Ex-diretora de revista médica critica, em livor, indústria farmacêutica

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Agência de Notícias da AIDS

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18/JUNHO/07

 

Ex-diretora de revista médica critica, em livor, indústria farmacêutica

 

 

17/6/2007 – 11h30

 

A edição do jornal O Estado de S.Paulo traz neste domingo uma entrevista com a autora do livro “A Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos”, que acaba de ser lançado no Brasil (Ed. Record, 322 págs., R$ 45). A americana Marcia Angell, da Escola Médica de Harvard e ex-editora-chefe da revista New England Journal of Medicine, critica a indústria farmacêutica e afirma que é injustificada a alegação da indústria de que os altos preços do remédio são necessários para financiar pesquisa e desenvolvimento. Diz que o maior gasto é com marketing e que muitos remédios anunciados como novidade são apenas reformulações de drogas antigas, críticas também apontadas pelo movimento de luta contra a Aids no Brasil. Ela ainda defende o licenciamento compulsório do Efavirenz e outros fármacos. Confira a entrevista na íntegra.

 

“A indústria está nos passando a perna

 

 

Ex-editora do ‘New England Journal of Medicine’ faz duras críticas às companhias farmacêuticas

 

 

Giovana Girardi

 

A decisão do governo brasileiro, no início de maio, de quebrar a patente do medicamento antiaids Efavirenz deveria inspirar outros países a também adotar práticas de licenciamento compulsório. Só assim seria possível baixar os preços dos remédios e liberar as pessoas de serem reféns dos lucros da indústria farmacêutica. A sugestão é da americana Marcia Angell, da Escola Médica de Harvard.

 

Ex-editora-chefe da revista New England Journal of Medicine, Marcia cansou de ver a influência da indústria sobre as pesquisas de novas drogas e largou o posto para sentir-se mais à vontade para denunciar.

 

Em A Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos, que acaba de ser lançado no Brasil (Ed. Record, 322 págs., R$ 45), ela alerta que é injustificada a alegação da indústria de que os altos preços do remédio são necessários para financiar pesquisa e desenvolvimento. Afirma que o maior gasto é com marketing e que muitos remédios anunciados como novidade são apenas reformulações de drogas antigas, sem maior eficiência. “A indústria está nos passando a perna.”

 

 

Então a verdade do seu livro é: estamos comprando gato por lebre?

 

Em grande parte sim, estamos. E são muitos gatos. Médicos e pacientes foram levados a acreditar que as drogas prescritas são melhores e mais seguras do que elas realmente são, porque a pesquisa é freqüentemente influenciada e os resultados negativos não são publicados.

 

No seu livro, a senhora diz que a indústria nos fez acreditar que muitas doenças são comuns quando na verdade elas não são. Poderia dar alguns exemplos?

 

As companhias freqüentemente vendem doenças que se encaixam em suas drogas em vez do contrário. Por exemplo, divulgam remédios para tratar algo que chamam de “desordem de ansiedade social”, que é apenas um medicinês para timidez. Mas todo mundo é tímido de vez em quando. Outras vezes a indústria expande a definição dos fatores de risco de uma doença. Todo mundo sabe que alto nível de colesterol pode ser perigoso e requer tratamento com drogas, o que pode ser bem efetivo. Mas aí os “especialistas” com conexões financeiras com a indústria ficam baixando o nível considerado “normal”. Alguns críticos acreditam que várias pessoas tomam remédio para baixar o colesterol sem necessidade.

 

A senhora também denuncia que o investimento real em inovação é pequeno. É possível controlar a indústria farmacêutica?

 

Há muitas reformas que eu poderia sugerir para que a indústria fosse mais bem regulada e juntas eu acredito que seria possível restabelecer o propósito original de fazer drogas inovadoras. Nos EUA, no entanto, o problema fundamental é o Congresso. As companhias farmacêuticas têm o maior lobby em Washington e dão grandes quantidades de dinheiro para financiar campanhas. Isso significa que pelo Congresso quase nunca passa uma lei que não esteja de acordo com os desejos da indústria. E o FDA (agência reguladora de drogas e alimentos dos EUA) é controlado pelo Congresso.

 

C

omo podemos forçar a indústria a investir mais em pesquisa e desenvolvimento?

 

O maior problema é que a indústria tem lançado muitas “me-too drugs” – variações triviais de remédios já existentes, com novas patentes. Recentemente, o FDA classificou que 80% das novas drogas provavelmente não apresentam desempenho superior aos remédios já existentes. Se fosse obrigatório que novas drogas fossem comparadas com as antigas antes de chegar ao mercado, essa onda iria parar. Então as indústrias voltariam sua atenção para a real inovação.

 

Se os altos preços dos remédios têm afetado os americanos, os países pobres estão ainda mais vulneráveis. E a indústria nem olha para doenças tropicais, por isso chamadas de negligenciadas…

 

Verdade. Mas isso é muito simples de entender. Companhias farmacêuticas são negócios de capital aberto e têm como uma de suas obrigações aumentar o valor das ações maximizando lucros. Não são de caridade e não têm interesse em fazer drogas que não rendam lucros. É óbvio que prefiram lançar mais um tipo de estatina para colesterol (já há seis no mercado) que tentar investigar uma nova droga para tratar, digamos, malária. Até porque, apesar de doenças tropicais matarem um grande número de pessoas, ocorrem em regiões que geralmente não podem arcar com as despesas de drogas de marca registrada.

 

Recentemente, o governo brasileiro quebrou a patente do anti-retroviral Efavirenz. Esse é o caminho para países pobres obterem acesso a remédios caros e assim forçar a indústria a baixar seus preços?

 

Deveria, sim, haver amplo uso de licenciamentos compulsórios. É errado manter as pessoas reféns dos lucros das companhias farmacêuticas, visto que elas estão entre as mais lucrativas do mundo, ano após ano. Só nos EUA vendem cerca de US$ 250 bilhões em drogas com prescrição médica. Sem contar o medicamento usado em hospitais. Então os países pobres têm mais é de usar esse recurso.

 

 

Fonte: O Estado de S.Paulo


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