# Violência contra as mulheres por Tony Porter: “Os homens que agridem as mulheres foram educados para isso”

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- Published: 2012-11-07T07:39:47-02:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

[⌊Violência contra a Mulher⌉⌊Violência contra a Mulher⌉[

Violência contra a mulher. Uma coisa estúpida que só pode ser feita por gente estúpida,
educada por gente também estúpida

O ativista americano que luta pelo fim da violência contra as mulheres diz que na
hora de formar os meninos as famílias deveriam se fazer uma pergunta simples: que
tipo de homem [você](http://en.wikipedia.org/wiki/Portuguese_personal_pronouns) 
gostaria para a sua filha?

**NATHALIA ZIEMKIEWICZ**

[Tony Porter](http://en.wikipedia.org/wiki/Tony_Porter) é um senhor negro e alto,
com uma voz poderosa e sotaque carregado. Ele cresceu no subúrbio de [Nova York](http://maps.google.com/maps?ll=43.0,-75.0&spn=3.0,3.0&q=43.0,-75.0%20(New%20York)&t=h),
entre o [Bronx](http://maps.google.com/maps?ll=40.8372222222,-73.8861111111&spn=0.1,0.1&q=40.8372222222,-73.8861111111%20(The%20Bronx)&t=h)
e o [Harlem](http://maps.google.com/maps?ll=40.8090333333,-73.9483722222&spn=0.01,0.01&q=40.8090333333,-73.9483722222%20(Harlem)&t=h),
bairros conhecidos pelos altos índices de violência. O cargo de conselheiro da [Casa Branca](http://maps.google.com/maps?ll=-21.7738888889,-47.0858333333&spn=0.03,0.03&q=-21.7738888889,-47.0858333333%20(Casa%20Branca)&t=h)
na Comissão sobre Violência contra as Mulheres e Meninas é apenas uma de suas atividades.
Porter fundou a organização não-governamental “A Call to Men” (“Um chamado para 
os homens”, em tradução livre), que convoca os homens a uma mudança cultural para
redefinir o conceito de masculinidade. O objetivo é que eles se engajem e não apenas
assistam ao debate promovido pelas mulheres. A primeira missão que o projeto propõe
é quebrar os estereótipos impostos pela sociedade. Homens não precisam ser valentes
nem esconder suas emoções, diz ele. Ativista internacionalmente reconhecido, ele
[palestrou sobre isso no TED](http://www.ted.com/talks/tony_porter_a_call_to_men.html)(
plataforma digital que reúne milhares de vídeos com personalidades e ativistas).
No dia a dia, Porter leva seu discurso para colégios, universidades, comunidades,
empresas e toda espécie de evento. Ele esteve no [Rio de Janeiro](http://maps.google.com/maps?ll=-22.9083333333,-43.1963888889&spn=0.1,0.1&q=-22.9083333333,-43.1963888889%20(Rio%20de%20Janeiro)&t=h),
na terça-feira passada, a convite do fórum “Mulheres Reais que Transformam”. Único
homem a subir ao palco, foi aplaudido de pé pela plateia. Ele também atua como consultor
da série de televisão “[Law & Order: Special Victims Unit](http://www.nbc.com/Law_and_Order_Special_Victims_Unit/)”,
cujo roteiro tem tramas policiais envolvendo abuso sexual e violência contra mulheres.
Gentil e espirituoso, Porter tem 60 anos, é casado, e tem um casal de filhos adolescentes.
Porter conversou com ÉPOCA sobre seu projeto de vida em prol das mulheres: “Sempre
fui o garoto da mamãe”.

Tony Porter, um dos fundadores da ONG A
 Call to Men (Foto: Divulgação/Facebook (
[https://www.facebook.com/ACALLTOMEN](https://www.facebook.com/ACALLTOMEN)))

**ÉPOCA – O senhor cresceu na periferia de Nova York. O que a sua família e sua 
comunidade lhe ensinaram sobre ser homem?
 
