# PRIMEIRO TEXTO DO BLOG —Novembro de  2000

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- Published: 2025-07-06T20:18:22-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

Ainda dói porque ainda é verdade, parece que foi escrito ontem.

Este foi o primeiro texto que publiquei no blog Soropositivo: Um Blog para Ser Humano.
Escrevi isso no final do ano 2000, quando a internet ainda engatinhava no Brasil,
e viver com HIV era quase sinônimo de viver escondido.

São palavras duras, porque vieram de uma realidade dura. Mas são, acima de tudo,
um grito por dignidade. O tempo passou, os remédios melhoraram, mas o preconceito…
esse ainda resiste.

Muita gente acredita que “tá tudo bem agora”, que ninguém mais morre de AIDS, que
todo mundo é aceito. Mas isso não é verdade.

O preconceito ainda mata. A exclusão ainda fere. A ignorância ainda impera. Este
texto foi o início de tudo. E hoje, ao relê-lo, percebo que ele ainda diz muito 
sobre o que vivemos — eu, você, nós.

Leia. Reflita. Se puder, compartilhe.

E, sobretudo, não desista de ser quem você é. Com respeito e verdade, Cláudio Souza(
agora o Velho Souza) Autor de Memórias de um Homem da Noite.

 Bem-vindo Dia primeiro de dezembro de 2000 se “comemora” o dia mundial de luta 
contra a AIDS.

As emissoras de TV não falarão em outra coisa; idem as emissoras de rádio e os jornais.
Depois, o assunto cai, novamente, no esquecimento.

Cantamos, neste dia, muitas vitórias.

Tivemos mesmo, com a participação ativa das comunidades e das Organizações não Governamentais,
muitas vitórias:

![](https://i0.wp.com/soropositivo.org/wp-content/uploads/2025/07/32050e69d4eb994aa5a675e2421e5ef1.
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Há mais remédios; os exames são mais precisos; as pesquisas em torno de vacinas 
já progrediram muito.

O portador de HIV vive mais e com uma qualidade de vida maior… Sou obrigado a não
concordar com a qualidade de vida maior.

Qualidade de vida de vida não é só estar bem de saúde, a custa de remédios.

Qualidade de vida é acordar de manhã e enfrentar um ônibus, metro ou trem e chegar
ao trabalho, executar uma função, sair para o almoço com os amigos e voltar para
mais umas cinco horas de luta e, com isso, planejar o futuro.

Qualidade de vida é não precisar esconder a doença por medo de ser discriminado,
é não precisar se esconder como um criminoso só porque porta um vírus.

Qualidade de vida é poder sonhar com um futuro melhor, com uma casa própria, com
casamento, vida familiar. E a base de tudo isso esta no direito ao trabalho, aliado
ao direito à saúde e a igualdade.

Nossas vidas não podem permanecer resumidas a caixas de remédios e exames de laboratório.

Nossas vidas não podem ser vividas em órbita da doença ou da condição soropositiva.

O perfil do portador de HIV mudou; e mudou para melhor.

Já não morremos com tanta frequência. Já não somos internados tantas vezes, já não
desenvolvemos a doença e, em verdade, estamos fortes e saudáveis, aptos ao trabalho
e a vida social.

Houve um erro no inicio da epidemia: Ela foi atribuída a um grupo específico de 
pessoas, cuja conduta a sociedade tem por habito reprovar sem conhecer.

 Criaram – se expressões como peste gay, câncer gay, grupos de risco. Todas erradas,
mentirosas, discriminadoras. Todas estigmatizadoras.

E ninguém desfaz este erro. Todos agem como se nada tivesse ocorrido. A AIDS não
é privilégio de uns poucos.

> O HIV é bem pouco seletivo na hora de “escolher” seu hospedeiro. Brancos, negros,
> índios, heterossexuais, mulheres, crianças, homossexuais, bissexuais, qualquer
> um. Qualquer um pode contrair HIV e, se não se tratar, desenvolver AIDS.

![](https://i0.wp.com/soropositivo.org/wp-content/uploads/2025/07/3b37813a2c9e0cd75acb884e4b29f2ec.
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Mas a grande maioria, quando descobre, entra em tratamento, recupera a saúde e tem
condições de conduzir uma vida normal, como a de qualquer pessoa. Mas isso nos é
negado.

Se um empregador descobre que tem um portador de HIV em seu quadro de funcionários,
demite – o, sob qualquer pretexto, para se livrar de problemas futuros, que não 
são nada além de teóricos e.como dizem os empiristas, na prática, a teoria é outra.

Isso porque o empregador não quer correr o risco de encarar sozinho todo o ônus 
da eventual doença: Internações, licenças, ausências para controle, etc.

Tudo isso faz com que o portador de HIV seja considerado um funcionário, um trabalhador
pouco atraente. É preciso mudar isso, gerando estímulos fiscais a quem emprega o
soropositivo.

Desempregados, somos um ônus social. Ficamos dependendo do assistencialismo publico,
quase sempre precário, de nossas famílias, quase sempre de baixa renda, e nossa 
vida perde em qualidade e expectativa.

Empregados, cuidamos melhor de nossa saúde, consumimos mais, pagamos mais impostos
e vivemos felizes, produtivos e independentes.

