# Sinto que não tenho muito mais tempo aqui

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- Published: 2009-06-05T23:07:48-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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[⌊Octavio Augusto Ceva Antunes⌉⌊Octavio Augusto Ceva Antunes⌉[

Sinto que não tenho mais muito tempo por aqui…

Octavio Augusto Ceva Antunes expressou preocupação a um amigo. Octavio estava no
voo 447 com a mulher, Patrícia, e o filho do casal, Matheus, de 3 anos
 Eliane Brum
e Rafael Pereira Octavio Augusto Ceva Antunes acreditava que sua vida seria breve.
Por isso ele tinha pressa, dizem os amigos. Cientista de primeira linha no Brasil,
era também um dos pesquisadores mais produtivos do Instituto de Química da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Embarcou no avião com sua segunda mulher, Patrícia
Maria Nazareth Ceva Antunes, funcionária da Anvisa, 38 anos, e o filho Matheus, 
de 3, para passar um mês como professor-visitante da Université de Cergy-Pontoise,
em Paris. Marcela, uma de suas duas filhas do primeiro casamento, levou a família
ao aeroporto.

Ao ter sua vida interrompida pelo voo 447 da Air France, Octavio tinha publicado
mais de 200 artigos em revistas científicas internacionais, feito 23 pedidos de 
patentes, supervisionado mais de 20 pós-doutorados, 46 dissertações de mestrado 
e 30 teses de doutorado nas áreas de Química, Bioquímica e Engenharia Química. De
2004 a 2008, foi consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS), na produção de
fármacos anti-HIV, uma de suas linhas de pesquisa. “Ele era um cientista de verdade”,
diz o amigo Alexandre Leiras, da Escola de Química da UFRJ. “Não ficava só elocubrando.
Pesquisava e mostrava resultado.”

Patrícia havia sido sua aluna, antes de se apaixonarem. Desde 2005, ela trabalhava
na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) cuidando da análise técnica
de pedidos de registro de produtos que continham tabaco na composição. A viagem 
à França com o marido e o filho fora planejada há bastante tempo. Tornara-se seu
assunto preferido no trabalho. “Ela falava alguma coisa de inglês, mas estava fazendo
curso de francês na hora do almoço só por conta da viagem. Eles tinham alugado um
apartamento e passariam um mês inteiro lá”, afirma Humberto Martins, chefe de Patrícia
na Anvisa.

Humberto foi um dos primeiros a ver a lista oficial de passageiros do voo 447, da
Air France. Quando soube que o avião tinha caído, foi até o aeroporto internacional
Tom Jobim para conseguir informações. Como, além de amigo de uma das vítimas, é 
gerente da Anvisa, acabou por ter acesso livre à sala onde os parentes estavam se
reunindo. Ao confirmar o nome de Patrícia entre as vítimas, ligou para avisar a 
família. “Eles pediram para que eu desse informações à imprensa em nome da família,
porque estão todos muito consternados. No trabalho, todos choramos muito e fizemos
um minuto de silêncio em homenagem a ela”, afirma Humberto Martins. “Todos nos despedimos
dela na sexta-feira, e foi muito emocionante. Mas nunca imaginaríamos que seria 
uma despedida definitiva.”

Octavio Ceva Antunes já havia enfrentado percalços do coração, mas sobreviveu. Emagreceu
e, com algumas recaídas, tornara-se vegetariano. Era professor-titular do Instituto
de Química, mas apreciava a filosofia que povoava uma biblioteca de mais de mil 
livros. Gostava de falar sobre as simetrias do universo e as compreendia como beleza.
Ao encontrar-se com o colega e amigo Marcelo Pereira, faziam questão de tomar um
café e dedicar-se a divagações sobre a vida.

Dias antes de viajar, num desses encontros, ele estava agitado. “Sinto que não tenho
muito mais tempo aqui”, disse a Marcelo. “Isso é porque você vai pra Europa, está
com medo da gripe do porco”, brincou o amigo. “Não é por isso, não”, afirmou Octavio.
Era uma conversa recorrente. Só ganhou peso de premonição quando o avião desapareceu
na noite.

Octavio gostava de repetir que todas as pessoas fazem falta ao mundo. Era sério 
no trabalho, mas ria muito da vida. Ao fim de cada dia, afirmava: “Consegui chegar
ao fim do dia sem f. nem sacanear ninguém e ainda trabalhei”. Octavio Augusto Ceva
Antunes, sua mulher Patrícia e seu filho Matheus desapareceram antes do final do
domingo. Como todos os passageiros e tripulantes do voo 447, cada um a sua maneira,
farão muita falta ao mundo.

Saiba mais sobre [Octavio Augusto Ceva Antunes](http://soropositivo.org/wp-content/uploads/2009/06/perfis_otavioceva.html)(
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05/JUNHO/09

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