# Na despensa da humanidade

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- Published: 2009-06-19T22:48:32-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

ENTREVISTABRUNO PARMENTIEREconomista, engenheiro e diretor da École Supérieure d’Agriculture
d’Angers (ESA), na FrançaHá anos ele pesquisa o futuro da alimentação. Na era do
biocombustível, o estudo vira livro e trata de um futuro magro, passível até de 
penúrias Laura Greenhalgh Como que rivalizando com a boataria em torno do divórcio
do presidente Nicolas Sarkozy e sua mulher, Cecilia, o economista Bruno Parmentier
também vem dando o que falar na França. Ele está na mira da imprensa. O jornal Le
Monde, que dias atrás publicara uma de suas polêmicas entrevistas, “estampou-o” 
em seu site, na semana passada, com a seguinte chamada: “A humanidade caminha para
a era da penúria”. A afirmação do entrevistado, diretor da École Supérieure d’Agriculture
d’Angers (ESA), a mais importante do setor na França, soou apocalíptica na terra
dos bons queijos, bons vinhos, bons patês, mas não tão boas recordações de guerras
e épocas de vacas magras.Pois Parmentier tem tirado o apetite dos estrategistas 
europeus desde que lançou o livro Nourrir l’Humanité (Nutrir a Humanidade, ed. La
Découverte), meses atrás. Ele mesmo admite que desde então não parou de dar entrevistas
e desfiar seu rosário de estatísticas. No livro, o economista vislumbra o futuro
da alimentação a partir de um mundo com energia rara e cara. Lembra que em apenas
um século a população global saltou de 1,6 bilhão para 6 bilhões. E para satisfazer
todas essas bocas (deixando famintas pelo menos 800 milhões delas), apostou-se em
fatores de produção alimentar que a cada década devoram mais terras, mais energia,
mais água, mais química, mais mecanização. “O tempo do ‘mais, mais’ acabou. Seremos
forçados a apostar na agricultura que produzirá mais com menos, num meio ambiente
muito degradado.”Nessa entrevista ao Aliás, Bruno Parmentier fala da chegada de 
novos contingentes populacionais, especialmente na Ásia e na África, do envelhecimento
da população, que prolonga a vida alimentar, e da voracidade mundial por combustíveis,“
o que fatalmente vai contrapor o tanque de gasolina do rico à mesa do pobre”. Acha
que transformar cereal em biocombustível é loucura. Absolve a opção brasileira pelo
etanol da cana. Mas advoga uma nova ética: “País nenhum deve resolver seu problema
de energia às custas da fome de outros”. Quem apostou que o recado vai para o presidente
George W. Bush, acertou. O senhor diz que não entendia de agricultura até chegar
à direção da ESA, em 2002. Em que a escola mudou sua maneira de ver as coisas?Não
venho do setor agrícola. Sou engenheiro de minas e economista. Depois de trabalhar
com desenvolvimento agrário por quatro anos no México, na década de 70, experimentei
editar livros, viver como jornalista, e só mais tarde é que aceitei a direção da
maior escola agrícola da França. Aceitei o cargo convencido de que a era do petróleo
está no fim e a biologia, tomara!, há de nos levar por caminhos melhores. O balanço
dessas descobertas está no meu livro, Nourrir l’Humanité, que tem causado grande
repercussão desde o lançamento. Não paro de dar entrevistas aqui na Europa.Por que
tanto interesse?Porque nenhuma perspectiva histórica nos dá a certeza de que todos
teremos o que comer no futuro. E, se tomo a perspectiva geográfica, a constatação
é amarga: a fome atinge 800 milhões de pessoas e há quase 1 bilhão comendo muito
mal.O que prevalece na sua análise sobre o futuro da alimentação: ameaças ambientais,
transições demográficas, modelos econômicos?Há uma conjunção de fatores, mas, falemos
em demografia. Garantir a nutrição de uma população fortemente expandida é uma novidade
radical para a humanidade. Até o século 16, a população mundial pouco evoluíra. 
Houve um crescimento suave nos séculos 17 e 18, seguido de outro mais acentuado 
no 19, tocando mais a Europa e a Ásia, depois se espalhando para outras partes. 
Em 1900 havia no planeta 1,8 bilhão de habitantes, 50% dos quais comiam satisfatoriamente.
Mas contavam-se 800 milhões de malnutridos. Cinqüenta anos mais tarde, portanto 
em 1950, éramos 2,8 bilhões e havia algo em torno de 800 milhões de pessoas com 
fome. Hoje somos 6,3 bilhões e continuamos encontrando algo como 800 milhões de 
famintos. Ora, podemos fazer uma leitura otimista desses números: em um século, 
a humanidade conseguiu dar o que comer a mais 4,5 bilhões de pessoas. Bela performance.
