# Precisamos renovar o discurso

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- Published: 2009-06-19T22:54:53-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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Padre Wagner Galvão, diretor do Colégio São Gonçalo, diz que a Igreja Católica não
vai mudar sua doutrina de 2 mil anos

Téo Meneses
 Da Redação

Diretor do Colégio São Gonçalo em Cuiabá, um dos maiores salesianos do Brasil, o
padre Wagner Luiz Galvão, 38, é um dos defensores da reformulação da linguagem das
instituições da Igreja Católica junto à sociedade. Ele acredita que, dessa forma,
poderão ser atraídos novos fiéis em torno do propósito de Deus.

Padre Wagner é responsável por um dos colégios mais tradicionais em Cuiabá e que
virou destaque na imprensa do país inteiro ao ter recentemente veiculadas imagens
de seus alunos brigando nas proximidades das escolas. O mesmo ocorreu com estudantes
do colégio Liceu Cuiabano.

Independente do episódio, padre Wagner não vê com ceticismo a influência atual da
Igreja na formação da juventude. Pelo contrário, avalia que tem sido acompanhado
cada vez mais por novos fiéis.

Também defende posições históricas da Igreja que, para muitos, resultam no afastamento
da juventude e a religião. – Leia abaixo a íntegra da entrevista.

A Gazeta – Por que a Igreja Católica tem perdido a influência na formação dos jovens?

Padre Wagner – A relação dos jovens com a Igreja nos últimos anos tem sido mais 
de ordem mística, espiritual. Os jovens, como todo o povo de Deus, mas principalmente
a juventude, buscam o transcendental. É uma ordem interessante. Muitos jovens que
participam dos retiros, dos encontros e dos nossos movimentos têm poucos conhecimentos
da doutrina da Igreja ou nem querem conhecer. Existe aí, portanto, uma faca de dois
gumes. Há muita participação da juventude na Igreja. Nossas igrejas estão cheias.
Temos muitos jovens aqui no santuário onde sou diretor. Nos retiros que eu participo,
vejo muitas pessoas novas o ano inteiro, porém, o conhecimento da doutrina e o que
a Igreja pensa sobre vários assuntos da sociedade, bioética, cultura e outras coisas
estão em segundo plano na cabeça dos nossos jovens.

A Gazeta – O que esses jovens que procuram a Igreja querem exatamente?

Padre Wagner – Em primeiro lugar, os jovens querem ter uma relação pessoal com Jesus
Cristo. Não querem conhecer profundamente as doutrinas da Igreja.

A Gazeta – Mas isso não é incoerente? Por que isso ocorre?

Padre Wagner – Acontece porque o que a Igreja ensina, para muita gente, não há um
entendimento completo da mensagem. Por exemplo, a questão da vida que estamos vivendo,
o ABORTO, a clonagem e outros assuntos não são de fácil compreensão para várias 
pessoas. Elas não conseguem pensar como a Igreja pensa. E a Igreja é uma instituição
de 2 mil anos. Foi fundada por Jesus Cristo e ele tem uma proposta de vida. Acontece
que a cultura mudou numa velocidade muito grande, mas a moral, a ética, a vida não
mudaram. Mas acredito que somos homens, mulheres, filhos de Deus da mesma forma.
Não podemos relativizar a vida. Em muitos lugares da sociedade, isso é feito em 
favor de uma falsa liberdade, que é sim libertinagem. Existe aí uma grande diferença
entre o ser livre e o ser libertino.

Ser livre é aquele que age de acordo com a própria consciência formada. O ser libertino
é aquele que vive apenas dos próprios anseios ou angústias.

A Gazeta – O sr. acredita que a Igreja deve readaptar, então, o discurso para agregar
mais pessoas?

Padre Wagner – A Igreja não pode mudar a sua doutrina. Foi Jesus Cristo quem a criou.
O que precisa ser feito é a modificação da roupagem. Às vezes, a linguagem de muitos
padres e catequistas é ultrapassada. Precisamos colocar em prática o que o papa 
João Paulo II disse já em 1989: nova evangelização. O que é isso? É evangelizar 
os jovens e a sociedade em geral com uma nova linguagem, uma nova roupagem e novos
métodos que não existem em muitas igrejas. Em muitas delas não existe isso porque
não se renovou a linguagem. Quando você toca o coração do jovem, quando você modifica
e converte a pessoa, automaticamente você mostra aos poucos qual o caminho para 
se chegar à plenitude em Jesus Cristo. Pelo contrário, muitas igrejas querem em 
primeiro lugar mostrar a moral e a doutrina da Igreja. Isso, muitas vezes, não é
compreendido por parte da população, principalmente o jovem. Precisa primeiro conquistar.
Depois, a gente mostra tudo o que Jesus nos ensina.

A Gazeta – Como seria isso na prática e na relação com a política, por exemplo?

