# Ser bi está na moda

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- Published: 2009-06-16T11:53:42-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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 As artistas dizem que são bissexuais. As meninas ficam com outras meninas. Alguma
coisa está mudando ou é tudo marketing e imitação? Martha Mendonça e Fernanda Colavitti

Dave Hogan

Elas são bonitas, femininas, vaidosas. E gostam umas das outras. Ao menos é o que
dizem – e dizem cada vez mais. Em três semanas consecutivas de maio, três estrelas
americanas famosas revelaram que sentem atração pelo mesmo sexo. Megan Fox, símbolo
sexual da nova geração, afirmou que prefere as mulheres por serem mais “limpinhas”.
O furacão Fergie, do Black Eyed Peas, disse que gostou de experimentar moças. A 
performática Lady Gaga confirmou sua bissexualidade – e aproveitou para lançar um
clipe da nova música beijando outra mulher. Em abril, fora a vez de Kelly McGillis,
musa dos anos 80.

 

A jovem atriz americana Lindsay Lohan, ídolo teen do cinema, não tem escondido sua
dor de cotovelo depois que a namorada, uma DJ, a abandonou. Isso sem falar na megaestrela
Angelina Jolie, que, antes de se tornar mãe de família, alardeava sua bissexualidade(
Brad Pitt acreditou, mas na cama do casal, em vez de outras mulheres, há cada vez
mais crianças). No Brasil, Preta Gil não cansa de se rotular como “total flex”. 
Afinal, trata-se da liberação de um desejo feminino ou de estratégia de marketing?

Para os especialistas, as duas respostas estão corretas. O erotismo que envolve 
duas mulheres é infalível em termos de mídia – graças à curiosidade geral sobre 
a homossexualidade e ao fato de ser a fantasia número um dos homens. Mas a natureza
feminina, mais flexível e com menos defesas em relação à afetividade, acaba proporcionando
uma liberdade maior no campo sexual – sem que necessariamente haja rotulações. “
Viver uma ou outra experiência com alguém do mesmo sexo é diferente de ser bissexual”,
afirma Carmita Abdo, psiquiatra e coordenadora do Projeto Sexualidade da Universidade
de São Paulo (USP). “Nem todas as pessoas crescem com uma definição tão absoluta
quanto à orientação sexual. Muitas vezes é preciso amadurecer para chegar a uma 
identidade. E hoje existe uma maior permissividade para a experimentação.” Lançado
no ano passado, o livro Look both ways (Olhe para os dois lados), das terapeutas
americanas Elizabeth Oxley e Claire Lucius, vai na mesma direção. Para as autoras,
homens e mulheres têm a mesma curiosidade sobre o mesmo sexo. Mas as mulheres, que
não têm barreiras em beijar e abraçar confortavelmente suas amigas, migram mais 
facilmente para o teste sexual. Até aí, tudo bem. Mas é mesmo necessário contar 
tudo na primeira entrevista?

“É marketing total”, diz a webdesigner paulista Del Torres, idealizadora do Leskut–
um site de relacionamentos só entre meninas que, em nove meses, já tem 14 mil participantes.
LÉSBICA assumida, 29 anos, ela diz que, quando existe o desejo verdadeiro, o comportamento
é discreto. “As celebridades estão cansadas de saber que esse tipo de declaração
chama a atenção, além de torná-las modernas e mais interessantes.” Del lembra a 
história da dupla de rock russa t.A.t.U. Em 2004, as duas meninas já haviam vendido
mais de 2 milhões de CDs, alardeando a ideia de que eram namoradas. No clipe mais
famoso, da música “All the things she said” (“Todas as coisas que ela disse”), mostravam
o sofrimento por um amor proibido. Usando uniforme de estudantes. Na chuva. “Quando
a dupla se desfez, uma delas engravidou do namorado secreto, com quem está casada
até hoje”, diz Del. Agora querem voltar a gravar juntas e já avisaram, em entrevista
recente: “Quando bebemos, ainda ficamos”.

 

Não há dúvida de que mulher com mulher dá audiência. Há quem diga que tudo começou
com o beijo cinematográfico que Madonna deu em Britney Spears no Video Music Awards,
em 2003. Não foi um selinho. Justin Timberlake, ex de Britney e a caminho, na época,
de tornar-se parceiro musical de Madonna, não conseguiu disfarçar o choque, registrado
pelas câmeras. Hoje, apenas cinco anos depois, talvez já achasse normal.

Há uma epidemia de beijos femininos na mídia, das brasileiras do axé Daniela Mercury
e Alinne Rosa, na gravação de um DVD no ano passado, às francesas Sophie Marceau
e Monica Bellucci, nuas e abraçadas na revista Paris Match deste mês. No último 
Big brother, a sensação foi o selinho debaixo d’água de Priscila e Milena, que bateu
recordes nos sites de notícias. O recém-formado grupo nacional Sexy Dolls anunciou,
em seu primeiro clipe, um “beijo triplo”. O vídeo ficou quase uma semana entre os
mais vistos do portal Globo.com. Até Woody Allen não resistiu e colocou no filme
Vicky Cristina Barcelona uma cena em que Scarlett Johansson beija Penélope Cruz –
acontecimento que foi badalado insistentemente anos antes de o filme entrar em cartaz.