Mas podemos observar com certo pessimismo essa estranha “lei” : qualquer que seja
a população do planeta há sempre algo como 800 milhões passando fome. É um número
persistente.E o que deve se passar nos próximos 50 anos?A população deverá se estabilizar
entre 9 e 10 bilhões de pessoas. Significa que acolheremos no planeta um bilhão 
de novos asiáticos, cerca de 800 milhões de novos africanos, 400 milhões de novos
latino-americanos. Então temos de nos colocar a questão: haverá alimento para todos?
Se admitirmos que todos almejamos comer segundo padrões ocidentais, com dietas fortemente
baseadas em produtos de origem animal, teremos então de dobrar a produção agrícola
do mundo, já que os animais comem como nós, humanos – consomem cereais e vegetais.
E dobrar levando em conta as disparidades existentes. Será preciso multiplicar por
5 a produção agrícola africana e por 1,9 a produção agrícola latino-americana, ao
passo que será inútil aumentar a produção européia, já que estamos comendo bem há
um bom tempo e não fazemos mais tantos filhos. Por isso nossa população é declinante.
Em termos globais, há disposição para pensar disparidades?Não há outro jeito! As
soluções aplicadas para aumentar a produção de alimentos no século 20 certamente
não funcionarão no século 21. É imperativo encontrar alternativas. Em escala global,
nossas reservas de terras disponíveis para agricultura são cada vez menores, em 
parte por conta da urbanização. Continuamos a destruir as florestas a uma velocidade
inaceitável para o equilíbrio ecológico, ou seja, à razão de 140 mil km² por ano.
A equação que resulta disso é simples: em 1960, havia algo como um hectare para 
nutrir dois seres humanos. Hoje, tem-se em média um hectare para quatro, em 2050,
um hectare para seis, e assim vai. A China hoje já lida com a razão de um hectare
para oito indivíduos.Qual o pior impacto da escassez de água para a agricultura?
A irrigação foi um meio de expansão agrícola largamente utilizado no século 20, 
permitindo-nos levar água para mais de 200 milhões de hectares. Não podemos depender
da mesma estratégia. Olhe só o que vai acontecer: nos próximos tempos assistiremos
a uma onda de reparação de barragens construídas décadas atrás, cujas instalações
têm duração limitada. E vamos ter de repará-las, sim, porque construir as novas 
custa caro e restam lugares bem mais complicados para erguê-las. Além disso, não
teremos como alimentar outras tantas barragens com essa rarefação de água doce no
planeta. A própria FAO estima que o patamar máximo de áreas irrigáveis não passará
de 240 milhões de hectares nos próximos anos. É muito pouco.O petróleo está mesmo
no fim?É o que dizem os especialistas e isso tem a ver com a nossa mesa. Tecnologias
agrícolas inventadas no século passado são muito gulosas de energia porque foram
desenvolvidas numa época de petróleo barato. A mecanização da agricultura, a fabricação
de fertilizantes e outros modos de produção dependem basicamente de energia. Hoje
o preço mundial do petróleo atinge US$ 90 por barril. A tendência de alta deve continuar
e o impacto psicológico da cotação rompendo o patamar dos US$ 100, já iminente, 
será bastante sensível. Gente mais jovem que eu verá o petróleo a US$ 150 o barril.
Isso tudo complica a vida dos 28 milhões de agricultores do mundo que dependem da
mecanização do setor. Em contrapartida, cerca de 250 milhões de produtores rurais
trabalham com energia animal e 1 bilhão não têm nem animais nem tratores. Um bilhão
de produtores estão complet
 am ente à margem! Diante desse cenário, devemos nos
perguntar: a agricultura, daqui para frente, deve servir à produção de alimentos
ou de energia? Veja que coincidência: 800 milhões de pessoas sentem fome no planeta.
E temos uma frota global de 600 milhões de automóveis e 200 milhões de caminhões.
