Autor: Claudio Souza DJ, Blogueiro e Escritor
O tratamento para HIV não é favor: é direito. E direitos, quando tratados como gasto descartável, cobram seu preço em vidas. Este texto fala do risco político de desmontar a rede que mantém pessoas vivas: SUS, prevenção, antirretrovirais, moradia, alimentação, transporte, acolhimento e dignidade.
O custo da sobrevivência: HIV, SUS e o risco de tratar vidas como despesa
Há coisas que um país decente não pode colocar na planilha como se fossem luxo.
- Tratamento para HIV é uma delas.
- Prevenção é outra.
Moradia, alimentação, transporte para consulta, atendimento psicológico, teste, PrEP, PEP, antirretroviral, preservativo, redução de danos, acolhimento, tudo isso forma uma rede. E quem nunca dependeu dessa rede talvez ache que ela é gasto. Quem depende dela sabe que ela é chão.
E chão, quando some, derruba.
Li um texto da AIDS United sobre um protesto chamado “O Custo da Sobrevivência”. O título já diz quase tudo. Ativistas foram ao Capitólio dos Estados Unidos para lembrar aos políticos que cortes em programas de HIV, Medicaid, moradia, alimentação, prevenção e tratamento não são cortes abstratos. Não são números frios numa tela. São receitas médicas interrompidas. São pessoas sem transporte para consulta. São clínicas comunitárias trabalhando no osso. São pessoas pobres, negras, LGBTQIA+, trans, trabalhadoras do sexo, usuários de drogas, gente estigmatizada e empurrada para fora da sala onde as decisões são tomadas.
O texto falava dos Estados Unidos.
Mas eu li aquilo pensando no Brasil.
O SUS Precisa de proteção
Porque aqui nós temos uma coisa que precisa ser defendida com unhas, dentes, memória e, se necessário, palavrão: o SUS.
O tratamento brasileiro para HIV/AIDS não caiu do céu. Ele foi conquistado. Foi construído por gente que morreu, por gente que gritou, por gente que ocupou sala de espera, por médico que não se acovardou, por ativista que incomodou, por paciente que se recusou a desaparecer, por servidor público que entendeu que saúde não é esmola.
O Brasil se tornou referência mundial no enfrentamento ao HIV porque escolheu um caminho civilizatório: oferecer tratamento pelo sistema público. Isso salvou vidas. A minha inclusive.
E é por isso que me apavora qualquer governo que olhe para o SUS como estorvo, que trate política pública como gasto inútil, que veja população vulnerável como detalhe incômodo ou como estatística que pode ser escondida debaixo do tapete.
A pandemia de COVID-19 mostrou o tamanho desse perigo.
Durante o governo Bolsonaro, que eu chamo aqui de governo messiânico porque a ironia às vezes é a única anestesia possível, vimos um conflito permanente entre ciência e palanque. Vimos a defesa do “direito de ir e vir” ser usada como porrete contra medidas sanitárias. Vimos frases infames. Vimos desprezo por mortos. Vimos a guerra política em torno da vacina. Vimos governadores tendo que tomar decisões duríssimas enquanto o governo federal hesitava, negava, brigava, minimizava.
Em São Paulo, João Doria teve de ter tutano para parar o estado. E não era qualquer estado. Era a locomotiva econômica do país. A pressão foi brutal. Ele pagou preço político alto. Abandonou depois a política. Mas, naquele momento, com todos os defeitos que qualquer político possa ter, houve uma decisão objetiva: conter a circulação, apostar na vacina, sustentar o Butantan, enfrentar o negacionismo.
Quantas vidas isso salvou?
Não sei.
Mas sei que não foram poucas.
E aqui entra o ponto que me interessa como pessoa vivendo com HIV desde 1994: se a COVID já foi tratada daquele jeito, que garantia teríamos de que uma epidemia historicamente cercada por preconceito, moralismo, homofobia, transfobia, culpa religiosa, ignorância sexual e ódio social seria protegida com mais cuidado?
Nenhuma.
Pessoas vivendo com HIV não podem depender da boa vontade ideológica de governo nenhum.
HIV não espera ministro trocar discurso.
Carga viral não respeita orçamento cortado.
Aids não se importa com slogan de campanha.
O vírus não quer saber se o governo é de direita, esquerda, centro, extremo, meio torto ou pintado de verde e amarelo. O vírus se aproveita de falhas. Falha de acesso. Falha de prevenção. Falha de testagem. Falha de adesão. Falha de estoque. Falha de transporte. Falha de moradia. Falha de informação.
Quando uma pessoa perde o medicamento, não é só uma caixa que falta.
É a vida que entra em risco.
Quando um posto deixa de testar, não é só um exame a menos.
É alguém que pode seguir sem diagnóstico. E qque fica sem tratamento, não fica indetectável e, como eu um dia, se torna vetor.
E Tem Mais, onde falta testagem é óbvio que falta tudo
Quando a PrEP não chega, quando a PEP falha, quando a consulta atrasa, quando a farmácia dispensa com má vontade, quando a campanha pública desaparece, quando o governo se cala, quando o orçamento murcha, quando a sociedade finge que HIV acabou, o preço vem.
E quem paga não é o ministro.
Quem paga é o corpo de quem depende do sistema.
E os números mostram por que essa conversa não é exagero, militância histérica ou medo de quem já viu a morte de perto.
Em 2025, havia 40,9 milhões de pessoas vivendo com HIV no mundo. No mesmo ano, 1,2 milhão de pessoas adquiriram o vírus e 570 mil morreram por doenças relacionadas à AIDS. Isso significa que, mesmo com todo o avanço científico, com antirretrovirais, PrEP, PEP, testagem e campanhas de prevenção, alguém ainda morreu por causas relacionadas ao HIV a cada minuto.
