipe de Peter Cherepanov

 

 

Integrase

 

Enzima que permite aos retrovírus inserir cópias de genes do vírus no DNA do hospedeiro–
no caso, o ser humano

 

 

Tratamentos atuais

 

Incluem o uso de inibidores de integrase, que podem desacelerar a disseminação do
vírus e ser eficientes no caso de resistência ao medicamento. Até o momento, os 
cientistas eram incapazes de estudar como a integrase funciona, o que limita a possibilidade
de criar tratamentos da **AIDS** com base na enzima

 

 

A façanha da medicina

 

O cristal tridimensional na forma da enzima permitirá aos cientistas estudá-la com
mais detalhes. A compreensão da integrase permitiria aos especialistas criar formas
de prevenir o uso da enzima pelo vírus da **AIDS**

 

 

Cristal tridimensional

 

Os cientistas retiraram uma versão da proteína integrase de um retrovírus chamado
de Prototype Foamy Virus (PFV), semelhante ao **HIV**

 

 

A infecção pelo **HIV**

 

Depende de três enzimas (máquinas moleculares): a transcriptase reversa, a protease
e a integrase. As drogas que bloqueiam a função da transcriptase reversa e da protesase
são usadas para suprimir o crescimento do **HIV** e a progressão da doença. As que
alvejam a integrase foram desenvolvidas muito recentemente

 

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**03/FEVEREIRO/2010**

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