Ontem eu participei do programa Happy Hour, entrevistado pela Astrid e o Fred.
Fui lá dar meu depoimento de vida como portador de HIV buscando, sempre, informar para alertar, de forma que as pessoas se conscientizem da seriedade da infecção por HIV e da possivelmente decorrente AIDS.
É fato, eu sei, e reafirmo que portar HIV não significa, mais, desenvolver AIDS.
E informo que a expectativa de vida de um portador de HIV que se testa e descobre quando “ainda é cedo” que porta HIV, que suas chances de ter uma vida praticamente “normal” (me expliquem, por favor, o que é normal) e viver até os setenta, talvez oitenta anos.
Mas, eu que vivo o HIV na pele, e especialmente, no sangue, questiono um ponto:
A qualidade desta vida…
Eu sou um caso de AIDS devidamente notificado ao Governo e tomo antiretrovirais.
Um deles me provoca diarréias que já me fizeram saltar de um ônibus em direção a um hotel apenas para dar vazão à fúria intestinal que este remédio provoca. Viver assim é viver próximo ao vexame e a única maneira de controlar isso é tomando outro remédio (um remédio para driblar os efeitos indesejáveis de outro) que evita diarréias.
Bem, parece que o problema está resolvido, mas não está.
O remédio para controlar diarréias não normaliza o fluxo; ele bloqueia o fluxo e toda a vez que vou ao banheiro penso no Rochedo de Gibraltar (…).
O HIV, além de me causar AIDS, causou também uma vasculite (inflamação dos vasos sanguíneos), que provoca doença coagulante indefinível.
Por conta desta doença coagulante indefinível eu tive:
Uma embolia pulmonar
Três ou quatro episódios de trombo flebite (dizem os médicos que “faço trombo flebite de repetição”).
E, há cerca de dois meses, uma trombose venosa profunda no membro inferior esquerdo.
Por conta destes problemas tomo quatro injeções (duas de manha e duas à noite) por dia, para evitar novos coágulos. Esta dose, dita dose plena, deverá voltar à dose profilática (duas injeções por dia a cada vinte e quatro horas) assim que o trombo (coágulo) for reabsorvido pelo organismo.
Isso pode demorar de seis meses a um ano e, já tem mais ou menos três meses que tenho tomado estas quatro injeções, sempre na barriga e auto-aplicadas, de forma que já não sei mais onde furar minha barriga para continuar aplicando e, acreditem ou não, terei de continuar tomando até que o Doppler confirme que o coágulo foi reabsorvido.
A dose profilática é para toda a vida e se eu vier mais trinta anos, a duas injeções por dia, terei me aplicado, até o dia de minha morte, vinte e uma mil e novecentas injeções.
Isso sem contar as picadas mensais para exames de CD4, carga viral, perfil lipídeo e outras coisinhas a mais que pedem agulhadas.
Isso, se eu quiser viver…
E no programa de ontem, houve um anônimo, que disse ter vinte seis anos, casado, que teve algumas (sic) relações extraconjugais e “sempre usou camisinha, menos em duas vezes”. E, tendo acesso ao teste rápido para HIV, ele fez o exame e deu positivo.
Buscava, ele, no programa, suporte para a possibilidade de ter sido um “falso positivo”. Isso porque ele não tem coragem de fazer o exame comprobatório.
Adiar o enfrentamento de um problema não resolve o problema e, muito pelo contrário, só o agrava mais…
Aconselhei ali que ele fizesse o exame e aconselho aqui, que vocês não vacilem
Na dúvida, façam o exame.
E, para evitar os problemas que eu enfrento, que são “light” diante dos que outras pessoas com HIV ou AIDS enfrentam, usem camisinha.
E é por isso que estou escrevendo este texto e publicando este vídeo.
Camisinha:
Tem gente que não usa…
Cláudio Santos de Souza
{youtube}y_HK8lwfoNU{/youtube}
Descubra mais sobre Blog Soropositivio Arquivo HIV
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
