Estudo tenta mapear epidemias do futuro
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O Estado de S. Paulo | Editoria: | Pág. | Dia / Mês/Ano: |
Vida& |
| 21/FEVEREIRO/08 |
Locais mais prováveis para aparecimento de surtos unem pressão humana sobre regiões selvagens e condições socioeconômicas favoráveis à doença AP E REUTERS Nova York – Doenças infecciosas podem se tornar mais freqüentes devido à proximidade do homem de regiões antes inóspitas, onde ele tem contato com microrganismos novos. Um estudo publicado hoje na revista científica Nature (www.nature.com) indica que os locais mais prováveis para que epidemias surjam (chamados de hotspots, "pontos quentes" em inglês) são justamente aqueles que unem pressão humana sobre regiões selvagens e condições socioeconômicas favoráveis à doença. A região tropical é, portanto, a que mais concentra esses hotspots, dizem os cientistas, de diferentes organizações americanas e britânicas. "Precisamos estar lá buscando o novo HIV", afirma um dos autores do estudo, Peter Daszak, diretor-executivo do Consórcio de Medicina de Conservação, ligado ao programa americano de conservação Wildlife Trust. "Nossa prioridade é fixar medidas de “vigilância inteligente” nesses hotspots, a maioria deles em países em desenvolvimento." Para designar quais são os hotspots, os pesquisadores se basearam em 335 notificações de surgimento de uma nova doença entre 1940 e 2004 e então analisaram fatores sociais e ambientais que parecem ter promovido epidemias. Ao olhar para o passado, eles definiram quais características podem alimentar o processo. A maioria dos eventos envolveu germes novos aos humanos, que não tinham defesa contra eles. Doenças passadas por animais respondem a 60% dos casos estudados: é o caso da AIDS, que veio dos chimpanzés, e do Ebola, que parece ter passado de morcegos. Mas os pesquisadores também levaram em consideração germes que se tornaram resistentes a remédios, que se moveram de uma região para outra ou que se tornaram muito mais comuns. Os incidentes registrados têm crescido progressivamente, de década em década: de 25 eventos, nos anos 1940, para 98, nos anos 1990. A década de 1980 é uma exceção, por apresentar um pico de 103 novas doenças registradas – a causa provável é o advento da AIDS, que trouxe outras doenças em conjunto, uma vez que deixa os portadores do vírus mais suscetíveis a infecções por novos patógenos. Os pontos de mais risco estão no leste da Ásia, na América Central e do Sul, na Índia, na África, na Europa Ocidental e em algumas regiões populosas da América do Norte. Elas unem densidade demográfica e diversidade biológica. O epidemiologista Peter Cowen, da Universidade Estadual da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, que não participou do estudo, vê o estudo como "um bom “chutômetro”". NOVA ESTRATÉGIA Caso o trabalho esteja correto, ele mostra que os especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) estão negligenciando áreas potencialmente perigosas para a saúde humana mundial. Nos hotspots, acreditam os pesquisadores, podem surgir as novas gripe aviária, AIDS e Ebola, com o agravo de que eles estão localizados em nações menos preparadas para lidar com o problema. Neste sentido, o grupo sugere que a prevenção conte com o repasse de recursos provenientes de países desenvolvidos. "Os recursos globais para lidar com emergências dessa natureza estão mal-alocados, com a maioria dos esforços científicos e de vigilância focada em países improváveis de trazer a próxima pandemia", afirmam os autores na Nature. É o caso de nações da Europa e da América do Norte, algumas da Ásia e a Austrália. Por outro lado, os custos humanos e financeiros de uma pandemia podem ser catastróficos, como é o caso da AIDS, que já matou mais de 25 milhões de pessoas no mundo. A síndrome respiratória aguda severa (Sars), que surgiu na China em 2002, matou aproximadamente 800 pessoas e foi controlada a um custo de US$ 100 bilhões. Além de repensar a distribuição dos esforços pelo mundo, o grupo também defende a preservação ambiental como medida profilática. "Nossa análise enfatiza a importância do trabalho de conservação", afirma a pesquisadora Kate Jones, da Sociedade Zoológica de Londres, uma das autoras do estudo. "Proteger áreas ricas em diversidade de vida selvagem do desenvolvimento pode ter um efeito significativo na prevenção de futuras emergências médicas." Segundo ela, parques nacionais poderiam manter a distância necessária entre animais portadores de doenças silvestres e as populações humanas e seus aglomerados.
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