# O padre e o moço

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- Published: 2009-06-19T22:48:40-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

, Júlio Lancellotti anuncia que foi chantageado por ex-protegido, que conheceu como
menor infrator e o acuava com acusação do pior dos crimes: pedofiliaMarcelo CarneiroAnderson
Batista, 25 anos, tem um prontuário pesado na polícia de São Paulo. Foi interno 
na Febem e, já maior de idade, acumulou doze boletins de ocorrência por denúncias
que vão de tráfico de drogas a lesão corporal. Um dos boletins é por homicídio culposo:
atropelou, involuntariamente, o próprio filhinho de 3 anos ao dar ré num carro. 
O padre Júlio Lancellotti tem um currículo venerado entre organizações de defesa
de moradores de rua, adolescentes infratores e crianças flageladas pelo vírus da
aids. É capaz de pegar o telefone, pedir para falar com o presidente Lula e receber
um retorno em poucos minutos. O presidente já passou quatro vésperas de Natal em
obras sociais coordenadas por ele. Além de prestígio, Lancellotti também acumulou
capacidade de angariar recursos. Organizações não-governamentais sob sua égide têm
convênios da ordem de 10,6 milhões de reais anuais com a prefeitura de São Paulo,
não obstante os atritos e as acusações de discriminação, na questão dos moradores
de rua, feitas pelo padre. O dinheiro é usado no atendimento a 8.000 necessitados.
Por que uma pessoa como Lancellotti cederia à chantagem de um elemento como Batista?
Sob “todo tipo de constrangimento”, disse o padre ao jornal O Estado de S. Paulo
na semana passada, quando anunciou publicamente que, há um mês, havia procurado 
a polícia para denunciar as extorsões sofridas desde 2004 nas mãos de uma quadrilha
comandada por Batista. A coação mais grave envolvia a ameaça de denunciá-lo pelo
terrível crime tristemente associado à Igreja Católica: abuso sexual de menores 
colocados em confiança na esfera de influência de padres pervertidos.Segundo a própria
denúncia, Lancellotti pagou no total 56.000 reais aos extorsionários. Uma parte 
do dinheiro foi dirigida ao financiamento de uma caminhonete Mitsubishi Pajero, 
avaliada em 65.000 reais. O padre apresentou cartas e gravações para comprovar a
acusação. Nas primeiras, Batista pede dinheiro em tom de familiaridade, até com 
uma certa gentileza. Nas segundas, a barra pesa. Numa das conversas, Conceição Eletério,
mulher de Batista, intimida: “Vou dizer tudo. O senhor fica mexendo com as crianças
de 3 anos, com meu filho. Meu filho está indo para a imprensa”. Um dos intermediários
dos chantagistas foi preso em um flagrante armado pela polícia e com o conhecimento
do padre no momento em que ia receber 2 000 reais. A Justiça decretou a prisão de
Batista, de Conceição e de um terceiro acusado, todos foragidos.Como em qualquer
outro caso do gênero, existem três hipóteses: 1) Lancellotti está dizendo a verdade
e foi vítima de uma armação; 2) não cometeu nenhum crime, mas cedeu à chantagem 
porque tinha algo que preferia não ver revelado; 3) a extorsão se baseava num fato
real. No caso da primeira hipótese, a reação imediata e natural é o popular quem
não deve não teme. Por que pagou tanto dinheiro por tanto tempo? Em entrevistas 
que deu sobre a acusação, Lancellotti disse que as ameaças só se tornaram mais graves
a partir de setembro deste ano. Antes, acreditava que conseguiria demover Batista,
que conheceu ainda recolhido na Febem e por quem foi procurado mais tarde, com um
pedido de ajuda. Com o passar do tempo, os pedidos tornaram-se cada vez mais insistentes.
Em um dos doze bilhetes enviados ao padre, Batista diz que quer 1.500 reais “para
ficar lá na praia”. Além de vinte parcelas do financiamento da caminhonete Pajero,
Batista também conseguiu comprar um terreno e alugar uma casa via extorsão. O advogado
de Batista, Nelson Bernardo da Costa, indica a linha com que vai defender seu cliente:
ele sustenta que o dinheiro foi dado espontaneamente, “em função da amizade até 
íntima” entre ambos.Lancellotti tornou-se padre tardiamente, aos 37 anos. Antes,
trabalhava na Febem, da qual continua a ser funcionário, com salário de 2.480 reais.
Na semana passada, VEJA entrevistou funcionários e ex-funcionários da Febem, além
de técnicos que acompanham o trabalho desenvolvido por Lancellotti em suas ONGs.
Muitos conheciam a proximidade entre Lancellotti e Batista e comentaram o comportamento
sexual do padre, que só poderá ser objeto de inquirição se entrar no campo delituoso.
Algumas lacunas deixadas pela denúncia de chantagem podem ser preenchidas se a polícia
encontrar Anderson Batista e confrontá-lo com fatos bem apurados. “Só o depoimento
dele poderá esclarecer as perguntas que ainda estão sem resposta nessa história 
toda”, disse o delegado André Luiz Pimentel, que investiga o caso. Para o padre,
para Batista e para qualquer outro cidadão, valem as mesmas palavras ditas por Lancellotti
quando cobrou providências no caso do assassinato de sete moradores de rua, em 2006,
em São Paulo: “Nós não vamos nos esquecer. Vamos continuar cobrando até que a Justiça
dê uma resposta”.

## Leia também

 * [Júlio Lancellotti é agora acusado de pedofilia por ex-funcionária da Casa Vida](https://soropositivo.org/julio-lancellotti-e-agora-acusado-de-pedofilia-por-ex-funcionaria-da-casa-vida/)
 * [Revista veja destaca caso de extorsão sofrido pelo padre Júlio Lancelotti](https://soropositivo.org/revista-veja-destaca-caso-de-extorsao-sofrido-pelo-padre-julio-lancelotti/)
 * [Polícia investiga padre Júlio por suposta corrupção de menores](https://soropositivo.org/)

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