Tony Porter – Aprendi o que a maioria
dos homens aprende: as mulheres devem nos obedecer, elas são frágeis e têm menos
valor. Morei nos bairros do Harlem e do Bronx, onde existia muita violência doméstica.
Todo mundo sabia que o vizinho agredia a mulher, mas isso “não era da conta de ninguém”.
Era comum a ideia de que cada um age como quer dentro de casa, com a própria família.
Eu ouvia comentários do tipo “se ela está apanhando, deve ter feito por merecer”.
Cresci rodeado de homens bons, que amavam suas mulheres, mas que não se davam conta
de que seu comportamento de inferiorizá-las perpetuava a violência. Eles só estavam
fazendo o que os homens sempre fizeram.

**ÉPOCA – Aquilo que o senhor chama de “papel”, “caixa do homem”?
 Porter – 
Exatamente.
Desde meninos, os homens são ensinados a ser agressivos, dominadores, protetores,
poderosos, fortes, valentes. A não demonstrar sentimentos e emoções. Você nunca 
vê um homem dizendo que está com medo de algo. No máximo, ele está “preocupado”.
Isso é uma bobagem! É claro que também nos sentimos acuados, mas é como se o mundo
não pudesse desconfiar. Não podemos mostrar tristeza ou frustração. Essa ideia de
que não devemos temer nada é devastadora para a saúde mental dos homens. Somos ensinados
a não extravasar e ficamos mais estressados por isso. Não é à toa que vivemos menos
anos que as mulheres.

**saiba mais**

 * [Socos verbais](http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI251178-15228,00.html)
 * [Elas batem. Eles apanham](http://revistaepoca.globo.com/vida/noticia/2011/10/elas-batem-eles-apanham.html)
 * [Brasil é o 7º país com mais homicídios de mulheres](http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2012/05/brasil-e-o-7-pais-com-mais-homicidios-de-mulheres.html)

**ÉPOCA – [Como](http://maps.google.com/maps?ll=45.812,9.084&spn=0.01,0.01&q=45.812,9.084%20(Como)&t=h)
seu pai reagia quando o senhor chorava?
 
Porter – Não lembro! (_risos_) Porque 
eu não podia chorar muito. Mas sempre fui o garoto da mamãe, pude alimentar o lado
gentil e amoroso. A única vez em que vi meu pai chorar foi na morte do meu irmão,
que ainda era adolescente. Estávamos sozinhos quando aconteceu, ele não se permitiu
fazer isso na frente da minha mãe e das minhas irmãs. Então ficou tão envergonhado
que se desculpou comigo. Ele me aplaudia por não estar aos prantos, dizia que eu
era muito forte. Mas eu chorei depois, sim, escondido.

**ÉPOCA – Quando o senhor virou um ativista contra a violência sofrida pelas mulheres?

Porter – 
Há uns vinte anos, quando eu era diretor de um programa de tratamento 
em álcool e drogas de um hospital. As mulheres da comunidade sofriam violência doméstica,
falavam de seus problemas e procuravam abrigo. Resolvi me voluntariar para trabalhar
também com infratores, homens que agrediam suas mulheres em casa. Entendi que precisávamos
educar os infratores, mas que eles estavam funcionando de acordo com a definição
de masculinidade aprendida em sociedade. Comecei a refletir: por que estamos tratando
apenas os caras maus? Ao perceber que todos os homens precisam ter outra mentalidade
e propagar uma ideia de mundo mais justo, fundei com um amigo o projeto “A Call 
to Men” (“Um chamado para os homens”).

Prisão não vai acabar com o problema. A solução passa por algo bem mais complexo”

TONY PORTER

**ÉPOCA – As mulheres também educam seus filhos com base nesse conceito de masculinidade.
Nesse sentido, elas são responsáveis pela violência de que são vítimas?
 Porter –

Responsáveis, não. Mas elas contribuem para isso. O que acontece é que as mães tentam
criar os filhos baseadas naquilo que os homens respeitam. Para que essa criança 
possa se encaixar no futuro. Homens não respeitam choro, você tem que ser forte.
Elas não fazem por mal, mas estão educando de forma errada.

**ÉPOCA – Como podemos mudar esse cenário?
 Porter –
 Eu proponho que os homens 
sejam pró-ativos e comecem a dar atenção às próximas gerações de homens. Eles precisam
pensar no que é importante não através dos olhos dos nossos meninos, mas das meninas.
Que tipo de homem você quer para a sua filha? É esse tipo de homem que você tem 
a missão de desenvolver em casa. Não é um passe de mágica, não basta dizer “esse
é o homem que espero do futuro” ou “é assim que imagino que os homens se comportem
daqui a uns anos”. É um grande desafio.

