# Vacina contra HIV/aids ? Particularidades (Artigo)

- Link: https://soropositivo.org/vacina-contra-hiv-aids-particularidades-artigo/
- Published: 2009-11-30T13:59:28-02:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

 

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 * [O ESTADO DE S. PAULO](https://soropositivo.org/vacina-contra-hiv-aids-particularidades-artigo/#o-estado-de-s-paulo)
 * [Leia também](https://soropositivo.org/vacina-contra-hiv-aids-particularidades-artigo/#leia-tambem)
 * [Relacionado](https://soropositivo.org/vacina-contra-hiv-aids-particularidades-artigo/#relacionado)

Vicente Amato Neto e Jacyr Pasternak

A infecção pelo **HIV**/**AIDS** é o tipo de evento que requer vacina preventiva.
Estamos cansados de saber que trabalhar com PRESERVATIVO e mudança de condutas não
basta para prevenir a disseminação dessa grave virose. Seria muito interessante 
e útil contar com vacina terapêutica a ser ministrada em infectados para prevenir
ou atrasar a evolução para a doença franca.

 

 

Há aspectos éticos importantes e complexos no estudo da modalidade preventiva. Na
terapêutica não são tão críticos, dá para trabalhar com o clássico modelo de estudo
cego randomizado, dividindo aleatoriamente os pacientes, após o devido consentimento
informado, em dois grupos: um que toma a vacina e outro que não, sendo então comparada
a evolução de ambos. No caso de vacina profilática a coisa é mais complexa: o ensaio
não pode levar a que a pessoa, por se achar protegida, fique exposta ao vírus. Isso
significa que esse modelo deve ser executado eticamente, após todos os sujeitos 
da pesquisa serem devidamente informados e educados para não se arriscarem, mas 
contando com a famosa natureza humana: alguns vão fraquejar e aventurar-se… Como
a maioria de pessoas informadas e lógicas não vai desproteger-se, serão precisos
número muito grande e comparações por fases mais longas até concluir se a vacina
testada funciona ou não.

 

Vacinas contra retrovírus essencialmente inexistem no momento, incluindo o **HIV**
e os vários outros que causam infecções em animais. Eles têm enorme capacidade de
variação, pois na replicação não corrigem os erros de transcrição do seu RNA. O 
local de ligação do vírus no receptor é muito bem protegido e pouco acessível a 
anticorpos. Há poucas vacinas com serventia quando a infecção natural não dá imunidade,
e o **HIV** permite infecções por mais de uma cepa viral, ou seja, não defende contra
outros vírus **HIV**.

 

 

Até este ano ocorreram diversas tentativas vacinais fracassadas, mas agora foi divulgada
a obtenção da primeira (na verdade, o uso simultâneo de duas vacinas) que propiciou
alguma proteção. O conseguido, porém, é pouco: apenas 30% de auxílio, que, vale 
não esquecer, configura algo mostrando possibilidade de sucesso. Estamos no começo
de um longo caminho: até a devida concepção, a testagem em campo, a avaliação em
populações etnicamente diferentes e a confirmação da segurança há tarefa para os
próximos 20 anos, no mínimo. Mesmo neste primeiro resultado bem-sucedido a diferença
de infecções entre vacinados e não-vacinados é pequena. Qualquer estaticista demonstra
que com um pouco mais de casos no grupo vacinado ou um pouco menos de infectados
no não-vacinado a significância estatística desapareceria. Importante reforçar que
explicação estatística com p menor que 0.05 quer dizer, em termos práticos, que 
a chance de ocorrer por acaso aquele resultado se situa abaixo de 1 em 20 – o que
não mostra em absoluto que isso não possa acontecer por pura perversidade do acaso.

