# Nas pessoas infectadas pelo VIH a progressão da aterosclerose está relacionada com a inflamação

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- Published: 2010-08-20T19:13:39-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

Liz Highleyman

## **De acordo com um estudo cujos resultados foram apresentados em Fevereiro último na 17^(a) Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas, que teve lugar em São Francisco, nos EUA, as pessoas infectadas pelo VIH apresentam uma progressão mais rápida da aterosclerose do que as pessoas não infectadas (em especial, a aterosclerose tal como é medida numa região específica da artérias carótidas, a bifurcação)**.

![aterosclerose2](images/stories/20-08-2010/aterosclerose2.jpg)

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 * [De acordo com um estudo cujos resultados foram apresentados em Fevereiro último na 17a Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas, que teve lugar em São Francisco, nos EUA, as pessoas infectadas pelo VIH apresentam uma progressão mais rápida da aterosclerose do que as pessoas não infectadas (em especial, a aterosclerose tal como é medida numa região específica da artérias carótidas, a bifurcação).](https://soropositivo.org/nas-pessoas-infectadas-pelo-vih-a-progressao-da-aterosclerose-esta-relacionada-com-a-inflamacao/#de-acordo-com-um-estudo-cujos-resultados-foram-apresentados-em-fevereiro-ultimo-na-17a-conferencia-sobre-retrovirus-e-infeccoes-oportunistas-que-teve-lugar-em-sao-francisco-nos-eua-as-pessoas-infecta)
 * [Espessura da íntima-média](https://soropositivo.org/nas-pessoas-infectadas-pelo-vih-a-progressao-da-aterosclerose-esta-relacionada-com-a-inflamacao/#espessura-da-intimamedia)
 * [Dilatação fluxo-mediada](https://soropositivo.org/nas-pessoas-infectadas-pelo-vih-a-progressao-da-aterosclerose-esta-relacionada-com-a-inflamacao/#dilatacao-fluxomediada)
 * [Referências](https://soropositivo.org/nas-pessoas-infectadas-pelo-vih-a-progressao-da-aterosclerose-esta-relacionada-com-a-inflamacao/#referencias)
 * [Mais informação](https://soropositivo.org/nas-pessoas-infectadas-pelo-vih-a-progressao-da-aterosclerose-esta-relacionada-com-a-inflamacao/#mais-informacao)
 * [Tradução](https://soropositivo.org/nas-pessoas-infectadas-pelo-vih-a-progressao-da-aterosclerose-esta-relacionada-com-a-inflamacao/#traducao)
 * [Leia também](https://soropositivo.org/nas-pessoas-infectadas-pelo-vih-a-progressao-da-aterosclerose-esta-relacionada-com-a-inflamacao/#leia-tambem)
 * [Relacionado](https://soropositivo.org/nas-pessoas-infectadas-pelo-vih-a-progressao-da-aterosclerose-esta-relacionada-com-a-inflamacao/#relacionado)

Esta mais rápida progressão mostrou-se associada à inflamação e foi observada mesmo
nas pessoas que controlam naturalmente a progressão do vírus, os chamados “controladores
de elite” (elite controlers, em inglês).

Como é sabido, a doença cardiovascular tem vindo a transformar-se numa preocupação
crescente, à medida que as pessoas seropositivas vivem mais tempo.

A aterosclerose (que significa “endurecimento das artérias”), em particular, é uma
patologia inflamatória na qual surgem placas no interior das paredes dos vasos (
placas constituídas por acumulações de lípidos, células imunitárias, cálcio, detritos
celulares e tecido de cicatrização).

Além de provocar o estreitamento das artérias, quando ocorre a rotura de uma placa,
pode desencadear-se uma série de processos que culminam num bloqueio do vaso sanguíneo,
provocando, por exemplo, um ataque cardíaco (enfarte do miocárdio) ou uma trombose(
ou AVC – acidente vascular cerebral).

Vários estudos anteriores têm mostrado que as pessoas infectadas pelo VIH apresentam
mais aterosclerose do que as seronegativas, muito embora os resultados nem sempre
tenham sido consistentes, em parte devido às diferenças nos métodos de avaliação
destas lesões arteriais.

### Espessura da íntima-média

 Um método comum de avaliar esta situação consiste na medição através de ultra-sons(
ecografia) da espessura das paredes arteriais – conhecida como _intima-media thickness(
IMT)_ ou, em português, espessura da íntima-média (_íntima e média_ são duas das
camadas das paredes arteriais). Em particular, é usada a medição deste índice nas
artérias carótidas, as importantes artérias que fornecem sangue ao cérebro. Contudo,
os resultados podem variar, consoante a avaliação é feita na artéria carótida principal,
na sua bifurcação ou num dos seus dois ramos (a artéria carótida interna e a externa).

