Hepatite C é perigosa porque não faz estardalhaço
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Transmissão do vírus da hepatite C pode se dar por “microtransfusões”, como um alicate de unha contaminado
Doença silenciosa que afeta a vida de mais de 3 milhões de brasileiros, a hepatite C será tema de palestra em Rio Preto, amanhã, ministrada pelo infectologista Paulo Abrão, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). No evento, ele fala sobre os novos tratamentos disponíveis no Brasil para combater o vírus da hepatite C.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada 30 pessoas pode estar infectada com o vírus. Quando não tratada, a doença pode, em cinco anos, desencadear o câncer do fígado em até 16% dos pacientes. Nesse estágio, o tratamento se dá pela via mais radical, ou seja, o transplante.
A dificuldade em se tratar a hepatite C de forma precoce é justamente porque ela é silenciosa. Quando dá sinais, já se encontra em estágio avançado. Ou seja, evolui para a insuficiência hepática, cirrose ou câncer hepático. Daí a necessidade de se realizar campanhas nacionais de alerta.
A última delas ocorreu esta semana no Rio de Janeiro e foi organizada pelo Ministério da Saúde em parceria com a Associação Brasileira dos Portadores de Hepatite, a fim de conscientizar a população para a necessidade de realizar os testes que identifiquem o problema. Chamado de HCV, o teste é simples como o de diabetes. Apenas um furinho no dedo e o resultado sai em dois minutos.
Para o médico Flair José Carrilho, chefe de serviço de gastroenterologia e hepatologia da Universidade de São Paulo (USP), o fato de não apresentar terminações nervosas faz com que o fígado, quando infectado, não manifeste dor – o que costuma servir de alerta em outras situações quando algo está errado no corpo. “É aí que está o perigo. Os sintomas só aparecem quando se está em um grau muito avançado, com a chegada da cirrose hepática (uma inflamação com fibrose do fígado)”, diz.
Novas drogas estão a caminho
Estudos recentes mostraram que tratamentos antivirais de ação direta para hepatite C, como inibidores de protease e de polimerase não nucleotídeos, podem aumentar o índice de erradicação do vírus – principalmente para aqueles pacientes que não podem (ou não são elegíveis para) usar interferons, que é a droga mais antiga usada no tratamento da hepatite C.
Hoje em dia, no Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
já tem aprovado desde o final do ano passado o telaprevir – um antiviral de ação direta (DAA) da classe dos inibidores de protease, indicado para o tratamento de adultos infectados pelo vírus HVC de genótipo 1, em combinação com o interferon peguilado alfa e ribavirina (terapia padrão atual).
O medicamento já foi aprovado também por órgãos reguladores internacionais como o Food and Drug Administration (FDA) a EMA (European Medicines Agency).
Terapia tripla
Outro produto, ainda em fase III (de estudo dos resultados), é um inibidor de protease oral do vírus da hepatite C que inaugura um novo esquema de tratamento da doença: a terapia tripla (peginterferona + ribavirina + boceprevir).
A apresentação das novas análises coincide com a publicação dos dados primários desses estudos, publicados na revista científica The New England Journal of Medicine. Os resultados demonstraram que a adição de boceprevir melhorou significativamente a resposta virológica sustentada (ausência do vírus no organismo 24 semanas após o fim do tratamento, tempo considerado para cura da hepatite C) em pacientes adultos que não responderam a tratamentos anteriores.
Cura é possível para até 70% dos portadores
Em entrevista ao Diário da Região, o infectologista Irineu Luiz Maia, chefe do Departamento de Doenças Dermatológicas, Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp), esclarece as principais dúvidas sobre a hepatite C, cujo tratamento hoje pode ser totalmente custeado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Diário da Região – Como se caracteriza a hepatite C?
Irineu Luiz Maia – É uma doença infecciosa, causada por um vírus (VHC) caracterizado clinicamente por uma fase aguda, frequentemente assintomática e com um potencial de evolução para uma forma crônica em 80, 85% dos casos. Na sua forma crônica, também assintomática, o grande problema é a evolução para cirrose hepática e/ou câncer do fígado.
Diário – Como é possível a pessoa saber se é portadora?
Maia – Por meio de uma triagem por exame de sangue (sorologia para hepatite C).
Diário – Quem pode ser vítima?
Maia – Todos que entraram em contato com sangue (transfusões especialmente antes de 1992), que tiveram relação sexual com prováveis portadores do vírus e filhos de mães portadoras do vírus. É importante lembrar que as “microtransfusões” (alicates de unha contaminados, seringas não descartáveis, etc) também são importantes da epidemiologia das hepatites virais.
Diário – Como a doença se manifesta?
Maia – Na sua fase aguda, frequentemente ela é assintomática. Quando tem sintoma, não é diferente das outras hepatites: náuseas, vômitos, mal-estar geral, urina escura e olhos amarelados. Na sua forma crônica, é uma doença Silenciosa. Quando apresenta sintomas, o fígado praticamente está perdendo sua função e, neste caso, só resta o transplante de fígado como alternativa para reverter o quadro.
Diário – Em que faixa etária a hepatite C é mais frequente?
Maia – Estima-se que 3% da população mundial seja portadora do vírus da hepatite C (cerca de 170 milhões de indivíduos). O Brasil é um país de endemicidade intermediária para baixa. A faixa etária mais prevalente é dos 30 aos 60 anos de idade, com predomínio do sexo masculino de 1,5 para 1 mulher. O que nos preocupa no jovem é a transmissão sexual e por uso de drogas ilícitas (intravenosa ou inalatória).
Diário – Existe cura para a doença quando detectada de forma precoce?
Maia – Com as drogas atuais, podemos obter a cura entre 30 e 70% dos portadores, conforme o subtipo do vírus (1, 2 ou 3). Estamos esperando a liberação para o 2º semestre de novas drogas que melhorarão a resposta terapêutica.
Diário – Qual o tratamento mais comum? Há relação com outras doenças, sistêmicas, por exemplo?
Maia – O tratamento atual é feito com a associação de duas drogas: interferon + ribavirina. Ainda aguardamos a liberação de uma 3ª classe de remédios: os inibidores de protease. Não há dúvida de que a associação de comorbidades piora o prognóstico do paciente portador do vírus da hepatite C: alcoolismo, vírus da hepatite B, vírus de imunodeficiência humana (HIV), entre outros.
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