# Os médicos que os médicos indicam

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- Published: 2009-06-19T22:48:15-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

Os médicos que os médicos indicamVeja São Paulo convidou 110 profissionais de reconhecido
renome para eleger os craques de 21 especialidades Por Alecsandra Zapparoli Há muitas
maneiras de avaliar um médico. Formação acadêmica, participação em congressos, artigos
publicados, número de cirurgias realizadas, capacidade de diagnóstico, pacientes
famosos, e por aí vai. Essas credenciais são muitas vezes levadas em conta na hora
de escolher um doutor. Ninguém, no entanto, conhece tão intimamente a complexidade
da profissão como os próprios médicos. Só eles possuem os critérios técnicos para
avaliar e reconhecer a excelência ou não de um colega. Para chegar aos nomes escolhidos
entre os médicos da cidade, Veja São Paulo compôs um júri formado por 110 doutores
de reconhecido renome no âmbito universitário, além de clínicos e cirurgiões em 
atividade no mercado. Cada uma das 22 especialidades escolhidas contou com cinco
votantes (nas universidades foram convidados a participar os professores titulares,
e nos hospitais-referência, como Albert Einstein, Sírio-Libanês e Oswaldo Cruz, 
entre outros, os chefes de equipe). O médico votava na própria especialidade (não
valia votar em si mesmo) e nas outras 21. Veja São Paulo se comprometeu com os participantes
a não divulgar nem seus nomes nem suas indicações. Ao todo, foram votados 1 037 
médicos, ou seja, cerca de 2,5% dos 41 000 profissionais que atuam na capital.Da
consulta resultaram algumas quase-unanimidades, como nas especialidades de urologia,
geriatria, cirurgia cardíaca, cirurgia vascular e infectologia. Isso significa que
os vencedores ganharam com maior quantidade de votos e às vezes com larga vantagem
em relação ao segundo colocado, o que não ocorreu nas demais categorias. Tivemos
ainda uma especialidade polêmica: reprodução humana. Boa parte dos que participaram
da votação não quis indicar um médico nessa área, alguns alegando falta de familiaridade
com a nova especialidade da medicina, outros por considerá-la envolvida em questões
éticas. Por essa razão, foi eliminada. Em duas especialidades que cuidam do coração,
cirurgia cardíaca e cardiologia clínica, houve empate. Portanto, a reportagem traz
o perfil de 23 médicos em 21 especialidades.Como se verá a seguir, trata-se de um
time de profissionais altamente qualificados. Isso não significa, evidentemente,
que esses sejam os únicos médicos competentes de São Paulo. Além de considerados
os melhores pelos seus pares, os 23 vencedores dividem uma série de características
comuns: 100% são homens, 70% têm especialização no exterior, 52% exercem atividade
acadêmica e 61% afirmam ganhar acima de 50 000 reais por mês, realidade, como se
sabe, bem diferente do perfil de uma categoria que vive espremida entre o baixo 
salário do serviço público e as regras rígidas dos planos de saúde. Para se manterem
atualizados, esses craques do estetoscópio participam de pelo menos dois congressos
internacionais por ano, lêem exaustivamente e quase não desfrutam vida pessoal. 
Cobram em média 480 reais por uma consulta (a mais barata é 300 reais e a mais cara,
1 000 reais), o que os torna inatingíveis para a esmagadora maioria da população.
Apesar de obcecados por atualizações – o conhecimento na área médica praticamente
dobra a cada três anos –, todos, sem exceção, comungam de uma tese: o domínio da
técnica não basta. O exercício da medicina envolve a arte de ouvir os pacientes 
e principalmente diagnosticar os males que eles têm, algo que esses supermédicos,
segundo seus próprios pares, conseguem fazer com maestria. UROLOGISTAMiguel Srougi
Pense em políticos poderosos. E nos maiores empresários do país. Possivelmente eles
estarão entre os pacientes do urologista Miguel Srougi. A lista, que ele reluta 
em falar, é enorme: Lula, José Alencar, José Serra, Geraldo Alckmin, Joseph Safra,
Lázaro Brandão, Abilio Diniz, Olavo Setúbal, Antônio Ermírio de Moraes… Considerado
o primeiro médico do Brasil em número de cirurgias de câncer de próstata (realizou
até agora 2 750), Srougi é daqueles entrelaçados com a medicina até o último fio
de cabelo branco – e olha que não são poucos. Dá aula todos os dias (é professor
titular de urologia da Faculdade de Medicina da USP), atende até 25 pacientes diariamente
em seu consultório em Cerqueira César e três vezes por semana, incluindo os sábados,
opera no hospital Sírio-Libanês, no qual faz quarenta cirurgias por mês. As estatísticas
de incidência da doença explicam esse movimento. “Um em cada seis homens terá câncer
na próstata após os 50 anos”, afirma. Quando chega em sua casa, no Jardim Paulista,
por volta das 10 da noite, ainda arruma disposição ora para ler, ora para escrever.
