# Saúde – Acidentes de Consumo – Consequências inesperadas

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- Published: 2010-09-27T09:54:03-03:00
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26/09/2010

Especialistas afirmam que os chamados acidentes de consumo, que ocorrem mesmo quando
o consumidor segue corretamente as instruções dos fabricantes, já constituem um 
sério problema de saúde pública

Max Milliano Melo

[maxmillianomelo.df@dabr.com.br](https://soropositivo.org/saude-acidentes-de-consumo-consequencias-inesperadas/maxmillianomelo.df@dabr.com.br)

Em um passeio pelo shopping, a produtora Nathalie Sales Amaral, 35 anos, encontrou
em uma conhecida loja de departamentos uma réplica perfeita de seu sapato favorito.“
Eu tinha a versão de marca e encontrei um exatamente igual na loja. O melhor: pela
metade do preço que havia pago pelo meu”, relembra. Aproveitando a boa oportunidade
de continuar utilizando o modelo de calçado que gostava, Nathalie não pensou duas
vezes. Entrou, experimentou e comprou o sapato.

A história, que seria apenas uma entre tantas que acontecem em qualquer loja de 
calçados, teve, no entanto, um desfecho nem um pouco feliz. “Mais tarde, resolvi
estrear o sapato novo. No início, foi tudo bem, mas no meio da noite comecei a sentir
dores nos dedos. Como não era nada grave, não me preocupei”, relembra. No dia seguinte,
após acordar, ela teve uma surpresa desagradável. “Quando olhei os dedões dos meus
pés, percebi que as unhas estavam totalmente pretas e doendo muito. Poucos dias 
depois, elas caíram”, conta. Além da dor constante, a produtora teve que passar 
semanas sem usar calçados fechados. “Foi horrível. Eu usei o sapato por no máximo
seis horas e perdi duas unhas. Fiquei com tanto ódio que joguei ele fora”, conta.

Na época, Nathalie não sabia, mas ela foi mais uma vítima dos chamados acidentes
de consumo. “É assim que são chamados os efeitos negativos que ocorrem quando um
cliente utiliza corretamente um produto ou serviço, mas tem sua saúde ou segurança
colocada em risco”, explica o diretor substituto da Diretoria de Qualidade do Instituto
Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro), Paulo Coscarelli.“
Esses acidentes não têm origem certa. Recebemos desde relatos de problemas com produtos
de marcas bem estabelecidas até acidentes relacionados a utensílios pirateados”,
conta.

O diretor do Hospital São Paulo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp),
José Roberto Ferraro, explica que acidentes de consumo são um problema de saúde 
pública. “As consequências podem ser gravíssimas e levar até à morte”, alerta. Ele
conta que as principais vítimas são as crianças. “Em um levantamento que fizemos
em parceria com outros dois hospitais universitários, constatamos que 60% das vítimas
são crianças. É o caso do brinquedo que solta peças com muita facilidade ou de roupinhas
que podem sufocar o bebê. Por serem mais vulneráveis, o risco de um acidente ter
consequências graves é bem maior”, afirma.

O médico acredita que a notificação compulsória poderia ajudar a minimizar o problema.“
Hoje, se um médico detecta um caso de sarampo, de dengue ou de **AIDS**, por exemplo,
ele é obrigado a notificar os órgãos competentes. Se, porém, recebemos uma pessoa
que queimou a mão por causa de uma panela de má qualidade ou cortou o dedo devido
a uma embalagem de ervilhas malfeita, essa notificação não é obrigatória”, afirma.“
Um bom exemplo é o caso de uma famosa marca de canetas. Crianças inalavam a tampinha
que ficava no final do tubo. Devido aos constantes casos, a empresa redesenhou a
caneta para essa tampinha não sair com facilidade”, exemplifica José Roberto.

Registros – Para ajudar a diminuir o problema, o Inmetro criou, há três anos, um
canal de comunicação com os consumidores, que podem notificar o órgão sobre eventuais
acidentes que tenham sofrido. “Não se trata de uma reclamação, que vá gerar um processo
ou responsabilização por danos. Os registros servem para ajudar a orientar nossas
ações. Quando uma pessoa reclama de um determinado produto, vamos atrás do fabricante
apurar as responsabilidaes”, explica Coscarelli. “Quando não se trata de um produto
de nossa responsabilidade, como os alimentos, por exemplo, nós avisamos o órgão 
responsável. No caso, a Vigiância Sanitária”, completa.

Apesar de ser pouco conhecido pelos consumidores, o espaço de notificação já surtiu
efeito. “No início do nosso monitoramento o principal alvo de reclamações eram as
escadas domésticas dobráveis. As constantes reclamações de acidentes fizeram com
que elas entrassem para o grupo de produtos com fiscalização compulsória”, exemplifica.
Isso quer dizer que esses produtos passaram a ser fiscalizados de maneira constante.“
Por isso, as reclamações de acidentes diminuíram”, completa.

Ainda não existem estatísticas de vítimas de acidentes de consumo no Brasil. “Nos
Estados Unidos, onde esse monitoramento é feito há mais de 30 anos, o prejuízo anual
causado por esse tipo de situação é de 700 bilhões de dólares por ano”, conta Cascorelli.“
Por lá, as agências de fiscalização fazem um monitoramento em hospitais, em busca
de dados sobre acidentes de consumo”. O monitoramento hospitalar começou este ano
a ser feito no Brasil. “Por enquanto, o projeto é piloto, realizado em dois hospitais
do Rio de Janeiro, mas nossa intenção é expandi-lo para o restante do país””, afirma.

Se o convênio entre hospitais e órgãos reguladores já estivesse funcionando, um 
dos casos notificados seria o do empresário André Luiz Guerino, 36 anos. Cerca de
duas horas depois de consumir um salgadinho em uma lanchonete da Asa Norte, em Brasília
ele começou a sentir náuseas e enjoos. “Quando os sintomas começaram a piorar, procurei
um pronto-socorro. Cheguei lá com diarreia, fraqueza e calafrios. Estava tão mal
que os médicos me internaram na hora”, relembra. A causa do problema foi uma contaminação
no alimento que ingeriu. “Fiquei tão mal que o médico cogitou fazer uma lavagem 
estomacal e, se não surtisse efeito, teria que fazer uma cirurgia. Foram três dias
internado e mais 10 dias de repouso em casa para me recuperar”, relata.

Para ele, a pior parte do problema é a dificuldade de prevenção. “O local onde comi
é bastante tradicional. É difícil prever quando esse tipo de coisa vai acontecer
e, quando ocorre, provar e pedir uma reparação pelo problema é mais difícil ainda”,
afirma, em referência à dificuldade de mostrar à Justiça que o problema de saúde
foi causado por um produto contaminado. “Quem guarda nota fiscal de lanchonete? 
Pelo menos, depois disso aprendi: sempre que compro qualquer coisa, guardo os comprovantes
por um bom tempo. Assim fica mais fácil de correr atrás dos meus direitos”, conclui.

**[DIÁRIO DE PERNAMBUCO](http://www.diariodepernambuco.com.br/) – PE | BRASIL **

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