**ÉPOCA – Que tipo de homem o senhor desejaria para a sua filha?
 Porter –
 Um homem
gentil, carinhoso, amoroso. Alguém que a respeite, que considere suas opiniões. 
Como é isso que eu quero para ela, faço o papel de ensinar sobre como é possível
ser um homem assim. Esse tipo de discussão não vem espontaneamente à cabeça dos 
jovens e meninos, nós precisamos conversar com eles sobre isso. Fomos ensinados,
de muitas formas, a nos interessar pouco pelas experiências e sentimentos das mulheres.
Você não pode ser um garoto com várias amigas sem que isso envolva sexo ou seu pai
pergunte: “Então, você está a fim de qual delas?”. Meu trabalho é fazer com que 
as pessoas reflitam, voltem para casa e modifiquem a forma como estão educando seus
filhos.

**ÉPOCA – Além da violência física, as mulheres são vítimas de agressão verbal, 
abuso psicológico… Nesses casos, elas parecem não procurar ajuda. Por quê ?
 Porter–

Violência verbal, emocional ou psicológica não é ilegal. Se o seu marido humilha
você com palavras, em casa ou publicamente, ele não será preso. A polícia não fará
muita coisa a respeito. Então as mulheres nem procuram ajuda porque sabem que não
vai adiantar. Isso contribui ainda mais para que a violência piore e alcance o status
físico.

**ÉPOCA – Colocar esses homens agressores na cadeia é a solução?
 Porter – 
Prisão
não vai acabar com o problema. A solução passa por algo bem mais complexo: significa
educar os homens para serem melhores, desafiá-los a pensar de forma diferente. A
violência é fruto de uma equação que ensinamos a esses meninos: desvalorizar a mulher,
tratá-la como propriedade e objeto. Eles não são doentes, não precisam de tratamento
psiquiátrico. Estão apenas fazendo aquilo que ensinaram a eles desde menino. A sociedade
sempre permitiu que ele se comportasse desse jeito.

**ÉPOCA – Como educá-los, então?
 Porter – 
A primeira coisa é fazer com que eles
entendam que essa ideia doentia de masculinidade é a base da violência doméstica
e sexual. Os homens precisam analisar suas crenças individuais, reconhecer posturas
que reforçam a desvalorização da mulher e desafiar esses hábitos. Por exemplo: ficar
em silêncio diante de uma agressão, seja ela qual for, é concordar com esse comportamento.
A violência não tem relação com doença mental, falta de habilidade para lidar com
raiva, dependência química ou estresse. Ela está relacionada ao tradicional domínio
masculino. Enquanto os homens não aceitarem isso, tomando para si a responsabilidade
de promover uma mudança cultural e social, meninas e mulheres continuarão sendo 
vítimas.

**ÉPOCA – No Brasil, é comum que as mulheres façam o boletim de ocorrência apenas
como instrumento de ameaça. Muitas se arrependem, retiram a queixa na delegacia 
e voltam a ser agredidas. Por que é tão difícil largar um parceiro violento?
 Porter–

Vou responder com outras perguntas. Porque, muitas vezes, essa mulher pede ajuda
e fazemos com que ela se sinta envergonhada, em vez de realmente acolhê-la e apoiá-
la. Por que ela tem que se explicar como se fosse culpada pela violência sofrida?
Chamo isso de “revitimizar” a mulher. Além da violência vivida em casa, ela procura
por ajuda em uma instituição e se torna vítima pela segunda vez.

[⌊Enhanced by Zemanta⌉⌊Enhanced by Zemanta⌉[

## Leia também

 * [Taubaté entra na luta pelo fim da violência contra as mulheres](https://soropositivo.org/taubate-entra-na-luta-pelo-fim-da-violencia-contra-as-mulheres/)
 * [Pelo fim da violência contra as mulheres! Nada justifica a agressão!](https://soropositivo.org/pelo-fim-da-violencia-contra-as-mulheres-nada-justifica-a-agressao/)
 * [#soropositivoorg : Violência Contra a Mulher](https://soropositivo.org/soropositivoorg-violencia-contra-a-mulher/)

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