A relação empregador/empregado_soropositivo/governo precisa mudar.

Não adianta criar um sem numero de leis que proíbam o empregador de demitir o soropositivo;
há leis e leis que proíbem um sem numero de coisas e elas continuam acontecendo,
mesmo proibidas.

> Ou uma lei que proíbe o trafico de drogas acabou com o trafico?

Ao contrário, ao invés de simplesmente “proteger” o portador de HIV, através de 
dispositivos legais, louváveis é claro, que punam a empresa e/ou pessoa que incorram
no crime de discriminação.

É preciso estimular o empregador a manter, através de beneficio fiscais, como já
disse, e pela criação de um banco de horas, o portador de HIV saudável e apto ao
trabalho em seu posto usual.

Feiras de artesanato, insisto, não resolvem nada. Nem todas as pessoas tem a habilidade
manual para isso ou se interessam por tal oficio.

E toda pessoa tem o direito de exercer a sua profissão, que aprendeu a desenvolver
com méritos próprios e esforço, muitas vezes, diuturno. Deus sabe quantos cartazes
eu colei em tapumes, na madrugada antes de chegar perto dos tocadiscos e me tornar
um DJ

A condição sorológica não desfaz estes méritos. Citando uma respeitada ativista,
Sílvia Almeida:

> _O HIV não muda o caráter de uma pessoa!_

A maneira como o individuo “pegou” o vírus também não deve entrar na questão, pois
não muda para melhor ou pior a qualidade do profissional em questão.

Deve, sempre, permanecer a condição de ser humano, digno de respeito, não de dó,
acima de qualquer coisa.

Enquanto isso, a sociedade precisa ser conscientizada, pelos meios de comunicação,
sobre a segurança do convívio com o portador de HIV.

A imprensa em geral deve isso à população, DEVE A NÓS PESSOAS VIVENDO COM HIV OU
AIDS, no seu mister de informar e esclarecer.

As campanhas de esclarecimento devem ser boladas por quem entenda do assunto, por
quem viva o assunto e por quem conheça a fundo o assunto. A visão social da AIDS
é equivocada.

NÃO morremos como moscas. E não transmitimos a doença pelo ar, por aperto de mão
ou contato social.

A relação sexual precisa ser protegida; mas não é para evitar apenas AIDS. Hoje,
25 anos após er escrito este texto, sei que uma pessoa que está com sua carga viral
indetectável por pelo menos seis meses e que se mantém em tratamento não é transmissora
do vírus.

E há a [PrEP ](https://soropositivo.org/profilaxia-pre-exposicao-prep-um-pouco-mais-sobre/)
e a [PEP](https://wp.me/p5jmXx-vhF)

É para evitar sífilis, gonorréia, hepatite, condiloma acuminado e uma miríade de
DST´s que são tão ou mais perigosas que a infecção por HIV. E mais, evita a gravidez
indesejada ou, pior, a gravidez adolescente.

> Esta visão social sobre a AIDS precisa ser acertada, corrigida.

E só os meios de comunicação de massa, em parceria com as Organizações não Governamentais
e o Governo tem condições de reparar este dano causado por eles mesmos e pela comunidade
científica, num momento em que muito pouca luz havia sobre o problema.

Você considera que a população esta devidamente esclarecida? Acha que eu estou exagerando?
Que o preconceito não é tão grande assim?

 Sente – se segura porque vive uma “relação estável”? Pense um pouco e chegará a
conclusão que não está tão segura assim.

Depois procure na seção depoimentos pessoais as histórias de mulheres que contraíram
o vírus de seus maridos e que abrem seus corações aqui, no afã de que isso não se
repita…

A AIDS é um problema de todos, sem distinção possível de gênero ou “modo de vida”.
MAs já não é a sentença de morte ou a “vingança de de Deus”(…). E é possível mudar
estas coisas com conscientização e esclarecimento, informação e boa vontade.

Temos uma excelente cobertura, no que tange a tratamentos, medicação e exames; pelo
menos por enquanto. Desta vez escapamos do genocida, mas ele e sua trupe continua
rondando

Mas isso, por si só, não nos basta.

Se podemos viver (e este é um direito natural de cada pessoa) com saúde, podemos
muito bem trabalhar para o nosso próprio sustento e o de nossas famílias (somos 
pais e mães de família), sem que sejamos discriminados por nossa condição sorológica.

De todos os sintomas da AIDS o pior deles ainda continua sendo, depois e 20 anos,
num mundo em que a maioria tem TV e acesso a Internet, o preconceito.

Urge que isso mude, e mude para melhor. Cláudio, e toda a equipe da soropositivo
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## Leia também

 * [O Que Sonho Como Meu Legado? Este blog Soropositivo.org](https://soropositivo.org/o-que-sonho-como-meu-legado-este-blog-soropositivo-org/)
 * [Em minha busca por conhecimento na área a que o blog Soropositivo se](https://soropositivo.org/pequeno-dicionario-do-hiv/)
 * [Primeiro editorial de soropositivo.org em primeiro de dezembro de 2000. O Início de tudo…](https://soropositivo.org/primeiro-editorial-de-soropositivo-org-em-primeiro-de-dezembro-de-2000/)

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