Epidemia do vírus sobrecarrega hospitais, levando à falta de medicamentos e à exaustão das equipes médicas. Liberianos que precisam de tratamento para outras doenças graves acabam negligenciados.
O medo prevalece na Libéria. Desde março deste ano, mais de 1.400 pessoas morreram em razão da epidemia de ebola no país. A (OMS) alerta que os números de novos casos devem aumentar Dramaticamente. No entanto, a contaminação pelo ebola não é o único fator que assombra os liberianos. É grande o medo entre os pacientes em serem classificados como portadores de ebola por engano.
“Os hospitais me amedrontam muito”, diz Roland Shad, morador da capital Monróvia. “O ebola é a bola da vez. Mesmo que você tenha uma simples infecção como a malária malária, eles [serviço médico] dirão que é ebola”, conta Shad, antes de mencionar que a possibilidade de um diagnóstico errado seguido por dias e talvez semanas semanas de isolamento, não o atrai.
Annie Chea, que vive em New Kru Town, concorda com Shad. Ela afirma que casos de dor de cabeça sao tratados como ebola. “Assim,tenho medo de ir ao hospital”, confessa.
Diarreia e febre alta são sintomas do vírus ebola, mas também ocorrem em pacientes com malária. Entretanto, segundo o Ministério da Saúde da Libéria, todos os doentes com esses sintomas tem de ser tratados como casos de ebola.
Sistema de saúde é deplorável
Em New Kru Town fica o renomado hospital Redemption, que possui ala de isolamento para pacientes com suspeita de infecção por ebola.O enfermeiro James Gbatah, que tem uma mensagem direta aos liberianos: “Não tenham medo! Não pensem que os hospitais não são seguros. São os melhores lugares para todos os pacientes. É nos hospitais que receberão ajuda, quando não souberem qual doença os acomete.”.
Mas, o que nos casos cotidianos é uma afirmação verdadeira, torna-se ambiguo e duvidoso quando se trata de suspeita de contaminação pelo vírus ebola . Já tem algum tempo que o desespero tomou conta também das equipes médicas. “Após o início da epidemia, em julho, perdemos o doutor Samuel Brisbane”, lembra Daylue Goah, relações públicas de um dos maiores hospitais da Monróvia, o John F. Kennedy Memorial Center.
“Após sua morte, a maioria dos funcionários virtualmente debandou para salvar suas vidas. Sem enfermeiras, os pacientes também resolveram fugir – eles assinaram termos de responsabilidade declarando que deixaram o hospital contrariando as recomendações médicas”, explica Goah. O exemplo mostra como o sistema de saúde na Libéria literalmente sucumbiu em consequência da epidemia.
Pacientes de AIDS sem atendimento
A atenção maior dedicada ao ebola encobre, assim, outras doenças Apesar do número exacerbado de mortes na África Ocidental, a doença ainda está longe de ser a mais letal de todas. Além da malária, a AIDS também está entre as doenças das mais perigosas e letais e provoca cerca de 1,6 milhão de mortes por ano – a maioria delas, na África.
Cynthia Quaqua, da associação Reforço do Papel da Mulher: “Por conta do ebola, AIDS deixou de ser assunto na Libéria”.
Somente na Libéria, mais de dez mil pessoas contaminadas. Um desses, Joejoe Baysah, conta que “desde o início do surto de ebola, as campanhas contra o HIV foram interrompidas”. O homem de 45 anos recebe tratamento antiretroviral há 12 anos. “O acesso a medicamentos é dificil e problematico porque os hospitais estão fechados”, constata Baysah.
Segundo ele, muitos locais de tratamento contra a AIDS, destinados a prevenir a contaminação vertical, estão fechados.
Na opinião de Cynthia Quaqua, presidente da rede liberiana para o Reforço do Papel da Mulher, isto é absurdo. “Pessoas estão morrendo. Não temos mais locais de tratamento com boa qualidade, todos só se preocupam com o ebola”, lamenta. Ela acaba de saber da morte de mais uma criança, que foi infectada pela mãe em seu nascimento. “Atualmente, a AIDS não é coisa importante na Libéria.”
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