O número é o mesmo: 800 milhões querem comida, 800 milhões querem combustível. E
agora?Que aposta o senhor faz nos biocombustíveis?Não somos nada neste setor porque
mal tomamos consciência do problema. O balanço energético revela fragilidades, a
começar do fato de que ainda precisamos de um litro de petróleo para produzir três
litros de biocombustível. O balanço territorial, esse então é uma aberração completa:
em média, devemos reservar um hectare de terra para garantir o abastecimento de 
quatro ou cinco carros. Tentamos resolver o problema dos tanques de gasolina oferecendo-
lhes algo precioso para a dieta alimentar da humanidade, que é o cereal. Isso é 
uma loucura. A meu ver, o caminho mais aceitável é o do etanol brasileiro, feito
da cana-de-açúcar. Mas, não posso deixar de me espantar: como é que um país como
o Brasil, potência agrícola, ainda não consegue nutrir sua população?Por que aprova
a opção brasileira pelo etanol?Parece ser a mais sensata. Quero deixar claro: sou
absolutamente a favor dos biocombustíveis. Mas absolutamente contrário à utilização
dos cereais para produção de etanol. Cereal é alimento de base. Nós, aqui na Europa,
estamos investindo alto na produção de biodiesel, como aquele que é feito a partir
da colza (canola). Tais iniciativas não me parecem satisfatórias porque demandam
grandes áreas para o cultivo, muita água para irrigação e mantém-se essa relação
maluca, que é gastar um litro de petróleo para produzir três litros de biocombustível.
Já a cana oferece uma relação melhor, e não me parece que vá faltar açúcar para 
alimentação. Como também acho que não vão acabar com as florestas brasileiras.Mas
isso se debate no Brasil hoje. A plantação em larga escala de cana poderia deslocar
o gado para a Amazônia, o que não seria bom. Ouve-se muito esse tipo de crítica.
Não creio nisso. É inegável que o etanol brasileiro tem vantagens: vem de uma planta
que cresce rapidamente, não exige preparação da terra, o que em si significa economia
de combustível, e é aproveitada literalmente até o bagaço. Além de ter muita terra
cultivável, o Brasil é um país que possui superfície de reserva para agricultura.
O grande problema da cana-de-açúcar brasileira é social. Como erguer um programa
ambicioso de etanol com os trabalhadores no campo ganhando mal, sem preparo, sem
recursos, sem direitos?Por que o senhor joga duro com a utilização dos cereais para
a produção de biocombustível?Veja a política agrícola do governo Bush. Os EUA têm
estoque excedente de milho e até por isso querem convertê-lo em etanol. Só que, 
para atender à própria demanda de energia, vão consumir o milho que hoje é base 
da alimentação do México. E os mexicanos vão pagar mais caro pelo que comem! Parece
óbvio que um país não pode resolver sua demanda energética provocando a fome em 
outro. Nesse sentido é que traço um cenário sombrio, no qual o carro do rico vai
disputar “alimento” com a mesa do pobre. Então ponha na balança: de um lado, comida,
de outro, combustível. O que vai pesar mais na busca por sustentabilidade?É possível
prever que, em 50 anos, a Europa possa ter reduzido em 10% sua produção agrícola.
Seremos menos numerosos e é certo que podemos cortar um pouco da nossa dieta. Por
outro lado, estaremos mal em termos de energia fóssil, portanto os biocombustíveis
serão estratégicos. Imagino que nossos campos terão de ser reservados para a produção
de cereais e que tenhamos de sair atrás dos biocombustíveis dos países temperados,
chamados de “segunda geração”, que não demandam tanta água nem tanta energia. Já
a Ásia, apesar dos progressos feitos, em especial na China e no Vietnã, terá de 
enfrentar um crescimento populacional que vai complicar as coisas. Mas o grande 
problema da humanidade é a África. A população africana atual, de 800 milhões, deverá
dobrar em pouco tempo, apesar das guerras, da penúria e da aids. Hoje, na África
negra, 40% da população sofre de uma fome que é crônica. O que acaba servindo de
caldo de cultura para ideologias extremistas.E a América Latina?Vai se sair melhor
porque não deve ganhar mais do que 400 milhões de pessoas no próximo meio século,
tem reserva de superfície e de água, sobretudo o Brasil. Porém, será que o clima
democrático que se vê hoje no continente será um fator de coesão social e eficácia
produtiva no futuro? A reposta está nas mãos de vocês.A discussão combustível versus
comida pende para o ideológico?O importante é nos apercebermos dos grandes jogos.
Como vamos tirar da terra comida e energia em abundância? Será preciso pragmatismo
e alguma modéstia para encarar esse desafio.Em seu livro, em vários momentos o senhor
trata do “medo de não ter nada para comer”. Isso é típico dos franceses e seus vizinhos
europeus?Quando falta comida, nenhum problema é maior do que “ter o que comer”. 