Aos 60 anos, casado e pai de dois filhos, tem doze livros publicados. “Vivo num 
incessante processo de busca. Na verdade, não sei bem de quê…”, diz ele, que só 
vê os melhores amigos a cada três meses. Seu primeiro pulo-do-gato profissional 
foi a residência médica em urologia pela Harvard Medical School, nos Estados Unidos,
em 1977. Dois anos depois, fez doutorado em urologia na USP. Não parou de estudar(
e ensinar) desde então. Aproveita a proximidade com os pacientes famosos para garimpar
benefícios para a Faculdade de Medicina, que vive sangrando em seu orçamento. Em
agosto, inaugurou um moderno centro de ensino e pesquisa em cirurgia para os alunos.
Arrecadou 1,6 milhão de reais após alguns telefonemas. Como 70% desse valor foi 
doado por Joseph Safra, a sala ganhou o nome da mulher do banqueiro, Vicky Safra,
outra paciente de Srougi. No começo do ano, também pediu a doze clientes abonados
que destinassem 150 000 reais cada um para reformar uma casa que abriga 52 estudantes
de medicina. Srougi diz não aceitar de nenhum dos benfeitores os 500 reais que cobra
por consulta. “Das 25 pessoas que atendo por dia, cinco ou seis pagam. Quarenta 
por cento dos meus pacientes são médicos”, afirma o doutor, fã do cineasta Pedro
Almodóvar e do escritor Guimarães Rosa. Com fama de exigente e metódico, o bambambã
da urologia filosofa ao falar de seus sonhos: “Gostaria de ser exemplo para as novas
gerações, mesmo estando cheio de fraquezas”. OBSTETRACarlos Eduardo Czeresnia Como
parto normal pode acontecer a qualquer momento, o ginecologista e obstetra Carlos
Eduardo Czeresnia, a exemplo da maioria de seus colegas, não tem fim de semana, 
feriado nem, muito menos, noites garantidas. No último dia 27, à 1h55 da manhã, 
foi a vez de Sumaya Samed Saab (foto) vir ao mundo pelas suas mãos. “Essa imprevisibilidade
da obstetrícia me fascina”, diz ele, que, ao longo de 35 anos de profissão, contabiliza
cerca de 4 000 nascimentos. Numa época em que as mulheres e os médicos estão exagerando
na dose de cesárias (oito em cada dez partos nos hospitais particulares de São Paulo
são com hora marcada), Czeresnia é considerado um médico à moda antiga. “Cerca de
70% dos partos que faço são normais. Só agendo cesarianas se não houver outro jeito.”
O obstetra, que cobra 400 reais por consulta e atende nos hospitais Albert Einstein,
São Luiz e Pró-Matre, também ganhou os holofotes em 2005, por ter sido o primeiro
médico do país a realizar o parto de trigêmeos em duas datas diferentes – o primeiro
bebê nasceu de parto normal, enquanto os outros dois continuaram na barriga da mãe
e nasceram doze dias depois. “O procedimento só é possível em gestação de fetos 
não univitelinos e quando o primeiro nascimento ocorre muito prematuramente”, explica.
No ano passado, repetiu o feito com mais uma gestante de trigêmeos. As seis crianças
estão hoje saudáveis e suas fotos enfeitam, junto com outras tantas, o saguão da
clínica de Czeresnia nos Jardins. Exibe todas ali, como um grande troféu. ENDOCRINOLOGISTAAntonio
Roberto Chacra O entusiasmo dos pais diante de um convite de veludo verde para a
formatura de um amigo médico em São José do Rio Preto (SP) despertou em Antonio 
Roberto Chacra, então com 4 anos de idade, o desejo de seguir a profissão. “Essa
c
 en a me marcou muito”, lembra ele. “Hoje não consigo me imaginar fazendo outra
coisa.” Professor titular de endocrinologia da Universidade Federal de São Paulo,
Chacra viaja seis vezes por ano para participar de congressos. Nessas ocasiões, 
aproveita para levar dos aviões os jornais internacionais. “Sou vidrado em notícia”,
afirma ele, assinante das revistas americanas Time e Newsweek, da inglesa The Economist
e de diversas publicações brasileiras. Quando está por aqui, além das aulas na faculdade,
atende em média vinte pessoas por dia, entre retornos e novas consultas (550 reais),
em sua clínica no Ibirapuera. de delas está em busca de harmonia com a balança. 