Priscilla Hsue e colegas, da Universidade da Califórnia, em S. Francisco, foram 
assim comparar a progressão da IMT na artéria carótida comum, na sua bifuração e
na carótida interna em indivíduos com e sem VIH. A Dra. Hsue explicou que devido
à dinâmica do fluxo sanguíneo, a região da bifuração pode ser mais susceptível à
inflamação e ao desenvolvimento de aterosclerose do que as outras duas regiões.

Assim, uma lesão mais precoce pode ser detectada mais cedo nesta região, antes pois
de aparecer noutro local daquelas artérias.

Como, porém, a região da bifurcação coloca mais obstáculos à medição, muitos investigadores
têm favorecido a avaliação nos outros locais.

O estudo agora em questão incluiu 285 participantes seropositivos oriundos sobretudo
da coorte SCOPE, do _San Francisco General Hospital_. A maioria (72%) encontrava-
se a fazer tratamento ARV e 47% apresentava carga viral (CV) suprimida, sob tratamento.
Adicionalmente, 22 participantes vinham de uma coorte de “controladores de elite”(
ou seja, que mantinham uma CV indetectável mesmo sem tratamento) e 40 eram pessoas
seronegativas que serviram de controlos.

Cerca de 85% dos participantes eram homens, cerca de 70% de brancos, e a idade média
dos participantes era de 45 anos. As pessoas com VIH estavam infectadas há cerca
de 13 anos em média, encontrando-se a fazer ARVs há quase 4 anos. A contagem média
actual de CD4s era de 433 células/mm^(3), mas o nadir (valor mais baixo alguma vez
atingido nessas pessoas) havia sido de 150 células/mm^(3).

No que respeita aos factores de risco tradicionais para doença cardiovascular, os
participantes seropositivos apresentavam um valor significativamente mais baixo 
de colesterol-LDL (o “mau” colesterol), mas níveis mais altos de triglicéridos e
PCR (Proteína C reactiva de elevada sensibilidade, um importante marcador da inflamação).

As pessoas seropositivas eram também com maior probabilidade do que as seronegativas
fumadoras (68% vs 53%) e tinham maior prevalência de pressão arterial elevada (28%
vs 13%), diabetes (7% vs 3%) e antecedentes de doença cardíaca ou trombose (8% vs
3%), embora nenhuma destas diferenças atingisse o patamar do significado estatístico.

Os investigadores mediram a IMT em doze segmentos da artéria carótida e calcularam
as taxas anualizadas de progressão. À partida, a IMT era maior nas pessoas infectadas
pelo VIH do que nos controlos negativos, tanto em termos globais (0.86 vs 0.71 mm)
como em cada região das carótidas avaliada.

Depois de um _follow-up_ (acompanhamento) médio de dois anos, a progressão da IMT
foi significativamente mais rápida nas pessoas seropositivas, em comparação com 
os controlos negativos para o VIH (0.046 vs 0.012 por ano), diferença que se manteve
significativa depois de feitos os ajustamentos para os factores de risco tradicionais
como, por exemplo, o tabagismo.

Contudo, este resultado variou consoante o local de medição. Entre os participantes
com VIH, a progressão da IMT foi mais evidente na região da bifurcação, seguida 
da carótida interna e só depois da carótida comum. A diferença na progressão entre
as pessoas com e sem VIH foi maior na região da bifurcação (0.074 vs 0.013 mm/ano),
seguida da região da carótida interna (0.046 mm/ano vs nenhuma), não tendo embora
sido significativa na carótida comum (0.074 vs 0.013 mm/ano).

Entre as pessoas sob terapêutica supressiva e nos controladores de elite, a progressão
da IMT foi significativamente maior do que a verificada nas pessoas não infectadas,
na região da bifurcação, mas não na carótida comum.

Os níveis de PCR encontravam-se relacionados de forma mais íntima à progressão da
IMT na região da bifurcação. Depois de feito o ajustamento para os factores de risco
tradicionais e o estado quanto ao VIH, a PCR mostrou-se associada de forma independente
à progressão da IMT na região da bifurcação, enquanto nas outras regiões os factores
de risco tradicionais se mostraram mais preditivos. Quando a análise foi ajustada
de forma a levar em conta os níveis de PCR o efeito independente do VIH foi reduzido.

Com base nestes achados, os investigadores concluíram que “a inflamação relacionada
com o VIH contribui para o aumento do risco de aterosclerose no contexto do VIH”.

Inquirida sobre a relevância clínica destes dados, a Dra. Hsue referiu que embora
as alterações da IMT fossem muito pequenas, a progressão da IMT tem sido fortemente
correlacionada com o aumento do risco de doença cardiovascular na população seronegativa
em geral.

