Igreja retoma a discussão sobre o aborto
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Jornal da Paraíba – PB | Editoria: | Pág. | Dia / Mês/Ano: |
Geral |
| 11/FEVEREIRO/08 |
ALINE OLIVEIRA
POSICIONAMENTO – Padre Virgílio é radicalmente contrário ao ABORTO
Duas adolescentes paraibanas morreram em 2007 vítimas de complicações de tentativas de ABORTO. Elas apresentaram um quadro grave de intoxicação depois de terem tomado chá de espirradeira, uma erva abortiva. Além da situação dramática, o que mais chocou os médicos nos dois casos foi que o exame feito após o óbito comprovou que nenhuma das duas estava de fato grávida. “Elas morreram simplesmente pelo drama de acreditarem que estariam grávidas, o que as levou a uma atitude extremada e desesperada”, lamenta a gerente executiva de Ações Programáticas e Estratégicas da Secretaria Estadual de Saúde (SES), Valderez Araújo.
Ela alerta para uma outra realidade: estes números são apenas uma parte de um problema que permanece invisível e continua matando ou esterilizando mulheres em todo o País. Uma estimativa feita pelo Coletivo Feminista – Cunhã dá uma noção do tamanho deste problema. Cerca de 10 mil mulheres provocam o ABORTO de forma clandestina e boa parte delas chega à rede pública de saúde com algum tipo de complicação. Para chegar a este número, o Cunhã fez um levantamento dos atendimentos de curetagem feitos em cinco maternidades da capital e aplicou uma metodologia internacional. Em todo o Brasil, a estimativa é de que 31% das gravidezes sejam interrompidas voluntariamente.
Os números preocupam e provocam polêmica. Enquanto em Brasília tramitam Projetos de Lei para a descriminalização do ABORTO e o Ministério da Saúde tem se mostrado a favor de melhorar as políticas públicas neste sentido, a Igreja se mantém firme na posição contrária e a discussão segue acalorada. A polêmica voltou à tona esta semana com o lançamento da Campanha da Fraternidade 2008, que tem como tema Fraternidade e Defesa da Vida e cujo lema é “Escolhe, pois, a vida”, se posicionando fervorosamente contrária não apenas ao ABORTO, mas também à eutanásia e a pesquisas com células tronco. A campanha só será lançada oficialmente no Estado no próximo dia 16, mas já está a pleno vapor em todo o País.
Quem compõe as estatísticas do Cunhã é a enfermeira Rosa (nome fictício), de 30 anos, que há 12 interrompeu uma gravidez indesejada, fruto de um relacionamento rápido de verão. “Eu sabia que ele não queria nada sério, mas acabei engravidando”, lembra. Com medo da reação dos pais, ela só contou o segredo a uma tia, que lhe preparou um chá, que a fez acordar no dia seguinte sangrando muito, mas não procurou um médico. Hoje com duas filhas de um e quatro anos, Rosa garante que ainda paga o preço da opção que fez, já que demorou a se recuperar. “Já fui punida suficientemente”, acredita.
No meio da discussão está a SES, que se posiciona oficialmente contrária ao ato do ABORTO, mas que defende a discriminalização, o que já acontece informalmente devido à atitude dos médicos que atendem mulheres com complicações decorrentes do abortamento ilegal. Como Valderez Araújo explica, em alguns casos, os médicos vêem claramente que se trata de um ABORTO e, portanto, de um crime, mas não notificam a polícia “porque estão mais preocupados em cuidar do restabelecimento da saúde da paciente do que em apontar seu crime”. “É uma opção do profissional que deve ser respeitada”, acredita.
Não é à tôa que, apesar do ABORTO induzido ser considerado crime no Brasil, não existe um caso sequer de mulher que tenha sido presa ou condenada por isso. Para Valderez Araújo, os médicos levam em consideração que estas mulheres já estão sofridas e marcadas demais para, além de tudo, enfrentarem uma acusação formal. “Elas chegam ao hospital sangrando e com muita dor, quem vai pensar em outra coisa em um momento como este, se não em salvá-las?”, questiona.
“A vida não é fruto de um simples acidente”
“Tratar o ABORTO como um problema de saúde pública é uma redução da perspectiva humanista e religiosa da vida”. Este é o posicionamento do padre Virgílio Almeida, que reflete a posição radicalmente contrária ao ABORTO adotada pela igreja Católica. Ele reclama que alguns setores da sociedade têm se mostrado não apenas contrários à igreja, mas também reclamam que ela estaria interferindo na autonomia de um Estado laico. “A existência de um Estado laico não significa um Estado ateu, que proíbe as expressões legítimas dos vários grupos religiosos”, diferencia.
A argumentação do padre está baseada no fato de que “para a igreja, a vida humana não é fruto de um simples acidente resultante do encontro de um óvulo com um espermatozóide”. “Seria arvorar-se como Deus, numa atitude prepotente da sociedade, aceitar que alguém decida sobre a vida de outra. A vida é sagrada e ninguém pode dispor dela a seu bel-prazer”, defende. O problema, para ele, seria causado porque os argumentos abortistas têm uma compreensão “redutiva e jurídica” da pessoa humana.
Em relação ao argumento de que a discriminalização do ABORTO pode reduzir o número de mortes decorrentes de abortos clandestinos, Virgílio compara com os números de mortes decorrentes de atos violentos em todo o País, questionando se “vamos torná-los legais e legítimos por não termos presídios para tanta gente”. Mesmo assim, ele admite que se “somente uma mulher, por ano, fosse vítima de procedimentos criminosos em clínicas clandestinas, ainda assim estaríamos diante de um grave desafio”. O padre ainda defende que “a situação de pobreza que impede uma mãe de levar adiante a gravidez não se resolve com o ABORTO, mas com política social de verdade que gera inclusão e superação efetiva da miséria”. Para ele, lançar o debate sobre o ABORTO como questão de saúde pública no Brasil não significa amadurecimento da sociedade, mas sim uma expressão do fracasso de um processo educativo, considerado “longe de preparar as novas gerações para a vivência madura e responsável da sexualidade”. (AO)
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