Eu devo minha vida às enfermeiras intensivistas. E à Mara, porque foi ela quem percebeu que eu estava soltando secreção.
Há uma coisa que preciso contar.
Quando entrei na UTI, a Mara perguntava:
Eu queria dizer que entendia. Tentava responder:
— Eu entendo.
Mas havia milhões de bolinhas dentro do meu peito. Pelo menos era assim que eu as percebia. Naquele estado, eu imaginava que fossem colônias de bactérias. As bolinhas vibravam as palavras: “Eu entendo”. Só que o som não saía. Eu não ouvia minha própria voz.
E pau na bunda de quem entendia — que era eu.
Eu pedia uma caneta. Fazia o gesto de quem queria escrever. Mas ninguém, nem aqueles filhos da puta nem a própria Mara, percebia que eu ainda era capaz de escrever.
Eu queria escrever apenas duas coisas:
Eu entendo. Onde estou?
Porque eu não sabia onde estava.
Levei oito ou dez dias para acordar.
Pense no que isso significa: um sujeito se deita na própria cama acreditando que, dali a algumas horas, abrirá os olhos. Então desperta dez dias depois, num lugar desconhecido, sem saber o que aconteceu.
Acordei num cubículo onde cabiam a cama e uma enfermeira de cada lado. Havia equipamentos despejando soro, glicose, antibióticos e sabe-se lá mais o quê dentro de mim.
Ninguém me explicava nada. Eu precisava quase implorar para que alguém falasse comigo.
Comecei a encher o saco:
— Quero ir embora. Quero ir embora. Quero ir embora.
Até que o médico perguntou:
— O senhor sabe onde está?
Eu não sabia.
— O senhor está na UTI do Hospital Ana Costa.
Anna Costa é nome de gente e de uma das principais avenidas de Santos. Anna Cândida de Azevedo Sodré foi homenageada pelo marido, Mathias Alberto Casimiro da Costa, que abriu a via para a passagem do bonde entre o Centro e a praia.
E eu estava ali, num hospital que carregava esse nome.
Perguntei ao médico:
— Eu fiquei em coma?
— Não. O senhor ficou inconsciente, sedado por causa do tubo.
Que tubo?
Eu não me lembrava de tubo algum, graças a Deus. Mas estava amarrado porque, instintivamente, tentava arrancá-lo.
No fim da internação, havia uma enfermeira negra, belíssima, chamada Maísa. Perguntei:
— É impressão minha ou eu estava amarrado aqui?
Ela respondeu:
— Não pense muito nessas coisas. A UTI é um lugar onde acontece um monte de coisa esquisita. Esqueça isso.
Mas como esquecer?
Eu me lembro de puxar os braços e fazer força para arrebentar o que quer que estivesse me prendendo. Aquilo era forte para caralho e doía.
Então eu desistia e pensava:
Estou à mercê dessas pessoas. Vamos ver o que vai acontecer.
Eu acendia e apagava como um pisca-pisca de discoteca.
Numa dessas vezes, despertei sem o tubo.
Fiz o que um computador faz quando é ligado: um power-on self-test, uma verificação completa do sistema.
Primeiro, respirei.
As bolinhas tinham desaparecido.
Pensei:
Graças a Deus, não há mais bolinhas.
Uma enfermeira veio até mim. Eu já estava um pouco melhor. Ainda não estava pronto para ir para casa, mas podia sair da UTI.
Levaram-me numa cadeira de rodas até o oitavo andar e me colocaram num leito de enfermaria.
O mundo depois da UTI
Mara perguntou se as pessoas não se cansariam de me ouvir contar essa história.
Acho que não.
Talvez eu saiba enquadrar as coisas. Afinal, sou DJ. E DJ que se preza precisa saber onde começa uma música, onde termina a outra e em que ponto as duas podem existir juntas sem destruir a pista.
Com a memória talvez seja a mesma coisa.
Tenho no Google Fotos imagens que fiz e considero lindas. A perfeição não existe, mas alguns enquadramentos chegam perto dela.
Talvez eu procure a mesma coisa quando conto uma história: o ponto exato de onde tudo pode ser visto.
O médico me deu alta e eu voltei para casa.
— Já faz uma semana, Mara?
— Já faz duas.
Duas semanas.
Parece que foi ontem.
Aquilo não sai da minha cabeça. E vai demorar muito para sair.
A próxima coisa que quero fazer é caminhar na praia. Primeiro, do Canal 2 ao Canal 5. Depois, até o Canal 6. Mais tarde, até o Canal 7.
A Mara já me olha apavorada.
Certa vez, eu estava com insônia e a doutora Fernanda me receitou Prysma. E digo o seguinte: o primeiro Prysma ninguém esquece. É igual ao primeiro sutiã.
Acordei às sete da manhã, fui à academia, treinei durante uma hora e meia, voltei para casa, peguei a Mara e disse:
— Vamos andar.
Saímos caminhando e conversando.