 

 

Gostaríamos de fazer nossas as opiniões de Anthony Fauci: aprendemos muito do funcionamento
do sistema imune, principalmente depois que apareceu a infecção pelo **HIV**, mas
ignoramos muito mais e os conhecimentos necessários para obter vacina efetiva para
infecção por esse vírus exigem aprofundamento quanto aos mecanismos de defesa e 
seus detalhes biológicos, celulares e moleculares. O sistema imune é muito complexo–
talvez tanto, em alguns aspectos, quanto o nervoso. Também é de memória que trabalha
com princípios, além de lógicas completamente diferentes das pertinentes ao sistema
nervoso e a comunicação entre ambos, que deve existir, é ainda mais complicada para
ser analisada e compreendida. O investimento em pesquisa básica é tão ou mais importante
do que em investigações propriamente clínicas. É por meio dele que será possível
chegar à lógica da solução de produzir vacinas profiláticas ou terapêuticas. Não
é que não se deva seguir tentando dentro do que já conhecemos: de repente dá sorte
e encontramos alguma coisa prestimosa.

 

 

Sorte, porém, acontece muito de vez em quando na história da medicina e quando sobrevém
tem vínculo com pessoas preparadas para perceber o que está ocorrendo. Como se deu
com Jenner, que antes de se conhecerem microrganismos como causa de doenças percebeu
que as moças que ordenhavam vacas com a varíola da vaca eram imunes à varíola humana
e, a partir daí, desenvolveu a única vacina que extinguiu, na natureza, a enfermidade
contra a qual protege. Não cremos que ocorra sucesso dessa natureza no caso da vacina
contra a infecção pelo **HIV** e toda a sua complexidade. Essencialmente, todas 
as vacinas “fáceis” de criar já foram feitas, e agora desejamos as que precisam 
de mais informação biológica para se viabilizarem. Estamos animados com a perspectiva
de alguma vacina contra a infecção pelo **HIV** e cremos ser possível obtê-la, mas
num futuro não muito próximo.

 

 

Impõe-se frisar que as modalidades de prevenção da infecção pelo **HIV** têm sido
apenas parcialmente eficazes, mesmo em lugares onde há esforço para divulgá-las.
A **AIDS** é controlada bastante parcialmente, até onde há interesse de gestores
de saúde pública e alguma estrutura para enfrentar o mal. Todavia, em relação a 
certos ambientes, afigura-se correto admitir que a situação beira o descontrole.
Programas de redução de riscos, viáveis, ainda são insuficientes, se bem que apoiáveis
hoje. Convém igualmente usar de criatividade para ampliação do que se recomenda 
agora.

 

 

A propósito de doença infecciosa e transmissível, quando os fatores influentes são
vários ou de implantação difícil, a profilaxia eficaz esbarra em obstáculos. Citamos
como exemplos mais conhecidos, berrantes, a dengue e a malária. Daí sonhar com vacina
para coibi-las. Disseminação por relacionamento sexual, com frequência irresponsável,
ou por toxicômanos desobedientes é forte empecilho se considerado o **HIV**. Portanto,
que surja vacinação valorosa e dotada de indispensável respaldo científico no confronto
com o **HIV**. Assim poderemos parar de implorar por mudanças de comportamento.

 

Vicente Amato Neto e Jacyr Pasternak são médicos e professores universitários

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## **O ESTADO DE S. PAULO**** **

  |   **Editoria:**  |   **Pág.**  |   **Dia / Mês/Ano:**  |  
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**ESPAÇO ABERTO**

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**30/NOVEMBRO/09**

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## Leia também

 * [Vida, paixão e [possível] fim da infecção pelo HIV/Aids](https://soropositivo.org/vida-paixao-e-possivel-fim-da-infeccao-pelo-hiv-aids/)
 * [Infecção pelo HIV/Aids: sucessos e insucessos](https://soropositivo.org/infeccao-pelo-hiv-aids-sucessos-e-insucessos/)
 * [“Estamos mais próximos da vacina contra a Aids](https://soropositivo.org/estamos-mais-proximos-da-vacina-contra-a-aids/)

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