# #soropositivoorg Uma questão de segurança

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- Published: 2010-08-16T14:18:02-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

|   **O GLOBO | OPINIÃO **

AIDS | HEPATITE

 

TANIA MARIA ONZI PIETROBELLI

Até os anos 80, os bancos de sangue no Brasil não dispunham de um exame que detectasse a presença dos vírus de doenças como **AIDS** e hepatite. Por isso, era comum que pessoas com hemofilia, que dependem de transfusões quase rotineiras, fossem contaminadas e tivessem sua saúde comprometida seriamente.

![hemofilia](images/stories/hemofilia.jpg)

Assim aconteceu com os irmãos Betinho, Henfil e Chico Mário, ícones de nossa história política e cultural que morreram por complicações da **AIDS** após contraírem a doença em transfusão sanguínea.

O atual teste de sorologia utilizado nos bancos de sangue foi adotado como obrigatório no Brasil com anos de atraso. Essa determinação reduziu drasticamente a taxa de contaminação por transfusão sanguínea, o que nos leva a pensar em quantas vidas seriam salvas se a medida fosse adotada com antecedência.

É provável que jamais consigamos determinar quantos receberam sangue contaminado por vírus de doenças graves, doado por pessoas que sequer sabiam do contágio.

O fato é que em saúde, investimentos atrasados costumam custar mais caro que uma economia pontual.

Os exames realizados atualmente nos bancos de sangue garantem um bom nível de segurança em comparação à situação anterior, mas isso não justifica que o mesmo erro seja cometido novamente. Como se sabe, o teste de sorologia (usado para detectar os vírus da **AIDS** e da hepatite) só é eficiente após uma janela imunológica, que é o tempo necessário para o organismo “responder” à presença do vírus, produzindo anticorpos em um nível detectável pelo exame.

Atualmente, contudo, já foi desenvolvida uma tecnologia que reduz significativamente o período mínimo entre contaminação e detecção da doença. Diferentemente do teste de sorologia, o exame de amplificação de ácidos nucleicos (NAT, na sigla em inglês) não detecta a presença de anticorpos, mas procura por traços do próprio vírus, o que reduz a janela imunológica para detecção do **HIV** de 22 para sete dias. Para hepatite, esse período cai de 70 para 11 dias.

Apesar de estar disponível no Brasil desde 2002 e já ser utilizado em alguns hospitais privados, o teste não é encontrado na rede pública, o que expõe os centros de hemoterapia a um risco desnecessário: segundo estimativas do Ministério da Saúde, uma em cada 13.272 bolsas de sangue está contaminada por **HEPATITE C**, com doação feita durante a janela imunológica. Para a **AIDS**, a Fundação Pró-Sangue de São Paulo revelou em pesquisa recente que esse índice é de uma em cada 60 mil bolsas de sangue.

A utilização do teste que pode melhorar a segurança das transfusões de sangue foi tema de uma consulta pública realizada nos últimos dois meses pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Segundo a proposta do órgão, o exame NAT passaria a ser utilizado obrigatoriamente para testar se as bolsas de sangue estão contaminadas com o vírus **HIV**, mas não haveria obrigatoriedade de teste para as hepatites.

Apesar de representar um avanço parcial, a indicação é falha em matéria de saúde pública, pois as hepatites atingem um número muito maior de pessoas – o Ministério da Saúde estima que existam dois milhões de pessoas apenas com o subtipo B da doença, que teve um aumento de 30 vezes nos diagnósticos anuais entre 1999 e 2009, passando de 473 para 14.601. Além disso, os novos casos de **HEPATITE C** também aumentaram entre 1999 e 2007, com pequenas quedas nos dois últimos anos. Mesmo assim, em 2009 foram confirmados no Brasil 9.794 novos casos desse subtipo da doença, que se torna crônica em 70% dos casos.

Como forma de tentar corrigir essa falha da nova regulamentação, a Federação Brasileira de Hemofilia e outras instituições que atuam na área de doenças do sangue responderam à consulta pública solicitando a inclusão do NAT também para teste das hepatites. Os exames mais eficazes já estão disponíveis no Brasil e cobraremos dos governantes que eles sejam utilizados. A proposta da Anvisa precisa ser revista nesse sentido, antes que um novo atraso nos coloque a lamentar mais vidas que poderiam ser salvas.

TANIA MARIA ONZI PIETROBELLI é presidente da Federação Brasileira de Hemofilia.

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