Trabalho para dar prazer
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| JORNAL DE BRASILIA – DF | BRASIL LGBT 04/07/2010 Imagem 1 Em roupas provocantes, mulheres, homens e travestis seduzem clientes nas esquinas e avenidas das cidades brasileiras Ana Paula Leitão, especial para o Jornal de Brasília redacao@jornaldebrasilia.com.br Em avenidas, praças e casas de prostituição, mulheres trabalham para dar prazer. Nesse universo, vale quase tudo para ganhar o dinheiro necessário à sobrevivência e até à realização dos sonhos. Mal inicia a noite na capital federal e os trabalhadores sexuais se põem em seus postos, quase fixos, para seduzir os clientes. As paradas de ônibus das asas Sul e Norte são pontos tradicionais de mulheres, homens e travestis que exibem seus corpos para provocar os sentidos e desejos de motoristas que passam pela via. A variedade no mercado da prostituição em Brasília é grande. Para atrair os clientes, muitas se passam por modelos em fotografias eróticas para sites que prometem puro prazer. Em uma quadra no fim da Asa Norte, duas irmãs se tornam concorrentes diretas. De cabelos longos, lisos e pretos, e corpos esculturais, ambas oferecem serviços sexuais aos passantes. As duas fazem parte do grupo de oito mulheres que, durante as noites, se revezam em seis quartos de dois apartamentos para fazer os programas. Para ficar mais barato, o aluguel é dividido com precisão entre todas. A jovem de 20 anos garante que o emprego é temporário para ela e para a irmã de 19. “Isso aqui é passageiro, até porque é um dinheiro que vem fácil, mas que também vai fácil. Tem que saber administrar”, afirma, após contar que pretende abrir uma loja em Taguatinga. A verdade sobre a vida noturna das duas é desconhecida pela família. A mais velha garante que o marido e os filhos pequenos nem desconfiam, enquanto a mais nova completa: “Meu namorado pensa que eu sou uma santa”. “EU ME VALORIZO” A universitária Maggie, de 22 anos, também esconde do namorado que trabalha na prostituição. Durante o dia, mantém o emprego em um shopping e estuda Direito. Já à noite, a jovem oferece prazer em troca de dinheiro. Nos ganhos mensais, a renda gira em torno de R$ 8 e R$ 10 mil. “Pelo menos eu estou dando por dinheiro, não é de graça. Putas são essas meninas que dão de graça, eu me valorizo”. Maggie garante que pretende ficar na atividade até o término da faculdade. “Tem gente que não nasce em berço de ouro, eu preciso desse dinheiro para me manter. E vivo bem, me visto bem, não estou roubando, nem matando, estou vendendo uma coisa que é minha”. “É bacana porque não tem comprometimento nenhum, não precisa ligar no dia seguinte e nem mandar flores”, diz um dos clientes, que se utiliza da prostituição para satisfazer os desejos do corpo desde os 14 anos, quando teve sua primeira experiência sexual com uma prostituta. “Acho que o homem tem mais vontade, se sente bem ao pagar para ter a mulher. É uma coisa meio machista”, admite. O Setor Comercial Sul, que ficou conhecido como Rua da Alegria, hoje abarca o chamado baixo-meretrício. À beira da pista, mulheres, homens e travestis aguardam pacientemente os clientes. Os serviços são prestados em hotéis, motéis, dentro de carros ou mesmo atrás de pilastras. De acordo com a assistente social e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), Marleide Gomes, o local está invisibilizado pela população brasiliense. “A gente vê, mas não enxerga. A Rodoviária e o Setor Comercial Sul são regiões de conflito, de drogadição, de tráfico e de prostituição. São locais a população marginalizada está inserida em diversas atividades, entre as quais a prostituição e a exploração sexual de crianças e adolescentes. Luta contra o preconceito Em um dia pacato e aparentemente comum, há 35 anos, cerca 150 prostitutas ocuparam a igreja de Saint-Nizier, em Lyon, na França, com total apoio da diretoria da paróquia. Elas protestavam contra multas, prisões e até assassinatos de prostitutas, que sequer eram investigados. Desde então, o dia 2 de junho foi declarado Dia Internacional da Prostituta. As francesas também reivindicavam o fato de maridos e filhos serem processados como rufiões, por se beneficiarem da renda das mulheres. Muitas tabernas deixaram de alugar quartos para as trabalhadoras do sexo por medo de uma repressão policial. Transmitida pela mídia no país e no exterior, inclusive no Brasil, em torno de 200 prostitutas fizeram uma carreata para distribuir filipetas denunciando a perseguição policial. Elas chegaram a enviar uma carta ao então presidente Giscard d”Estaing. O movimento logo se expandiu para outras cidades francesas, como Marselha, Montpellier, Grenoble e Paris, onde as companheiras deflagaram greve. Por volta das 5h da manhã do dia 10 de junho, as mulheres foram expulsas brutalmente pela polícia da igreja de Saint-Nizier. A data representa um momento de críticas e reivindicação de direitos. Para o psicólogo e pesquisador da UnB, Mario Ângelo, o movimento de prostitutas ainda tem muito por fazer. Além da discriminação, da dificuldade de ter acesso a serviços básicos e de estar à margem da sociedade, segundo ele, muitas mulheres ainda sofrem nas mãos do tráfico de pessoas em conexões nacionais e internacionais, sobretudo nas fronteiras do Brasil. Pelo menos três mulheres foram assassinadas em Brasília no ano passado a mando da rede de tráfico de pessoas. “Há vários casos de mulheres que conseguem fugir dessa situação de opressão, de escravidão e, dentro do processo de negociação, acabam em dívida com essa rede e são perseguidas, ameaçadas e muitas vezes até mortas”. |
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