Diz seguir à risca os conselhos que dá aos pacientes: associar alimentação equilibrada
a atividade física. “Não como frituras, evito carboidratos e caminho diariamente”,
afirma ele, 1,76 metro e 76 quilos. Bem antes de ser considerado um dos maiores 
especialistas em diabetes do país, Chacra, aos 24 anos, voltou a ver brilhar os 
olhos de seus pais diante de um convite de veludo verde. Dessa vez, seu convite 
de formatura. “Foi uma felicidade sem igual.” NEUROLOGISTA CLÍNICOEduardo Genaro
Mutarelli No iPod do neurologista Eduardo Genaro Mutarelli música não tem vez. Os
gigabytes do aparelho estão ocupados com a palestra sobre acidente vascular cerebral
do último congresso da Academia Americana de Neurologia. Como, a exemplo de alguns
de seus pacientes, sofre de dislexia, uma alteração neurológica que causa dificuldades
de aprendizagem, prefere ouvir a ler. “Isso sempre foi um grande problema para mim.
Depois virou um desafio. Tinha de provar que era bom em alguma coisa”, diz ele, 
que não só conseguiu cursar a Santa Casa de Misericórdia (foi o orador da turma)
como se tornou professor da Faculdade de Medicina da USP. Neurologista clínico dos
hospitais Sírio-Libanês e Oswaldo Cruz desde 1984, fala da sua equipe de doze profissionais
o tempo todo. “Devo muito a eles. Nessa área não dá para acertar sozinho”, afirma
Mutarelli, que cobra 600 reais por uma consulta. Aos 50 anos, gosta de velejar (
seu consultório é cheio de barquinhos que ganhou de presente) e cozinhar – ele jura
que prepara um risoto de alcachofra com vitela de primeira. “É sucesso garantido”,
conta. Como é do tipo que não gosta de perder “nem no par-ou-ímpar”, não pratica
esportes coletivos. Para manter a forma, corre três vezes por semana. Com cinco 
filhos com idade entre 1 e 21 anos, considera seu maior luxo poder viajar com a 
família toda. Já foram para Amazônia, Peru, Portugal e, como manda o sobrenome, 
Itália. OTORRINOLARINGOLOGISTAPaulo Augusto de Lima Pontes No consultório de Paulo
Augusto de Lima Pontes, especialista em otorrinolaringologia e cirurgia de cabeça
e pescoço, há todos os apetrechos normalmente usados pelos seus colegas e um inusitado
microfone. Como cuida da laringe e das cordas vocais de muitos atores, cantores 
e apresentadores de TV, caso de Silvio Santos, não raro pede a eles para soltar 
a voz durante o exame. “Em uma dessas ocasiões, ajudei até a compor uma letra”, 
diz ele, referindo-se a Renascer, da dupla sertaneja Goiano e Paranaense. Rodeado
por engenheiros civis na família, Pontes surpreendeu quando optou pela medicina.
Fez residência em cirurgia geral numa época em que boa parte das operações não tinha
final feliz. “Queria uma especialidade que ficasse mais distante da morte”, conta,
aos 64 anos. Durante o curso, curiosamente, teve um abscesso de amígdala. O contato
com a otorrinolaringologia o levou à escolha. Como professor titular da Universidade
Federal de São Paulo, Pontes dá aulas e opera três vezes por semana em hospitais
como Albert Einstein, Sírio-Libanês, Oswaldo Cruz, Santa Catarina e São Paulo, este
ligado à faculdade. Atende ainda vinte pacientes por dia (400 reais), entre retornos
e novos clientes, em seu consultório particular. Sai de lá com freqüência às 10 
da noite. “Minha vida é o trabalho, por isso me sinto doze meses em férias.” Quando
não está com o microfone nas mãos profissionalmente – foi palestrante em sessenta
eventos no exterior e quase 300 no Brasil –, gosta de cantar, assim como seus pacientes-
estrelas. Dá ouvido à própria voz e conclui: “Sou desafinado. Essa é a minha maior
mágoa”. ORTOPEDISTAGilberto Luis Camanho Às vésperas das Olimpíadas de Atlanta, 
em 1996, a jogadora Ana Moser, a principal atacante da seleção brasileira de vôlei
na época, passou por uma cirurgia no joelho. O prognóstico do seu médico era sombrio:
pelo menos seis meses de sessões de fisioterapia e recondicionamento físico. Com
a medalha de bronze em mãos – a primeira que uma equipe feminina trouxe para o Brasil–,
Ana Moser fez um interurbano para o seu ortopedista: “Tá vendo? Eu consegui, eu 
consegui!”. Essa é uma das muitas histórias de superação de seus pacientes famosos
que Gilberto Luis Camanho conta com orgulho. Especialista em joelho, uma das articulações
mais complexas do corpo, Camanho foi um dos introdutores da técnica conhecida como
artroscopia: com a ajuda de uma câmera de TV, o cirurgião repara os ligamentos e
corrige lesões do menisco e da cartilagem, por exemplo. Ele faz trinta cirurgias
por mês no Albert Einstein, no Hospital do Coração e no Hospital das Clínicas, onde
exerce o cargo de chefe do corpo clínico do Instituto de Ortopedia e Traumatologia.