### Dilatação fluxo-mediada

 Na apresentação de um poster relacionado com a investigação anterior, a Dra. Hsue
e colegas usaram outro indicador da aterosclerose chamado dilatação fluxo-mediada.
Esta técnica avalia a função do revestimento endotelial das artérias (o seu revestimento
interno) ao medir o grau de expansão de uma artéria (tipicamente a artéria braquial,
no braço) em resposta às mudanças do fluxo sanguíneo que ocorrem no seu interior.

Este estudo incluiu 139 pessoas seropositivas para o VIH da mesma coorte SCOPE, 
pessoas que apresentavam uma carga viral suprimida sob terapêutica ARV, bem como
32 participantes controlos seronegativos.

Em comparação com a população do SCOPE em geral, os participantes seropositivos 
desta análise apresentavam uma maior duração da infecção (17 anos em média), encontrando-
se também há mais tempo em tratamento (9 anos); 41% encontrava-se a fazer actualmente
abacavir (_Ziagen_; também nas co-formulações _Kivexa_ e _Trizivir_). Cerca de metade
eram fumadores e 40% tinham tensão arterial elevada.

As pessoas infectadas pelo VIH mostraram uma significativamente mais baixa dilatação
fluxo-mediada endotélio-dependente – isto é, um resultado pior –, em comparação 
com as pessoas não infectadas (4.1% versus 5.2%), um achado que se manteve mesmo
depois do ajustamento para os factores de risco tradicionais. A exposição ao abacavir
mostrou-se ligada a uma diminuição dessa dilatação, mas a exposição a inibidores
da protease, a duração global da terapêutica ARV e a contagem actual ou o nadir 
de CD4s não se revelaram factores preditivos significativos.

As pessoas seropositivas apresentavam um valor médio de PCR mais elevado do que 
as VIH negativas, tendo-se a PCR mostrado associada de forma independente à infecção
pelo VIH, depois de feito o ajustamento para os factores de risco tradicionais.

No grupo VIH, uma PCR mais elevada revelou-se um factor preditivo mais forte de 
uma menor dilatação fluxo-mediada do que a idade; nas pessoas seronegativas, verificou-
se o contrário.

Deste modo, os investigadores concluíram que a função endotelial – um mecanismo 
central no aparecimento da aterosclerose – se encontra diminuída nos doentes seropositivos
em tratamento e com CV indetectável, e que a PCR era mais preditiva de função endotelial
alterada do que os factores de risco tradicionais nesta população.

“Estes achados sugerem que mesmo as pessoas que se encontram bem sob terapêutica
ARV (ou seja, com CV indetectável), podem encontrar-se em maior risco de doença 
cardiovascular, e que a inflamação crónica no contexto da infecção VIH tratada provavelmente
contribui para este risco aumentado”, escrevem os investigadores. “Os nossos achados
também apontam para um papel independente da toxicidade farmacológica directa na
doença cardiovascular precoce”.

### Referências

 Hsue P et al. _Progression of atherosclerosis at the carotid bifurcation is linked
to inflammation in HIV-infected patients_. Seventeenth Conference on Retroviruses
and Opportunistic Infections, San Francisco, abstract 125, 2010.

Hsue P et al. _Inflammation is associated with endothelial dysfunction among individuals
with treated and suppressed HIV infection_. Seventeenth Conference on Retroviruses
and Opportunistic Infections, San Francisco, abstract 708, 2010.

### Mais informação

 Pode ver o [abstract 125](http://www.retroconference.org/2010/Abstracts/37219.htm)
e o [abstract 708](http://www.retroconference.org/2010/Abstracts/37301.htm) no website
oficial da Conferência.

Também pode ver um [webcast e slides desta sessão no mesmo website](http://app2.capitalreach.com/esp1204/servlet/tc?c=10164&cn=retro&e=12364&m=1&s=20431&&espmt=2&mp3file=12364&m4bfile=12364&br=80&audio=false).

### Tradução

 [GAT – Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA](http://www.gatportugal.org/)

## Leia também

 * [#soropositivoorg : As pessoas co-infectadas com VIH e VHC têm mais possibilidade de desenvolver osteoporose](https://soropositivo.org/soropositivoorg-as-pessoas-co-infectadas-com-vih-e-vhc-tem-mais-possibilidade-de-desenvolver-osteoporose/)
 * [#soropositivoorg : Segundo a coorte do estudo D:A:D parar de fumar reduz o risco de doença cardiovascular](https://soropositivo.org/soropositivoorg-segundo-a-coorte-do-estudo-dad-parar-de-fumar-reduz-o-risco-de-doenca-cardiovascular/)
 * [As pessoas não infectadas com o vírus HIV e as pessoas infectadas tem doenças relacionadas com a idade em idades semelhantes](https://soropositivo.org/as-pessoas-nao-infectadas-com-o-virus-hiv-e-as-pessoas-infectadas-tem-doencas-relacionadas-com-a-idade-em-idades-semelhantes/)

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