Mas, quando há comida, então aparecem 50 novos problemas na vida da gente: o medo
de engordar, de se envenenar, de envelhecer, a culpa de comer muito quando tantos
têm fome… Na Europa Ocidental, a última vez que se viu a cara da fome foi na 2ª 
Guerra e hoje a maioria da população não lida com tais lembranças. Mas lida com 
esses 50 novos problemas. Certamente o declínio da religião, numa Europa secularizada,
deu lugar a outros tipos de injunções coletivas. Por exemplo: assim como há o “ecologicamente
correto”, há também o “corporalmente correto”. Temos de emagrecer, malhar, exibir
boa forma física se quisermos merecer o respeito dos outros.Apesar das penúrias 
do passado, a França é vista como terra da abundância, onde se come bem e onde o
setor agroalimentar ainda atrai o maior volume de divisas para o país.De fato, parece
que o mundo vem para cá para aprender esse bien manger. A verdade é que os franceses
são muito exigentes nessa matéria e suas agroindústrias souberam tirar partido da
uma cultura local, transformando-a em business. Claro que se persistir a idéia de
usar trigo, milho ou arroz para fazer biocombustíveis, velhos medos podem reaparecer.
Em termos históricos, somos mais informados sobre penúrias do que sobre abundâncias.
Há um ditado que diz: o peixe não sabe que está na água até ser pescado. Quando 
uma geração vive na abundância, ela não a enxerga o contrário. E passa o tempo todo
reclamando ou se entretendo com a infelicidade dos outros. É desconcertante constatar
que as pessoas não são mais felizes na abundância do que na luta pela sobrevivência.
Pelos critérios ocidentais, seria desejável que todo indivíduo possa comer pelo 
menos três vezes por dia. Teremos de repensar esse critério no futuro?De fato, o
desejável seria oferecer a todos os habitantes do planeta a possibilidade de comer
três vezes ao dia. Mas, comer o quê e em que quantidade? Guardamos no nosso corpo
a memória de penúrias do passado, por isso tendemos a comer mais do que o necessário:
mais açúcar, mais gordura, quando a nossa vida ficou mais sedentária. Daí a obesidade
cresce de forma alarmante, especialmente nas classes médias. Em quase todos os países
do globo, vê-se um aumento estrondoso dos gordos. É um problema em escala mundial,
de certa forma tão sério quanto a fome.Por quê?A demanda crescente por produtos 
de origem animal é muito alta – isso, no conjunto da humanidade. Consumindo tais
produtos, sobrecarregamos a agricultura porque, como já disse, animais comem como
nós. Só que a taxa de transformação na indústria ainda deixa muito a desejar: a 
grosso modo, precisamos de 4 quilos de cereais para ter 1 quilo de frango. Ou 12
quilos de cereais para ter 1 quilo de carne bovina. A necessidade de fomentar culturas
vegetais tornou-se prioridade. Enfim, devemos desen

volver agriculturas pelo mundo todo, e não apostar apenas nas mais produtivas, como
a do Brasil ou da Austrália.A população planetária aumenta não só pelas taxas de
natalidade, altas em várias partes, mas também pelo aumento da expectativa de vida.
Quanto mais se vive, mais se come. Isso entra nos seus cálculos?Sem dúvida. Na Europa,
ao longo de meio século ganhamos três meses de esperança de vida por ano. 50% das
crianças que nascem hoje na França serão centenárias. Então, vejamos: um europeu
nos anos 50 iria consumir cerca de 50 mil refeições no decorrer da vida. O europeu
nascido agora consumirá 100 mil. Isso traz desafios imensos para a quantidade de
alimentos a produzir. E também para a qualidade do que se come, afinal, nossos corpos
estarão expostos por mais tempo a processos de acumulação de toxinas. Muitas doenças
aparecem quando o sujeito já fez umas 80 mil refeições. Antes não deveríamos nos
preocupar com isso, agora temos. Não bastassem todos os desafios pela frente, a 
preocupação com a segurança e a pureza dos alimentos ainda vai nos atormentar muito.
ESTRANHA LEI“Qualquer que seja a população do planeta, há sempre uns 800 milhões
de famintos”FORÇA FÍSICA “O problema do etanol brasileiro é social. É o ‘peão’ que
ganha mal, não tem direitos…”MASTIGAÇÃO “Guardamos no corpo a memória de penúrias
do passado. E então comemos mais”TERÇA, 16 DE OUTUBRONegociações travadasO presidente
Lula afirmou, na República do Congo, que pretende forçar uma negociação para destravar
a Rodada Doha. “Quero um esforço para que a UE facilite a entrada de produtos dos
países pobres e que os EUA diminuam os subsídios na agricultura interna”, declarou.

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