Serviços prioritários em xeque

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, Unidade de referência: no terceiro dia de paralisação dos médicos, os corredores do IJF estavam vazios e só foram atendidos pacientes de urgência (Foto: Gustavo Pellizzon)

 

Sem acordo: policiais civis estão em greve há 15 dias. Eles reivindicam melhoria salarial e condições de trabalho
Greve de servidores da saúde, educação e segurança colocam em xeque as administrações estadual e municipal

 

Quando saúde, educação e segurança pública não estão bem, é sinal de que a sociedade está entregue — a que ou a quem não se sabe — e que o Poder Público não está cumprindo sua obrigação de garantir direitos básicos e constitucionais à população. É o que está acontecendo aqui. Em Fortaleza, parte desses três setores está em greve ou em mobilização por melhoria das condições de trabalho, o que não significa que quem não paralisou as atividades esteja bem.

E não se trata apenas de aumentar salário. É ter um hospital para o professor universitário dar aulas práticas, é ter atendimento hospitalar a contento em toda a cidade para não sobrecarregar uma unidade, é dar condições para a população prestar uma queixa na delegacia, já que a insegurança na rua é geral. Porque, quando isso não existe, quem paga é quem precisa ir à delegacia, ao hospital ou à universidade. Resumindo: todos, inclusive quem trabalha nas áreas.

Especialistas constatam que o trabalhador – em sua maioria – não deseja fazer greve. Quando o movimento é deflagrado, é porque várias alternativas foram descartadas por falta de acordo. Conforme explica o doutor em Economia e professor em greve da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Macário Moura, esse descontentamento mostra uma “insatisfação generalizada”.

Hoje a greve de professores e alunos da instituição completa quatro dias. No ano passado, os professores da Universidade ficaram parados cinco meses.

“São três grandes áreas de assistência ao cidadão paradas. Na segurança pública, a Polícia Civil está parada, na Militar há rumores de um movimento. Na educação superior o Estado está parado. A educação básica pode aderir e na saúde o problema afeta o maior hospital do Ceará. E ainda querem dizer que o problema é localizado?”, questiona Moura.

Na opinião do professor, que também é diretor do Sindicato dos Docentes da Uece (Sinduece), a administração estadual tem “todas as condições de investir e atender a esses setores prioritários”, até porque as conseqüências não afetam apenas os grevistas, mas todos os usuários dos serviços.

Em reunião com professores e alunos na última segunda-feira, o governador Cid Gomes assegurou dobrar os investimentos na Uece até 2010. Contudo, no início da gestão as obras do hospital do Curso de Veterinária pararam e muitos laboratórios precisam de melhorias.

Insegurança

Insuportável para a Polícia e para a população”. É assim que o presidente do Sindicato dos Policiais Civis no Estado do Ceará (Sinpoce), Weudo Jorge Queiroz, define a situação que levou à greve da categoria que, hoje, completa 15 dias. O resultado é que, segundo ele, com ou sem paralisação, só 30% da demanda do Estado é atendida a contento, por ordem de gravidade. Aí se incluem flagrantes, termos circunstanciados de ocorrência (TCOs).

A situação na Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) pode se agravar na próxima semana. Os delegados de Polícia marcaram para segunda-feira (19) assembléia geral para decidir se deflagram greve por tempo indeterminado. Hoje, os policiais vão se reunir, em assembléia, para avaliar o movimento.

Na Secretaria da Justiça (Sejus) o quadro também não é animador. Ontem, os agentes prisionais do Instituto Penal Paulo Sarasate (IPPS) cruzaram os braços em protesto contra a insegurança no trabalho.

Agora na greve, é inevitável fazer uma triagem. “Do mesmo jeito do IJF”, compara Queiroz. Segundo ele, a situação na Polícia Civil é tão grave que de 5% a 10% dos policiais se encontram em tratamentos de saúde relacionados a doenças adquiridas ou potencializadas devido à profissão.

“Depressão, doenças cardíacas. A carga horária é muito puxada, o ambiente é inadequado, as delegacias lotadas, com presos até cumprindo pena, muitos com hepatite, micoses, Aids, doenças altamente contagiosas”, denuncia. A única forma de reverter essa situação, na opinião de Queiroz, é investir em qualidade. Para os policiais, isso inclui todas as delegacias funcionando 24 horas para melhorar o atendimento e redirecionar os presos das cadeias para penitenciárias.

Dos 184 municípios cearenses, só 44 têm delegacias. Dessas, seis estão sem delegado, segundo dados do Sinpoce. O salário bruto do policial é de R$ 1,2 mil enquanto o líquido é de R$ 700. “A greve é justamente para isso. Não dá para continuar assim”, desabafa.