A boa notícia é que 32,1 milhões de pessoas estavam em terapia antirretroviral em 2025. A má notícia é que cerca de 5 milhões ainda não sabiam que viviam com HIV.
- E quem não sabe, não trata.
- Quem não trata, adoece.
- Quem não trata pode transmitir.
- Quem não testa, não entra no sistema.
- Quem não entra no sistema desaparece antes mesmo de ser contado.
- Por isso, quando se corta prevenção, testagem, transporte, moradia, alimentação, PrEP, PEP, atendimento comunitário e distribuição regular de antirretrovirais, não se está cortando gordura administrativa.
- Está se cortando caminho de sobrevivência.
Em 2025, dados apresentados pela UNAIDS já mostravam sinais de alerta: o acesso à PrEP caiu 38% em 62 países, e a testagem caiu 22% em alguns países de alta carga. É assim que o incêndio começa: primeiro apagam as luzes da prevenção, depois fingem surpresa quando a fumaça aparece.
HIV não perdoa desmonte.
A epidemia pode até parecer silenciosa para quem vê de longe.
Mas quem vive com HIV sabe: silêncio, em saúde pública, nunca é vazio.
Às vezes, é só o som da próxima tragédia sendo preparada.
Eu sei disso porque vivi o tempo em que não havia tratamento disponível como há hoje. Vi gente morrer como se estivesse numa fila invisível. Todas as pessoas que vivem com HIV dependem do SUS pra exames, testes e medicação. Eu e minha esposa dependemos desta medicação que chega ao publico pela via legal do SUS e é enviada por nós em um trabalho fantástico feito pelo Barong que vai onde a vida acontece falar de HIV, AIDS, Sífilis e hepatites vitais. Vi casa de apoio virar sala de espera da morte. Vi corpos emagrecendo.
Eu falo porque vi amigos partindo. Vi gente boa indo embora sem que houvesse o que oferecer além de presença, abraço, prece e caixão de madeirite.
Depois vi o tratamento chegar.
E quando o tratamento chegou, não chegou como luxo.
Chegou como ressurreição.
Por isso não aceito, em nome dos seis mil caralhos, que alguém trate política pública de HIV como se fosse favor.
Não é favor.
É direito.
E direito não se agradece de joelhos. Direito se defende de pé.
Cláudio Souza
O texto da AIDS United usa uma imagem poderosa: um recibo. Um recibo do custo da sobrevivência. Não era recibo de luxo. Era recibo do básico. Medicamento. Moradia. Alimentação. Transporte. Atendimento. Prevenção.
Esse recibo também existe no Brasil.
Só que aqui ele tem o carimbo do SUS.
E é por isso que o SUS precisa ser protegido como patrimônio nacional. Não como peça de propaganda. Não como santo em altar. O SUS tem falhas, demora, fila, burocracia, humilhação, servidor ruim, gestor ruim, sistema quebrado em muitos lugares. Eu sei. Já estive do lado de dentro dessa máquina mais vezes do que gostaria.
Mas mesmo com todas as suas feridas, o SUS é a diferença entre tratamento e abandono.
Entre carga viral indetectável e adoecimento.
Entre prevenção e nova transmissão.
Entre vida possível e morte anunciada.
Um governo de extrema direita, quando combina moralismo, corte social, desprezo pela ciência e guerra contra populações vulneráveis, não precisa declarar guerra às pessoas com HIV para colocá-las em risco.
Basta cortar.
Basta omitir.
Basta atrasar.
Basta desmontar.
Basta transformar saúde em mercadoria e dignidade em item opcional.
Foi isso que o documento da AIDS United deixou claro nos Estados Unidos. E é isso que nós precisamos enxergar antes que aconteça aqui com mais força.
Porque sobreviver não deveria ter preço.
E viver com HIV não pode voltar a ser uma sentença dependente da sorte, do CEP, do governo da vez ou da bondade de quem assina orçamento.
Eu fui considerado pré-terminal.
Eu vi o mundo dos mortos de perto.
Ou, como disse Cazuza:
vi a cara da morte e ela estava viva!
Eu Voltei
E justamente por ter voltado, não tenho o direito moral de ficar calado quando vejo a possibilidade de desmontarem aquilo que manteve tanta gente viva.
O SUS precisa ser defendido.
O tratamento de HIV precisa ser defendido.
A prevenção precisa ser defendida.
As pessoas vivendo com HIV/AIDS precisam ser defendidas.
Porque o silêncio custa vidas.
A negligência custa vidas.
E escolhas políticas custam vidas.
Quem viveu a epidemia sabe disso.
Quem não viveu precisa aprender antes que seja tarde.
Fontes e referências
• AIDS United. “O Custo da Sobrevivência” / “The Cost of Survival Rally”. Texto enviado como base de referência, publicado em junho de 2026. O documento destaca que cortes em HIV, Medicaid, moradia, alimentação, prevenção, transporte, saúde mental, redução de danos e organizações comunitárias transferem o custo da sobrevivência para pessoas e comunidades vulneráveis.
• UNAIDS / cobertura jornalística internacional. Alertas recentes sobre cortes de financiamento, enfraquecimento de programas de prevenção, testagem, PrEP e risco de retrocesso na resposta global ao HIV. Conferir e inserir link final no momento da publicação.
• Reuters / cobertura sobre COVID-19 no Brasil. Registros sobre a tensão política em torno da CoronaVac, governo federal, governo de São Paulo e Instituto Butantan. Conferir e inserir link final no momento da publicação.
• Observação editorial: antes de publicar, inserir links das fontes no WordPress e, se possível, manter a fonte principal da AIDS United ao final do texto.
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