No consultório, o vaivém também é grande: trinta pessoas por dia, entre retornos
e novos pacientes (400 reais a consulta). Ah, sim. Ele reconhece o que a maioria
dos médicos faz e não admite em público: “Atraso muito as minhas consultas. Esse
é o meu maior defeito”. Vaidoso, usa camisas e ternos feitos sob medida. “Com 1,90
metro, não é muito fácil achar roupas.” Para esfriar a cabeça, pratica um esporte
que tem pouco impacto nos joelhos: joga golfe pelo menos uma vez por semana. ONCOLOGISTA
CLÍNICO Antonio Carlos Buzaid É comum os pacientes chegarem ao consultório de Antonio
Carlos Buzaid, diretor-geral de oncologia do Hospital Sírio-Libanês, com exames 
suficientes para encher um carrinho de supermercado. O volume não o assusta. “Quanto
maior a complexidade do caso, mais eu gosto”, diz ele, que costuma chamar tumor 
de “bandido”. Em 1985, após se formar na Universidade de São Paulo e fazer dois 
anos de residência no Hospital das Clínicas, resolveu deixar o país. “Quando me 
formei, os doentes de câncer eram negligenciados. Ficavam à espera da morte.” Treze
anos de trabalho nos Estados Unidos como professor e pesquisador em instituições
como a Universidade Yale e o MD Anderson Cancer Center, da Universidade do Texas,
fizeram dele um especialista disputado. Setenta por cento de seus pacientes vêm 
de outros estados. Agendar a primeira consulta com Buzaid (800 reais) pode significar
três semanas de espera. Com um filho de 1 ano e outro a caminho, o médico – filho
do falecido jurista Alfredo Buzaid, que foi ministro da Justiça no governo Médici
e do Supremo Tribunal Federal – tenta, aos 49 anos, compatibilizar seu ritmo profissional
com o pessoal. O descompasso, no entanto, ainda é grande. Passa pelo menos doze 
horas no hospital, estuda oito horas por fim de semana e participa de três congressos
anualmente fora do Brasil. “O maior cansaço da oncologia é emocional”, afirma ele,
que para espairecer pratica windsurf e coleciona antiguidades. “Tratamos todos com
100% de esforço, mas infelizmente não temos sempre 100% de sucesso. E isso é muito
difícil de aceitar.”PEDIATRAAntranik Manissadjian Aos 83 anos, o pediatra Antranik
Manissadjian é um poço de boas histórias. Mesmo as que gostaria de esquecer, como
a morte de todos os seus seis irmãos durante a I Guerra Mundial num episódio que
ficou conhecido como “genocídio armênio”, conta com uma riqueza de detalhes de impressionar.
