# Vida, paixão e [possível] fim da infecção pelo HIV/Aids

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- Published: 2009-06-19T22:52:03-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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 * [O Estado de S. Paulo](https://soropositivo.org/vida-paixao-e-possivel-fim-da-infeccao-pelo-hiv-aids/#o-estado-de-s-paulo)
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 * [Leia também](https://soropositivo.org/vida-paixao-e-possivel-fim-da-infeccao-pelo-hiv-aids/#leia-tambem)
 * [Relacionado](https://soropositivo.org/vida-paixao-e-possivel-fim-da-infeccao-pelo-hiv-aids/#relacionado)

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  |   Editoria:  |   Pág.  |

Dia / Mês/Ano:

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Artigo

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01/DEZEMBRO/07

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Vicente Amato Neto e Jacyr Pasternak

A infância da infecção humana pelos dois vírus da imunodeficiência humana, causadores
da síndrome da imunodeficiência adquirida (Aids), já parece bem elucidada por estudos
genéticos de ambos (HIV-1 e HIV-2). O chimpanzé é o hospedeiro original do HIV-1,
responsável pela imensa maioria dos casos da infecção e da doença que se segue. 
O HIV-2 provém do macaco verde africano. Sua passagem para a espécie humana provavelmente
se deu pelo consumo de carne dos animais e talvez tenha sido recente na história
evolutiva, nas primeira décadas do século 20. A enfermidade, admite-se, ficou muito
restrita a pequenas aldeias africanas, onde o diagnóstico de algo deste tipo era
extremamente difícil, dada a falta de recursos e de pessoal médico.

 

O que espalhou a moléstia foi a transição de um mundo paroquial, no qual cada um
vivia apenas no local do nascimento, para um mundo global, no bom e no mau sentido:
pessoas saíram da área de surgimento do mal para outras e, principalmente, ali ocorreram
várias guerras, devidamente acompanhadas da entrada no local de soldados de diversas
origens. Assim, soldados da África do Sul, de Cuba e muitos mercenários de todas
as nacionalidades andaram por lá, tiveram relações sexuais e, a partir daí, o mundo
foi invadido pelo HIV. O HIV-1 é muito mais disseminado que o HIV-2 e motiva doença
que progride mais depressa; o HIV-2 ficou restrito à África Ocidental e a migrantes
desta região para a Europa.

 

A vida do HIV é curiosa. A produção do microrganismo é muito grande, gerando milhões
de genomas por dia, a tal ponto que a cada 24 horas se renova toda a população do
agente causal. Trata-se de um vírus cujo material genético é RNA e tem poucos genes,
entre os quais não constam os que presidem a formação das enzimas que corrigem os
erros de transcrição, o que garante que em cada geração apareçam muitas variantes.
Grande parte destas leva a vírus não-viável, mas, infelizmente, por isso mesmo, 
as variações genéticas garantem que vão existir muitas mutações, incluindo as resistentes
a qualquer remédio, inventado ou por inventar. A doença costuma começar com uma 
fase aguda, que pode passar despercebida, e após um período de equilíbrio, com o
vírus, estando o infectado assintomático; em cinco a dez anos, em geral, se desfaz
esta harmonização pela progressiva perda das células com marcador CD4 e, quando 
o nível destas chega a 200, ou até antes, começam os sintomas relacionados com a
Aids. Um parasita inteligente, que queira sobreviver e passar sua descendência para
a frente, não mata o parasitado. No caso do HIV, contudo, como a doença só ocorre
bem depois e o atingido é contaminante a partir do início da infecção, este detergente
não é relevante – o vírus tem cinco a dez anos para ser passado adiante antes do
seu portador adoecer e morrer.

 

A descoberta do vírus, da fisiopatogenia do processo infeccioso e dos produtos anti-
retrovirais é um capítulo brilhante na história da medicina. Isto também vale para
os resultados do tratamento. Hoje oferecemos pelo menos 15 medicamentos com ação
contra o HIV e pessoas bem orientadas, aderentes à orientação médica, podem esperar
uma vida praticamente normal. Claro que os remédios motivam efeitos colaterais e
o mais sério, no contexto, é que nenhum deles, isoladamente ou em associação, propicia
solução definitiva – todos controlam em parte e devem sempre ser usados em conjunto.
No verdade, logo que o vírus invade, estabelecendo-se no ácido desoxirribonucléico
do hospedeiro, não é viável retirá-lo de lá, conforme o que conhecemos atualmente.
Os recursos terapêuticos não dão cura, dão remissão – e o paradigma do tratamento
da infecção pelo HIV lembra muito mais quimioterapia antineoplásica do que o de 
doenças infecciosas.

 

Por ser um retrovírus, os prognósticos quanto à obtenção de uma vacina não são bons.
Não há vacina eficaz contra retrovírus em outros animais e por enquanto não é disponível
imunizante benéfico para a espécie humana. Várias tentativas foram feitas, mas todas
malsucedidas.

 

A expansão da epidemia só pode ser controlada por métodos educativos aptos a evitar
comportamentos de risco. Na única situação que depende só de procedimento técnico–
a passagem do vírus por transfusão de sangue e derivados -, o problema está praticamente
resolvido e são raríssimos os casos dependentes de tal origem. Controlar a conduta
sexual humana ou o uso de tóxicos injetáveis é muito mais complicado. Não e impossível:
há evidências de que boa parte da população, devidamente informada, adota proteção
e não adquire a infecção. Não obstante, fica outra parte, menos educada, mais propensa
a arriscar – e nesta o vírus prolifera. Ainda mais, é muito difícil controlar a 
infecção pelo HIV em circunstâncias de extrema pobreza, como na África e na Índia.
Guerras que destroem a coesão social ou condições ilustradas por mudanças rápidas
e complexas, como as ocorridas na Rússia e na Europa Oriental, também fazem com 
que tenhamos populações absolutamente desprotegidas ou com serviços de saúde sucateados
e, mais uma vez, nestas conjunturas a disseminação do HIV não é controlável. Mesmo
no Brasil, se dispomos de êxito inegável no atendimento global, a todos os que precisam,
e sem custos, não alcançamos o mesmo êxito em brecar a epidemia. Sim, a mortalidade
por Aids caiu pela metade em poucos anos e vai cair mais. Mas estudos mostram que
a virose continua se espalhando e, ao que parece, está em ritmo menor.

 

Como vai acabar a inter-relação HIV/espécie humana? Acabará algum dia? Se houver
adaptação, será no sentido de maior ou menor virulência do HIV? E se esta peste 
descobrir outra forma de propagação, que não seja das conhecidas? Teremos medicamentos
capazes de curar a infecção algum dia? Vamos usufruir uma vacina convincente?

 

Permanecem muitos pontos sobre os quais nada sabemos ou apenas imaginamos cenários
possíveis. Somos essencialmente otimistas: acreditamos que a ciência acabará por
nos dar as melhores soluções para permitir uma convivência melhor com o HIV. Erradicá-
lo, que é o que gostaríamos, será muito difícil.

 

Vicente Amato Neto e Jacyr Pasternak são médicos e professores universitários

## Leia também

 * [Infecção pelo HIV/Aids: sucessos e insucessos](https://soropositivo.org/infeccao-pelo-hiv-aids-sucessos-e-insucessos/)
 * [AIDS Isso não é o Fim](https://soropositivo.org/aids-isso-nao-e-o-fim/)
 * [Vacina contra HIV/aids ? Particularidades (Artigo)](https://soropositivo.org/vacina-contra-hiv-aids-particularidades-artigo/)

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