Segundo o presidente, os reflexos da greve vão além da delegacia. “O trabalho do delegado fica comprometido”, diz. Isso porque inspetores, escrivães e peritos legistas dão suporte para o delegado colher as provas testemunhais e montar o inquérito. Com os profissionais parados, os inquéritos atrasam e chegam mais tarde ao Ministério Público, que o encaminha ao Poder Judiciário.

PROTAGONISTAS

Faltam médicos no Frotinha da Parangaba

Antônio Gomes Ferreira

A dona-de-casa Maria Janir da Costa foi para o IJF, ontem de manhã, porque não conseguiu atendimento, no Frotinha da Parangaba, para Antônio Gomes Ferreira, que sofrera acidente de carro e precisava fazer exames. ´Fizemos todo o procedimento, demos entrada, mas quando chegamos na emergência não tinha médico ortopedista. Você fica com um paciente grave bolando no carro, esperando a boa vontade de algum hospital receber´, reclamou.

POLÍCIA JUDICIÁRIA

População se sente insegura

 

Das greves em vigência na Capital cearense, a registrada na Polícia Civil é a que mais gera temor na população. Por dois motivos: as pessoas acham que os infratores se sentem mais livres para agir e o clima de insegurança na cidade aumenta. E mais: com o atendimento restrito, as filas nas delegacias revolta o cidadão que foi vítima de violência e não tem sequer a quem recorrer.

O resultado é que, nos distritos policiais, muitos inquéritos estão parados porque os casos mais graves são priorizados.

No 34º Distrito Policial, Centro, ontem, não faltavam reclamações. Um homem chegou a ir ao local a pé, de outra delegacia no Conjunto Ceará, periferia da cidade, porque não conseguia atendimento. Ele ainda teve de ir a outra unidade para resolver seu caso.

Um outro homem reclamava que seu carro havia sido roubado naquela mesma manhã, em pleno Centro da cidade, carregado de camisetas que ele passara dez meses fazendo para vender no comércio.

Para a advogada Maria Célia Soares, “o caos não é de agora, vem de anos”. De acordo com ela, tem delegacia onde é preciso pegar senha para ser atendido. “A solução é fazer concurso, colocar mais gente para trabalhar, melhorar o atendimento e dar condições para os policiais poderem atuar”, diz.

Na opinião da autônoma Karliane Rodrigues de Almeida, que estava na 34ª Delegacia de Polícia ontem, para uma audiência, a greve dos policiais civis lhe prejudicou ao ponto de perder vendas. “Poderia estar ganhando dinheiro agora. Meus clientes estão todos à disposição, mas eu não posso atender”, reclama.

Para ela, essa situação só aumenta a sensação de insegurança. “Se com a Polícia no meio da rua eles já fazem o que fazem, imagina sabendo que a gente mal tem a quem recorrer”, diz Karliane Rodrigues.

IJF

Senhora de 99 anos aguarda por atendimento em cadeira

Quando se fala em greve, pensa-se logo
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rabalhadores de braços cruzados e usuários sem atendimento. Mas esse não é o quadro no Instituto Doutor José Frota (IJF), onde os médicos iniciaram movimento na última segunda-feira. No início, até a categoria classificou a situação como greve, mas agora os médicos chamam a situação de “operação padrão”, já que o atendimento na unidade não parou. Mas as conseqüências para a população não são menores por isso.

Ontem de manhã, uma senhora de 99 anos esperava há mais de duas horas resposta para uma consulta. Com infecção urinária, intestinal e bactéria nos rins, Maria do Carmo Rodrigues de Sousa estava com dor nas costas por ficar esperando em uma cadeira de ferro. “Uma pessoa idosa assim era para ter prioridade. Viemos para cá porque no nosso bairro (Pan-Americano) só tem posto de saúde”, justificou a acompanhante e manicure Ana Lúcia Sousa da Silva.

Segundo o neurocirurgião Osmar Aguiar, nenhum paciente está deixando de ser atendido e todos são classificados conforme a causa e o perfil do hospital descrito no receituário: “procure o IJF só nos casos de urgência e emergência”.

REIVINDICAÇÕES

UECE

Professores querem a criação do Plano de Cargos, Carreiras e Vencimentos, salário-base conquistado em 1987 e melhor infra-estrutura para os campi

POLICIAIS CIVIS

Melhores condições de trabalho, todas as delegacias funcionando 24 horas por dia, todo dia da semana, redistribuição de presos e conseqüente diminuição da superlotação nas unidades

MÉDICOS DO IJF

Tratamento diferenciado no Plano de Cargos, Carreiras e Salários (PCCS) enviado à Câmara pela Prefeitura na semana passada, gratificações calculadas em cima do salário aumentado, direito ao acréscimo sem o Valor de Referência ser fixo.

 

Marta Bruno
Repórter


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