Depois do sexo, a diferença de interesses
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O Estado de S. Paulo | Editoria: | Pág. | Dia / Mês/Ano: |
Vida & |
| 31/JANEIRO/08 |
Fernando Reinach* Para a maioria dos machos, o ato sexual é o resultado de uma batalha exaustiva. Geralmente são muitos machos competindo pelos favores de cada fêmea. Machos de moscas a elefantes brigam entre si pelas fêmeas enquanto machos de outras espécies competem pela atenção das fêmeas exibindo suas plumas ou seus atributos físicos, como ocorrem com os pavões e muitos mamíferos. Ao vencedor cabe o privilégio de transmitir seus genes para a próxima geração. Mas após o sexo propriamente dito ainda existe o risco de a fêmea copular com outros machos diluindo o esperma e, com isso, o número de filhos resultantes daquele ato sexual. Pelo lado das fêmeas, copular com diversos machos significa diversificar o risco de comprometer sua prole com o material genético de um único macho. NOVOS MECANISMOS Dado este desalinhamento de interesses entre os sexos não é de se espantar que ao longo da evolução uma série de mecanismos que garantam a fidelidade da fêmea tenha sido selecionada. Muitos machos de aves, répteis e macacos permanecem próximos das fêmeas recém-conquistadas para impedir a aproximação de outros machos. Em outras espécies, mecanismos que independem de hábitos comportamentais foram desenvolvidos. Em algumas vespas, o ferormônio do macho bloqueia o apetite sexual das fêmeas após o sexo. Em roedores o cheiro do macho dominante faz com que as fêmeas desprezem machos inferiores após o sexo. Mas, entre os mecanismos conhecidos, talvez o mais peculiar é o desenvolvido pelos machos da Drosophila, aquelas moscas que sempre encontramos rondando cachos de banana madura. Nesta espécie, o sêmen do macho contém uma pequena proteína que funciona como um hormônio poderoso. Esta proteína, que é produzida em uma glândula semelhante à próstata, é misturada ao sêmen e "injetada" na fêmea junto com os espermatozóides durante o ato sexual. O hormônio altera radicalmente o comportamento das fêmeas. Agora elas passam mais tempo botando ovos e menos tempo flertando com outros machos. RECEPTOR Apesar de o hormônio ter sido descoberto faz alguns anos, somente agora um grupo de cientistas conseguiu descobrir o receptor ao qual se liga este hormônio. O receptor está presente tanto no aparelho reprodutivo da mosca como em algumas células do seu cérebro. Moscas transgênicas em que o receptor foi removido deixaram de ter seu comportamento alterado pelo sêmen do macho, continuando com sua vida promíscua mesmo após diversas relações sexuais. Esta descoberta, além de abrir a possibilidade de um mecanismo semelhante existir em outras espécies (sêmen de mosca tem uma composição semelhante ao sêmen de vertebrados), demonstra pela primeira vez a existência de um mecanismo hormonal completo por meio do qual o macho é capaz de controlar o comportamento das fêmeas. A descoberta deste receptor também abre a possibilidade de desenvolvermos novas moléculas para controlar a proliferação de insetos. Imagine um "spray" contendo uma molécula que tenha o mesmo efeito do hormônio. As fêmeas deixariam de se interessar por machos e reduziriam o número de ovos produzidos. Finalmente, como lembrou Leslie Griffith, uma pesquisadora da Universidade de Brandeis, a possibilidade de os machos controlarem o comportamento das fêmeas com seu esperma é mais uma razão para as fêmeas insistirem no uso da CAMISINHA. Mais informações em: A receptor that mediates the post-mating switch in Drosophila reproductive behaviour. Nature, vol. 451, pág. 33 2008. *Biólogo – fernando@reinach.com
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