Nos EUA, mais de 40% dos gays e outros homens infectados pelo VIH que têm sexo com homens (HSH), praticam sexo anal desprotegido, de acordo com os resultados de uma meta-análise, publicada na edição de 24 de Agosto da revista AIDS.
Michael Carter
30 de Dezembro de 2009
Nos EUA, mais de 40% dos gays e outros homens infectados pelo VIH que têm sexo com homens (HSH), praticam sexo anal desprotegido, de acordo com os resultados de uma meta-análise, publicada na edição de 24 de Agosto da revista AIDS. Neste estudo, houve, contudo, também evidência de que estes homens tentavam limitar o risco de transmissão do VIH aos parceiros sexuais, empregando estratégias como o serosorting (escolha do parceiro em função do estado serológico, escolhendo, portanto, parceiros também seropositivos) ou o “posicionamento estratégico” (adoptando o papel receptivo durante a relação sexual desprotegida). Não houve evidência de que factores clínicos, como a adesão ao tratamento ou uma carga viral indetectável, tivessem influência na prática de actividades sexuais desprotegidas.
Nos EUA, os homens homossexuais e outros homens que têm sexo com homens (HSH) são afectados de forma desproporcionada pelo VIH e outras ITSs (infecções de transmissão sexual). Depois de lhes ser diagnosticada a infecção, muitos homens reduzem os seus comportamentos de risco. Outros, porém, continuam a ter sexo desprotegido, situação que implica o risco de transmissão do vírus a outras pessoas, assim como a exposição a outras ITSs.
Têm sido vários os estudos a examinar a prevalência do sexo anal desprotegido entre os gays e outros HSH nos EUA, com diagnóstico de VIH. De forma a obter uma síntese dos achados de toda esta investigação, um grupo de investigadores procedeu à meta-análise dos resultados de 30 estudos conduzidos entre 2000 e 2007 que avaliaram os comportamentos sexuais desprotegidos nesta população.
De forma a evitar uma sobre-estimativa do valor da prevalência do sexo anal desprotegido, os investigadores excluíram os estudos que recrutaram exclusivamente homens com comportamentos que pudessem inflacionar a proporção dessa prática (por exemplo, os estudos com utilizadores de metanfetamina ou com trabalhadores do sexo), bem como estudos em que os participantes fossem recrutados de locais como websites de “barebacking” (bareback=prática de sexo desprotegido), festas de sexo e saunas.
Assim, os estudos incluídos nesta análise envolveram um total de 18 121 homens, recrutados quer de centros hospitalares e de saúde, quer de organizações, locais e eventos gay. Todos estes estudos eram “cross-sectional” (ou seja, traçavam um resumo ou perfil breve da situação, num dado momento – como uma fotografia tirada num dado momento).
A idade média dos participantes foi de 38 anos, o tempo médio de diagnóstico da infecção pelo VIH era de 70 meses, e a proporção de indivíduos a fazer medicação anti-retroviral (ARV) variava entre os 23% e os 89% (média, 77%).
Por seu lado, a percentagem de indivíduos que referiram tomar, pelo menos, 90% das doses do seu tratamento variou entre os 26 e os 76% (média, 67%), enquanto a proporção dos que apresentavam uma carga viral indetectável oscilou entre os 39 e os 57% (média, 42%).
Em termos globais, os resultados combinados dos estudos mostraram que 43% dos homens referiram a prática de sexo anal desprotegido, comportamento que foi referido ser praticado com maior frequência com outros homens que se sabia serem seropositivos para o VIH (por outras palavras, serosorting). Contudo, 26% dos homens referiram a prática de sexo desprotegido com um homem seronegativo ou cujo estado serológico não era conhecido.
Houve evidência de uma tentativa de reduzir o risco de transmissão do VIH aos parceiros seronegativos, adoptando-se um papel receptivo durante o sexo desprotegido (9% receptivo vs. 5% insertivo). De igual modo, quando o estado serológico do parceiro não era conhecido, os homens tendiam mais a ser receptivos do que insertivos (12% receptivos vs 8% insertivos).
No que se refere ao primeiro conjunto de dados da análise estatística dos investigadores, verificou-se que a prevalência de sexo desprotegido era mais baixa nos estudos que:
recrutaram os participantes antes do ano 2000
incluíam homens não caucasianos
incluíam homens recrutados em centros médicos, em vez de locais ou eventos gay.
usaram uma técnica de amostragem aleatória em vez de uma amostragem por conveniência.
e nos estudos cujo questionário era feito por um entrevistador e não pelo próprio.
Após uma análise estatística multivariada, apenas o método de amostragem e o modo como o questionário era respondido mantiveram o seu significado estatístico. Os investigadores sugerem ser necessária mais investigação de modo a perceber-se por que razão o método de amostragem teve significado.
Fazem notar também que “o facto de a prevalência do sexo anal desprotegido ser mais elevada em estudos com questionários auto-administrados do que em estudos com questionários feitos através de entrevistas sugere que os homens seropositivos para o VIH que têm sexo com homens talvez não tenham referido a prática de comportamentos socialmente não desejáveis quando o questionário era administrado por um entrevistador”.
“Descobrimos que uma percentagem razoável de HSH seropositivos praticavam sexo anal desprotegido com outros homens”, escrevem os investigadores.
Que acrescentam: “Trata-se de um problema importante em termos de saúde pública, dada a elevada prevalência de VIH e ISTs entre os HSH dos EUA”.
Contudo, os investigadores também descobriram evidência de que “alguns HSH seropositivos têm comportamentos que podem diminuir a probabilidade de infectar outras pessoas”. E concluem, referindo que acreditam que os seus resultados são “úteis para o desenho de campanhas e medidas de prevenção dirigidas”, sugerindo que uma das prioridades deste tipo de prevenção deveria ser a que se refere à “prática do serosorting e do posicionamento estratégico”.
Referência
Crepaz N et al. Prevalence of unprotected anal intercourse among HIV-diagnosed MSM in the United States: a meta-analysis. AIDS 23: 1617-1629, 2009.
Tradução
GAT – Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA
In aidsmap
30.12.2009
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