Nascido em Alepo, na Síria, Manissadjian veio com os pais para o Brasil em dezembro
de 1930. Disposto a dar o seu melhor à cidade que o acolheu, tornou-se médico. Entrou
na Faculdade de Medicina da USP em 1944. Trinta anos depois virou professor titular
da disciplina de pediatria, carg

o que exerceu até a sua aposentadoria, em 1994. Também foi diretor clínico do Hospital
das Clínicas durante doze anos. Recebe mães aflitas no consultório há exatos 55 
anos. O que mudou no comportamento delas em meio século? “Nada. Umas continuam me
obedecendo cegamente e outras continuam fazendo o que as amigas sugerem”, diz ele,
que responde a cerca de vinte ligações por dia. “A ansiedade das mães tem de ser
aliviada.” Manissadjian faz parte do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e atende
no consultório particular quatro vezes por semana. Tem uma teoria pouco prática 
em relação ao preço de suas consultas: “Vai de zero a infinito. Depende de quanto
a pessoa pode pagar”. Nem vale a pena gastar saliva com a secretária: “Isso é só
com ele”. Com quatro filhos e sete netos, o professor de grande parte dos profissionais
que atuam hoje em pediatria diz que não é preocupado com a forma física. “Só faço
alongamento no chuveiro”, conta Manissadjian, que teve apenas duas intercorrências
médicas mais sérias ao longo dos seus 83 anos: uma fratura exposta na perna depois
de um atropelamento em 1994 e uma apendicite aguda em 1942. “Na época fui operado
com anestesia de clorofórmio!”, diverte-se. CLÍNICO GERALMario Luiz Silva Barbosa
Sábado. O celular toca pelo menos vinte vezes. Nenhuma das ligações é de um amigo
querendo marcar uma pizza. Todas elas são de pacientes, com graus diferentes de 
queixas ou dúvidas, como a mulher que ligou no fim de semana para perguntar se podia
tingir o cabelo, já que estava tomando antibiótico… Nada disso parece abalar o humor
do clínico geral Mario Luiz Silva Barbosa, 56 anos, famoso entre os colegas por 
sua paciência e cordialidade. De fala mansa, esse mineiro de Guaxupé costuma atender
famílias inteiras, o que, segundo ele, muitas vezes facilita na hora do diagnóstico.
Na adolescência, após conviver por um ano e meio com o sofrimento de um primo com
câncer incurável, abandonou a idéia de cursar engenharia civil. “Passei a admirar
a profissão e resolvi ser médico”, lembra Barbosa, que transmitiu para dois dos 
três filhos o gosto pela medicina. Sua rotina não foge muito à dos colegas – atende
em média vinte pessoas por dia, entre consultas (400 reais) e visitas que faz aos
pacientes internados no Sírio-Libanês, hospital onde atua desde 1978. Para evitar
as doenças mais comuns que aparecem no seu consultório, como pressão alta, diabetes
e problemas cardíacos, joga tênis pelo menos duas vezes por semana. Também gosta
de caminhar nas areias de Juqueí, no Litoral Norte. Sempre com o inquieto celular
em mãos e pronto para dar respostas. Ainda que seja: “Sim, pode tingir o cabelo”.
CIRURGIÃO CARDÍACOSergio Almeida de OliveiraSegunda-feira 8. Às 7 da manhã, o mineiro
Sergio Almeida de Oliveira cumpre alguns rituais de aquecimento antes de começar
sua primeira cirurgia cardíaca do dia, desta vez no Hospital São José, ligado à 
Beneficência Portuguesa. Uma assistente faz uma pequena abertura no decote do seu
avental azul. “Ele não gosta de se sentir sufocado”, explica. Depois de enxugar 
as mãos, encesta o pano num lixo que fica a uns 2 metros de distância. É uma maneira
de testar a pontaria antes de abrir o paciente. Nesse caso, quem estava à mesa com
um estreitamento congênito na aorta era um médico curitibano de 51 anos. Nenhuma
novidade para Oliveira, que calcula ter operado cerca de 1 000 colegas. “Eles dão
mais trabalho, mas a gratificação é enorme”, diz. Como se estivesse regendo uma 
orquestra (aliás, não raro ele opera ouvindo a programação erudita da Cultura FM),
faz movimentos rápidos e firmes – maneja a tesoura, por exemplo, como um caubói 
antes de levar o revólver ao coldre. Até a mais experiente das bordadeiras invejaria
sua habilidade com pinças e linhas da espessura de um fio de cabelo. “O cirurgião
tem uma arma na mão. Não pode ser afoito”, afirma, em tom sempre baixo. Professor
emérito da Faculdade de Medicina da USP, Oliveira trabalha no Incor desde sua fundação
e treinou um sem-número de especialistas. Em 2002, foi eleito pelos membros da Sociedade
Brasileira de Cardiologia um dos onze profissionais da sua área que mais se destacaram
no século XX. Encabeçou a lista com outros dois cirurgiões lendários: Adib Jatene,
responsável, entre outras inovações, pela “cirurgia de Jatene”, que corrige uma 
anormalidade congênita do coração, e Euryclides Zerbini, morto em 1993, autor do
primeiro transplante cardíaco no Brasil, com quem trabalhou por quinze anos. Quando
partiu para a carreira-solo, em 1979, ele montou a equipe de cirurgia cardiovascular
da Beneficência Portuguesa. Lá é o seu QG, apesar de atender no consultório particular(
300 reais a consulta) e operar desde 1996 nos principais hospitais de ponta da cidade–
ao todo, ele e a equipe contabilizam 37 000 cirurgias. “Planejava parar aos 55 anos”,
afirma, alinhadíssimo em um terno bem cortado. “Estou com 72 e não penso mais nisso.”
