Pedagoga diz que prostituição é rito de passagem
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Autoafirmação e questão financeira favorecem cooptação
SÃO PAULO. A pedagoga Janaina Lima, coordenadora do Grupo Identidade, que lida com diversidade sexual em Campinas, afirma que não são só a marginalização e a falta de condições financeiras que empurram os travestis para “a pista”.
TRAVESTI desde os 15 anos, Janaina diz que a prostituição na rua é também um rito de passagem na vida dos travestis.
– O processo de rua é como se fosse um estágio na vida do TRAVESTI, uma afirmação da identidade. É claro que tem a questão financeira, e esses dois fatores são facilitadores das redes de exploração de adolescentes e crianças travestis – explica Janaina.
A pedagoga já se prostituiu em Campinas e hoje trabalha com os travestis de todas as idades, prostitutos ou não.
– Fazemos um trabalho de redução de danos, mas no sentido amplo da expressão. Não é falar para usar CAMISINHA apenas. E não é dizer para o TRAVESTI deixar essa vida, mas conscientizá-lo.
Anália Ribeiro, do Escritório Paulista de Prevenção e Enfrentamento ao Tráfico de Seres Humanos (Secretaria de Justiça), disse que os programas de prostituição custam cerca de R$ 50, dos quais 1/3 ficam com os travestis e 2/3 para os aliciadores. Para a coordenadora do escritório, os exploradores são vistos pelas vítimas como aliados: – Eles são a referência afetiva desses travestis, que foram maltratados em casa, nas ruas. São chamados de madrinhas e padrinhos. As vítimas não têm noção do processo a que foram submetidos, dos requintes de per versão, da quantidade de drogas lícitas e ilícitas que teriam de usar nessas redes – explicou.
Mais velhos ensinam macetes
M. começou a tomar hormônio feminino aos 14 anos. Usava anticoncepcional da mesma marca de uma amiga. Ouviu de travestis e homossexuais mais velhos que deveria começar seu “tratamento” bem cedo caso quisesse, no futuro, implantar silicone.
– Me ensinaram que tem de esticar a pele para o silicone não cair. Mas tomei só uns meses, porque o hormônio mexe muito com as células.
Vivendo pela terceira vez na Fundação Criança de São Bernardo do Campo, o Parque Dona Lindu, M., hoje com 16 anos, tenta voltar à família que o rejeitou após inúmeros conflitos.
Ele abandonou a escola e começou a se prostituir.
Filho de pais separados, M.
foi criado por avós de classe média alta. A prostituição começou como brincadeira, no fim da “balada”. Ele e os amigos ficavam na praça onde os travestis faziam ponto.
– Os carros paravam, e eu e meus amigos acabávamos fazendo um programa.
M. revela que, depois que ele passou a se prostituir, a avó não conseguiu mais lidar com ele e o mandou para a casa da mãe, em situação mais precária.
– Minha avó não queria me deixar sair à noite, mas a minha mãe não se importava que eu passasse a noite fora.
Foi no meio desta crise que os olhos de um TRAVESTI cabeleireiro cresceram sobre M. Ela tentou financiar próteses de silicone e agenciá-lo para a prostituição, mas o garoto resistiu. Agora, os profissionais da fundação tentam ajudá-lo a reconstruir a relação com a família.
O GLOBO-RJ | Editoria: | Pág. | Dia / Mês/Ano: |
O PAIS |
| 17/JANEIRO/2010 |
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