Padre Wagner – Nós, Igreja, somos parte da sociedade e não podemos ficar alheios
à política. O que não podemos fazer é optar por uma lado partidário. O que devemos
fazer é orientar no sentido de valorização da vida, da moral, da Justiça e da igualdade
social. Quando falamos em partido político, existe a desagregação. Temos que orientar,
na prática, os jovens a serem transformadores. A Igreja tem esse papel. Como mãe,
a Igreja tem que acolher todas as pessoas. Não pode fazer uma opção por um partido
apenas.

A Gazeta – Existem temas, no entanto, que parecem não resultar num consenso. Neste
Carnaval, por exemplo, a Prefeitura de Recife (PE) distribuiu pílulas do dia seguinte.
Houve uma reação muito forte, principalmente por parte da Igreja Católica.

Padre Wagner – Nós não podemos aceitar o que foi feito. Essa PÍLULA é uma PÍLULA
abortiva. O que falta, no meu ponto-de-vista, é uma conversa com o povo. Temos que
explicar o que faz essa PÍLULA, o que é **CAMISINHA**, o anticoncepcional. Falta
diálogo. Ninguém aceita hoje o que vem imposto de cima sem discussão. Isso não pode
ser feito só no Carnaval. Tem que ser feito através de um processo longo e contínuo,
o ano inteiro. Aqui no Colégio São Gonçalo, por exemplo, os professores de ciência
e biologia discutem o que é isso em sala de aula durante o ano inteiro. Eles falam
disso não para ensinar a usar, mas para situar o jovem, passar a informação. Os 
jovens têm que conhecer e discernir o que é bom ou não. Nós nunca, no entanto, seremos
contra a vida. A Igreja é a favor da vida, mas existem muitas possibilidades das
pessoas terem uma EDUCAÇÃO SEXUAL sem apelação.

A Gazeta – Até porque essa discussão é polêmica. A PÍLULA do dia seguinte evita 
a gravidez, mas não tem efeito contra as **Doenças Sexualmente Transmissíveis** (**
DST**).

Padre Wagner – Verdade e isso não é muito colocado. Volto a dizer: falta diálogo
com os setores da sociedade. Isso é fundamental.

A Gazeta – A Igreja não perdeu influência em relação a outras fontes de formação
de opinião dos nossos jovens, como os próprios amigos?

Padre Wagner – Os jovens vivem na família, depois vão para a Igreja, para a escola.
Cada um dessas instituições influencia no processo. Cada etapa da pessoa vai ser
marcada pela convivência com uma tribo. Dizer que um influencia mais do que o outro
é complicado. Isso vai depender muito da educação de cada pessoa. A minha formação
também é em psicologia. Conheço muitas famílias que educam os filhos de forma bem
natural. Isso tem relação direta com a influência dos amigos. Se a família conversou
pouco, os amigos p
 odem ter grande influência.

A Gazeta – Muitas famílias acabam invocando esse discurso para criticar decisões
judiciais que têm relação direta com as decisões domésticas, como a proibição de
jogos eletrônicos considerados violentos, como o Counter Strike. O sr. é a favor
dessa proibição ou a família que deve ter opção de escolher o que é bom ou não para
os filhos?

Padre Wagner – É claro que é a família. Quem sabe o que é bom para os filhos são
os pais. Essa decisão não adiantará de nada, se os pais não acompanham o que se 
passa com filhos e filhas. Hoje nós temos muitas opções para driblar a proibição,
como a internet. Se o jovem não joga na casa de jogo, pode pegar na internet. Proibição
por proibição não é nada. Dom Bosco nos ensinou que educa-se os jovens com diálogo.

A Gazeta – Diante da perda de influência da Igreja Católica, como o Colégio São 
Gonçalo de Cuiabá consegue ser um dos maiores salesianos do Brasil?

Padre Wagner – A Igreja, querendo ou não, é uma das instituições de maior credibilidade
no mundo. Os pais nos procuraram, independente da religião que praticam, porque 
sabem que nós vamos oferecer uma educação para a vida. As outras escolas falam que
têm isso também, mas não ensinam como se portar na sociedade, como viver de acordo
com a doutrina de Deus. Também não gosto do termo perder a influência. As cidades
cresceram. A cultura muda rapidamente. Conforme dizem alguns antropólogos, a sociedade
vive na neomodernidade. A mentalidade de uma geração não muda mais a cada 5 anos,
e sim 2 anos. Talvez não tenhamos acompanhado esse ritmo pela falta de diálogo.

A Gazeta – O número de casamento também tem crescido.

Padre Wagner – Aqui na nossa paróquia faço quatro ou cinco casamentos num único 
sábado. Multiplique isso no ano, nos outros dias da semana. Na minha opinião, não
é a família que está falida e sim a nossa educação familiar. Quem está falhando 
é pai e mãe. Isso não significa ficar muito tempo com os filhos, mas fazer desse
tempo um tempo com qualidade.

## Leia também

 * [Igreja Católica mente na guerra contra os preservativos](https://soropositivo.org/igreja-catolica-mente-na-guerra-contra-os-preservativos/)
 * [Por minha culpa, minha máxima culpa](https://soropositivo.org/)
 * [Debate: Uso da camisinha ](https://soropositivo.org/debate-uso-da-camisinha/)

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