# Mulheres insustentáveis (Artigo)

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- Published: 2010-01-10T17:56:12-02:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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Este texto é informativo e não substitui avaliação médica. Eu escrevo também a partir
da minha experiência como paciente, mas decisões sobre exames, diagnóstico e tratamento
devem ser tomadas em conjunto com profissionais de saúde.

**HÁ VIDA COM HIV**

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Gilberto Dimenstein O culto à magreza seria colocado no mesmo patamar das campanhas
contra o fumo e a bebida

 

 

 

O PARLAMENTO espanhol aprovou, na semana passada, lei que proíbe publicidade, na
TV, com exaltações ao “culto do corpo” -a proibição vale das 6h às 22h, destinada,
supostamente, a proteger crianças e adolescentes. A decisão radical dos espanhóis
coincide com o mês no Brasil em que os desfiles de moda no Rio e em São Paulo colocam
ainda mais alto no pedestal seres esqueléticos, apresentados como padrão máximo 
de beleza.

 

O argumento que sensibilizou os parlamentares espanhóis: “a publicidade que associa
a imagem do sucesso com fatores como peso ou estética incita a discriminação social
pela condição física”. Esse tipo de argumento sensibiliza também políticos da França,
onde tramita uma lei determinando que todos os anúncios com mulheres e homens retocados
tenham uma advertência sobre a falsidade da fotografia. O culto à magreza seria 
colocado, portanto, no mesmo patamar das campanhas contra o fumo e a bebida.

 

Considere-se ou não papel do poder público meter-se nesse tipo de publicidade, o
fato é que se espalha pelo mundo, inclusive no Brasil, uma reação contra as mulheres
insustentáveis, cujos corpos só se mantêm (salvo questões genéticas) na base da 
faca e consumo insalubre de alimentos.

 

 

 

 

Sempre houve, na história da humanidade, padrões de beleza. O problema é que, agora,
juntaram-se à cultura das celebridades, o culto do narcisismo, a visão cada vez 
mais imediatista dos jovens e as óbvias questões de saúde para alcançar determinado
tipo de padrão de beleza, tudo isso embalado pela publicidade.

 

A cultura da celebridade é visível nos meios de comunicação, onde as entrevistas
de modelos, repletas de asneiras e banalidades, ganham destaque.

 

Isso se traduz, por exemplo, nos casos cada vez mais frequentes de anorexia e bulimia
que chegam aos consultórios médicos. Ou nas cirurgias plásticas feitas por crianças
e adolescentes, quase todas por motivos estéticos, em sua maioria lipoaspiração.
Somos um dos países campeões do mundo em cirurgia plástica: proporcionalmente estamos
empatados com os americanos.

 

O último dado disponível: das 650 mil cirurgias realizadas no país, 15% são feitas
em crianças e adolescentes. Psicólogos me informam que, muitas vezes, há estímulo
paterno.

 

 

 

 

 

Uma pesquisadora de Harvard (Susan Linn) publicou recentemente estudo mostrando 
a relação entre excesso de publicidade e distúrbios alimentares (da obesidade à 
anorexia) entre crianças e adolescentes americanas -ela também mostrou a relação
entre marketing e sexo precoce.

 

Sou dos que defendem que a publicidade deve ser responsável e fiscalizada pela sociedade-
e, em certos casos, limitada. O perigo é imaginar que limitar a publicidade ajuda
muito. O exemplo do pai exagerando na bebida é muito mais poderoso para o filho 
do que todos os anúncios.

 

Há um consenso entre psicólogos e educadores de que a doença das mulheres insustentáveis
é um problema de educação de valores.

 

 

Todos sabem que a adolescência é uma fase de desconforto, na qual se testam, como
em nenhum outro período, limites e frustrações, em meio a crises de baixa autoestima.
Também todos sabem que vivemos uma época da busca imediata do prazer, tudo tem de
ser em tempo real, num estímulo constante ao consumo.

 

A psicóloga Rosely Sayão lembra que, nesse contexto, são reverenciadas, por causa
do imediatismo, as drogas legais e ilegais. Muito mais rápido do que fazer terapia
é empanturrar-se de alguma PÍLULA contra ansiedade. A tristeza é medicalizada, como
se não fizesse parte do cotidiano -é como se devêssemos sempre parecer algum personagem
sorridente de revista de celebridades ou parte de um anúncio, com a família feliz,
de caldo de galinha.

 

Entrar na faca é bem mais rápido do que mudar a alimentação ou ficar malhando. Psicólogos
alertam que o problema é bem mais fundo do que a necessidade de malhar ou controlar
a alimentação -e aí entra a necessidade de educação de valores, uma das preocupações
das escolas mais sérias.

 

Educação de valores significa discutir o que significa beleza e aprender a relativizar
a estética -afinal, beleza pode ser simplesmente a pessoa se conhecer e se gostar.
Em síntese, sentir-se bem, apesar das limitações e imperfeições.

 

É bem mais fácil e rápido (e menos eficiente) tirar do ar a publicidade das anoréxicas
profissionais do que manter, nas escolas, na família e nos meios de comunicação,
um debate sobre o que é essencial na existência.

 

Mas o fato é que, para muitos, mulheres insustentáveis são feias.

 

 

PS – As escolas deveriam aproveitar a obrigatoriedade do ensino de filosofia (o 
que considero um avanço) para discutir esse tipo de assunto. Seria uma encantadora
aula mostrar a evolução do corpo desde os tempos gregos. Se Marilyn Monroe fosse
procurar emprego hoje, certamente alguém a mandaria se internar no spa.

 

 

gdimen@uol.com.br

 

 

 

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## Leia também

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