Eu adoro conversar com a Mara. Ela tem nível intelectual. Dá para conversar de verdade. Acho até que o nível dela é superior ao meu. Ela é muito inteligente.
Naquela época, eu usava um aplicativo de pedômetro e era o recordista, com 23 mil passos.
Você sabe o que significa dar 23 mil passos antes do meio-dia?
Ninguém conseguia bater meu recorde.
Agora tenho de estabelecê-lo novamente. Mas, desta vez, não serão 23 mil passos.
Serão 27 mil, para deixar o segundo colocado tão longe que ele perca a esperança antes mesmo de começar.
O que chamo de experiência de quase morte
Em suma, estou vivo.
Este capítulo se chama A Experiência de Quase Morte porque tenho para mim que algumas coisas aconteceram num plano que não sei explicar.
Eu me lembro — ou acredito me lembrar — de sair da UTI com um monte de fios e cabos presos ao corpo. Fui até minha casa sem sequer saber onde estava.
Tentei falar com a Mara, mas ela não me via.
É ridículo?
Talvez.
Mas eu me lembro.
Há também a imagem daquele policial militar, o macho alfa, fazendo peeling. Uma moça puxava com uma pinça uma película de seu rosto, deixando a pele branca e lisa. Ele tinha um bigodinho e aquela pose de homem que acredita que o mundo inteiro precisa saber que ele é macho.
— Eu sou macho alfa. Só ando com mulher alfa, que não obedece a ninguém.
Não obedece nem a ele. Se bobear, dá um tiro nele.
A Mara não precisa ser alfa nem beta.
Para mim, ela é o mundo.
A vida comum voltou a fazer barulho
A Mara perguntou por que eu estava tremendo. Expliquei que era a neuropatia.
O trackball ajuda, mas ainda preciso programá-lo melhor. Às vezes quero parar o ponteiro do mouse num ponto e ele vai parar na casa dos seis mil caralhos — em qualquer lugar, menos onde eu queria.
O teclado funcionou bem. O teclado do ASUS pisca. Estou tão contente com aquele computador.
Vamos combinar: fazer a Dell comprar um ASUS para mim foi uma obra de arte.
Houve também a história do Navio de Teseu. Perguntei ao atendente:
— O senhor está familiarizado com a hipótese da existência relativa do Navio de Teseu?
Do outro lado, silêncio.
Ele nunca admitiria que não conhecia. Então expliquei.
Depois fui direto:
— Não quero mais essa merda desse computador. Não quero mais nada com vocês.
Eu havia pago cerca de oito mil reais no computador. A Dell corrigiu monetariamente o valor e devolveu aproximadamente onze mil.
Juntei algum dinheiro e comprei o ASUS por algo em torno de R$ 12.600. Ainda preciso conferir a nota.
O problema é que as letras da nota são minúsculas. Esse pessoal acha que quem compra computador é apenas gente jovem, com visão além do alcance.
Eu não tenho o Olho de Thundera.
Para ler aquilo, precisarei de uma lente, um óculos, um binóculo e um periscópio.
Mas quero conferir os valores porque a Dell pagou. E eles ainda vão ficar putos quando descobrirem que escreverei um capítulo chamado:
O dia em que a Dell comprou um ASUS para mim.
Agora não tenho uma rede de segurança completa. Preciso economizar pelo menos R$ 250 por mês enquanto uso o computador de verdade.
Assim, se um dia ele quebrar e não houver conserto, haverá dinheiro para comprar outro.
A Fabiana, a Fabi, pretende organizar o financiamento coletivo do livro pelo Catarse, com recompensas para os apoiadores.
Não sei de onde ela tirará tantos prêmios. O único prêmio que tenho para dar é uma bolinha de pingue-pongue.
Posso, porém, colocar o nome das pessoas no livro:
Colaboraram para a publicação desta obra: Maria das Graças Auxiliadora, João de Paula Neto…
Também haverá o registro de que uma ferramenta de inteligência artificial me ajudou a ordenar essa avalanche de lembranças.
Sou grato por isso.
Acho que o capítulo pode terminar aqui.
Há um helicóptero passando, voando mais baixo que urubu. O urubu, aliás, sumiu — se é que era urubu. Poderia ser outro pássaro.
O céu está realmente de brigadeiro: azul e lindo.
A praia está imprópria para banho, mas parece haver cinco mil pessoas dentro da água. Uma multidão nadando entre coliformes fecais voadores.
Já viu coliforme fecal voador?
Lembra o Belamir, uma boate da Bento Freitas cujo carpete parecia não ser trocado havia trinta anos.
As mulheres quase não bebiam. Jogavam o vinho no chão.
Também não havia fígado que aguentasse.
Eu quase morri. Mas continuo aqui: reclamando de helicóptero, planejando caminhar 27 mil passos, ameaçando a Dell com um capítulo e amando a Mara.
Em suma, estou vivo.
Autoria: Cláudio Santos de Souza
Transparência: texto elaborado a partir de relato ditado pelo autor e revisado com apoio de inteligência artificial, sem alteração dos acontecimentos narrados.
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