# Tuberculose: Um mal esquecido

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- Published: 2010-01-19T12:38:23-02:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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 * [CORREIO BRAZILIENSE](https://soropositivo.org/tuberculose-um-mal-esquecido/#correio-braziliense)
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Doença milenar, a tuberculose continua matando milhares de pessoas, principalmente
por causa da falta de informação. Nem todos os médicos sabem distingui-la da pneumonia,
o que atrasa o tratamento adequado

Márcia Neri

 

Apesar de acompanhar a humanidade há pelo menos 5 mil anos, e a despeito de ser 
curável há meio século, a tuberculose (TB) ainda faz milhares de vítimas em todo
o mundo. Um terço da população mundial está infectada pelo agente causador da doença,
a bactéria Mycobacterium tuberculosis, ou bacilo de Koch. Em 10% desse contingente,
a enfermidade se manifesta. Os países em desenvolvimento são os mais atingidos, 
e a patologia é destaque no rol das doenças negligenciadas. Três milhões de pessoas
não resistem à mazela a cada ano. Dados do Ministério da Saúde revelam que, no Brasil,
são registrados anualmente 80 mil novos casos do mal, com 5 mil óbitos. Mas cerca
de 50 milhões de brasileiros podem estar infectados.

 

O país integra o bloco dos 22 países em desenvolvimento que abrigam 80% dos portadores
da doença. Ao contrário das nações desenvolvidas, onde o mal é mais frequente em
pessoas idosas, por aqui a tuberculose acomete todos os grupos etários. Os homens
adoecem duas vezes mais que as mulheres, e a prevalência é maior em áreas de alta
concentração populacional, com precárias condições socioeconômica e sanitária.

 

O infectologista Alexandre Cunha explica que a TB é famosa pelo acometimento pulmonar,
mas poucos sabem que outros órgãos do corpo, como a pele, os rins, os ossos, o fígado
e até os olhos podem ser atacados pelo bacilo. “A tuberculose é uma patologia infecciosa
pouco lembrada por alguns médicos. Não raro, é confundida com a pneumonia, o que
acaba postergando o tratamento adequado”, lamenta.

 

Oportunista

 

A TB é transmitida de pessoa para pessoa pelo ar. A fala, o espirro e principalmente
a tosse da vítima da tuberculose pulmonar lançam gotículas com o bacilo no ambiente.
No entanto, nem todas as pessoas expostas à bactéria são infectadas. A doença é 
oportunista. “A manifestação da tuberculose depende das condições do sistema imunológico.
O bacilo pode ficar alojado por muitos anos. Quando a imunidade sofre uma queda,
os sintomas se manifestam. Algumas pessoas chegam a não desenvolver o problema nunca”,
explica Alexandre. Com o surgimento da **AIDS** na década de 1980, a tuberculose
voltou a ser uma grande preocupação. “Pacientes imunossuprimidos são muito susceptíveis
ao bacilo”, conta.

 

No caso da TB pulmonar, o diagnóstico é feito por meio das coletas de secreções 
respiratórias (catarro) ou do material recolhido no pulmão. Nos outros órgãos, geralmente,
é feita a biópsia para comprovar a presença do bacilo. “Febre persistente com suores
e calafrios noturnos, perda de apetite, emagrecimento, fraqueza e prostração são
os sintomas mais comuns. A tosse ocorre quando a bactéria causa infecção nos pulmões”,
acrescenta o médico. Ele enfatiza que a tuberculose é uma doença de evolução relativamente
lenta, mas que leva à morte se não for remediada a tempo.

 

A psicóloga Vania Moraes Oliveira, 31 anos, se surpreendeu com o diagnóstico, que
veio somente quando os pulmões já estavam bem comprometidos. Ela contraiu a doença
no Rio de Janeiro em um período que trabalhou na cidade. “Passei a sentir algumas
fisgadas nas costas. Imaginei que fosse decorrência das aulas de natação. Fui ao
médico e ele supôs que poderiam ser gases”, relata.

 

Como as dores não passaram, Vania procurou outro especialista dois meses mais tarde,
época em que passou a ter febre constante também. “Novamente, nenhum pedido de teste
ou exame foi feito. Fui medicada para sinusite. Ao visitar minha família em Brasília,
comecei a sentir falta de ar constantemente. Procurei novamente um médico e dessa
vez uma radiografia detectou um derrame na pleura, membrana que reveste o pulmão.
Fui internada, e à essa altura começaram as tosses, mas para confirmar o diagnóstico
precisei passar por um procedimento cirúrgico”, conta.

 

Vania seguiu corretamente as orientações médicas em relação ao tratamento e está
completamente curada. A doença é remediada com um esquema de antibióticos que devem
ser tomados rigorosamente por um semestre. Os remédios são distribuídos pelo governo.“
O grande problema do controle da tuberculose é o abandono antes do fim dos seis 
meses. Como os sintomas melhoram em pouco tempo e os efeitos colaterais são comuns,
muitos pacientes não completam o tratamento, fato que favorece o surgimento de cepas
multirresistentes do bacilo de Koch”, pondera o infectologista Alexandre Cunha. 
Os pacientes deixam de transmitir o mal após 15 dias de tratamento. Porém, podem
voltar a ser transmissores se não completarem o curso de antibióticos.

 

No Brasil, estuda-se um novo tratamento para a doença. Uma substância extraída do
óleo de copaíba, planta nativa da região amazônica, poderá servir de base a um fitomedicamento
capaz de tratar a tuberculose. O produto está sendo pesquisado pelo Laboratório 
de Farmacologia Aplicada do Instituto de Tecnologia em Fármacos da Fundação Oswaldo
Cruz. O princípio ativo, identificado e isolado pela equipe da bióloga Maria das
Graças Henriques, apresentou atividade antibacteriana eficaz em testes com camundongos
de laboratório. “Administramos doses orais da substância isolada e comprovamos que
ela mata a bactéria causadora da TB por meio do material que foi coletado do pulmão
dos animais usados nos testes”, explica a pesquisadora. Até o fim de 2010, o grupo
pretende finalizar um dossiê clínico e pedir autorização para testar o fitomedicamento
em humanos.

Como os sintomas melhoram em pouco tempo e os efeitos colaterais são comuns, muitos
pacientes não completam o tratamento”

 

Alexandre Cunha, infectologista

 

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