Boa notícia aos que ainda serão regidos pelas mãos habilidosas do maestro Sergio
Almeida de Oliveira. Fabio JateneFabio Jatene carrega no sobrenome o peso e o orgulho
de uma família que faz história na medicina. Dos quatro filhos de Adib Jatene, um
dos mais prestigiados cardiologistas do país e atualmente professor emérito da Faculdade
de Medicina da USP, três optaram não só pela medicina como pela mesma área de atuação
do pai. Fabio até que titubeou. Aos 15 anos, pensou em ser piloto militar. Depois
resolveu que faria veterinária. Decidiu na última hora prestar vestibular para medicina.
Entrou na Fundação Universitária do ABC e fez residência em cirurgia-geral e cirurgia
torácica no Hospital das Clínicas. Dos muitos conselhos do pai, com quem trabalhou
por quinze anos consecutivos – dez deles como primeiro-assistente –, gravou um em
especial: “Você não precisa ser o melhor, mas precisa ser reconhecido e respeitado
pelas pessoas do seu meio”. Hoje, Fabio é dono de dois títulos importantes: diretor
do Serviço de Cirurgia Torácica do Hospital das Clínicas e professor titular do 
Departamento de Cardiopneumologia da Faculdade de Medicina da USP. Por semana, opera
de dez a doze pessoas, 70% delas no Incor e 30% em hospitais como Sírio-Libanês,
Hospital do Coração, Oswaldo Cruz e Albert Einstein. Em seu consultório, a consulta
sai por 330 reais. “Faço questão de todos os dias operar um paciente do SUS”, diz
ele, que pratica exercícios diariamente para agüentar o tranco de ficar pelo menos
oito horas em pé. A média de idade dos seus pacientes é de 65 anos. “Mas, com o 
aumento da longevidade, opero freqüentemente pessoas de 80 anos”, conta. Aos 52,
cultiva outra atividade que lhe dá tanto prazer quanto fazer uma ponte de safena
ou uma plastia na válvula mitral: criar mulas. “É um animal dócil, inteligente e
confortável”, descreve ele, que quando pode se refugia em seu sítio em Moji-Guaçu,
no interior do estado, para plantar árvores, mexer na terra e, quem diria, andar
de mula. CIRURGIÃO VASCULARJulio César Mariño Devoto de Nossa Senhora de Fátima,
o médico Julio César Mariño, que é paraguaio e veio para São Paulo aos 17 anos, 
costuma dizer com leve sotaque espanhol: “Tenho sorte e a mão de Deus”. Quem conhece
os resultados do cirurgião especializado em aneurismas (com exceção dos cerebrais)
sabe que a frase é simplista. Quando opera um paciente é como se estivesse desarmando
uma bomba-relógio. A tensão o faz perder até 2 quilos durante uma cirurgia, que 
leva em média quatro horas. Opera quinze pacientes por mês nos hospitais Sírio-Libanês,
Oswaldo Cruz e Nove de Julho. Pelos seus cálculos, tem cerca de 1 000 cirurgias 
de aneurisma de aorta no currículo. “Contribuir para preservar e prolongar a vida
de um paciente dá uma sensação íntima de plenitude inigualável”, afirma. Mariño 
acorda às 5h30 para a ginástica, vai à Faculdade de Medicina da USP, onde leciona,
visita os pacientes internados e termina o dia em seu consultório (500 reais). Para
minimizar os momentos de stress, apega-se ao violão, instrumento que o acompanha
des

de a adolescência. “Gosto de tocar chorinho”, conta o médico, que nos fins de semana
livres vai a Campos do Jordão para curtir outra paixão: os cavalos quarto-de-milha.“
Quem disse que o cachorro é o melhor amigo do homem?”

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 * [Contraceptivo eficaz e seguro](https://soropositivo.org/contraceptivo-eficaz-e-seguro/)
 * [Você e o Seu Médico](https://soropositivo.org/voce-e-o-seu-medico/)

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