Qual é o reflexo de tantas cenas públicas e declarações de bissexualidade na cabeça
das adolescentes, mulheres em formação? A psicoterapeuta e sexóloga Mara Pusch, 
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), acredita que o fenômeno da bissexualidade
feminina na mídia libera as meninas para o desejo de experimentação inerente aos
seres humanos. “Quando uma menina diz que é bissexual, ela talvez nem saiba direito
do que está falando. Está apenas querendo descobrir do que gosta, o que quer. Se
uma pessoa famosa diz que faz o mesmo, ela se sente mais livre”, afirma. “Nesse 
treino de sexualidade, as meninas costumam não entender direito o que sentem pela
melhor amiga, se é admiração ou atração. E ficam mais confortáveis de colocar à 
prova.”

E onde entram os meninos nisso? Para a psiquiatra Carmita Abdo, muitas vezes eles
é que estão no centro de tudo. “São jogos sexuais. Elas sabem que, hoje, beijar 
a amiga na boca é uma forma de atrair os meninos”, afirma. Del Torres, do Leskut,
diz que “virou modinha” as garotas viverem agarradas, sentarem uma no colo da outra
ou se beijarem no meio da turma – mesmo que não se digam claramente bissexuais. “
Elas acham cool, gostam de chocar e também de atrair os garotos. Mas a verdade é
que não se definiram ainda”, diz.

A estudante de marketing paulistana Lygia, de 19 anos, conta que seu primeiro beijo
foi aos 9. Na melhor amiga. “Nós estávamos brincando, eu fui chegando perto e a 
beijei”, diz. Um pouco mais velha, passou a ficar com meninos, mas só porque as 
amigas faziam o mesmo. No ano passado seguiu seu desejo e ficou de novo com uma 
menina. “Agora sou LÉSBICA. Acho bom que hoje o preconceito seja menor”, diz.

Ela já contou aos pais e a alguns amigos sobre suas experiências. Outra estudante,
Aline, de 16 anos, ficou com uma menina aos 13. Tudo começou quando a amiga contou
que gostava de meninas. Alguma coisa a acendeu: “Ainda é cedo para me definir. Hoje
eu digo que sou bi. Mas no futuro posso mudar”.

Se a homossexualidade – ou bissexualidade – feminina está mais palatável, é porque
vem embrulhada num pacote delicado e feminino. Quando o armário se abre, saem dele
mulheres magras, sexy, de batom. É o fenômeno chamado light lesbian chic ou lipstick
lesbian, cujo símbolo televisivo é o seriado americano The L word, que já entra 
na quinta temporada. Nele, um grupo de lésbicas lindas vive histórias de amor repletas
de cenas tórridas. Professora de literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro(
UFRJ) e autora de livros sobre homossexualidade como As heroínas saem do armário,
Lúcia Facco critica a força do modelo da “LÉSBICA de batom” como o único aceito (
e até festejado) na sociedade.

 

“De repente, mulher gostar de mulher entrou na moda. Mas desde que elas tenham características
consideradas femininas, que atraiam os olhares masculinos e não choquem”, afirma.
Para ela, o imaginário social poderia ser mais bem trabalhado para compreender e
aceitar bissexuais e lésbicas de uma maneira geral – bem como todo o universo HOMOSSEXUAL.
Essa é uma possibilidade. A outra é lembrar às garotas, em casa, que nem tudo o 
que seus ídolos fazem ou dizem que fazem precisa ser imitado. E que tampouco precisam
se deixar levar pelos garotos a fingir que são o que não são.

Assim é fácil atrair a atenção

As demonstrações e (sobretudo) declarações de bissexualidade e suas famosas protagonistas

Marlene Bergamo DANIELA MERCURY

A baiana causou impacto ao beijar Alinne Rosa, da banda Cheiro de Amor, na gravação
de um DVD no ano passado. Ela também é musa da filósofa americana Camile Paglia,
assumidamente LÉSBICA, que foi neste Carnaval a Salvador para vê-la

Divulgação FERGIE

A vocalista do Black Eyed Peas revelou ao jornal The Sun que, apesar de nunca ter
namorado, já teve experiência com mulheres. Ela se casou em janeiro com o ator Josh
Duhamel

Chris Pizzello BIG BEIJO

Priscila (à esq.), a ex-BBB mais voluptuosa da história, deu vários selinhos na 
amiga Milena, deixando doidos os rapazes. O mais famoso foi debaixo d’água, registrado
pela câmera da piscina

Win Mcnamee LADY GAGA

A cantora performática, sensação pop nos Estados Unidos, disse à revista Rolling
Stone que continua gostando de meninas. Para deixar claro, lançou um clipe em que
beija outra mulher

Evan Agostini MEGAN FOX

Uma das atrizes mais lindas do mundo, a estrela de Transformers, de 23 anos, disse
à revista Esquire de junho que é bissexual – apesar dos cinco anos de namoro com
um ator americano. “As mulheres são mais limpinhas”, afirmou

Jennifer Graylock A PIONEIRA

Madonna inaugurou a temporada de beijos lésbicos em 2003, com Britney Spears, no
Video Music Awards. Antes, fez danças sensuais com bailarinas nos shows

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## Leia também

 * [Moda “vintage” divulga sexo seguro entre cinquentões](https://soropositivo.org/)
 * [Mais brasileiras estão satisfeitas com a vida sexual](https://soropositivo.org/mais-brasileiras-estao-satisfeitas-com-a-vida-sexual/)

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