
Sem tratamento específico, os pacientes dificilmente sobreviviam à última fase da infecção, a síndrome da imunodeficiência adquirida (Aids). Hoje, com medicamentos mais modernos, que trazem menos efeitos colaterais e têm eficácia maior, é possível levar uma vida longa e com qualidade. Um problema, porém, tem preocupado a comunidade científica: a resistência contra os medicamentos está aumentando.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em países de baixa e média renda, que concentram 90% da população infectada, desde 2003 observa-se um crescimento moderado (de 5% a 15%) na resposta ao tratamento devido à resistência aos remédios anti -aids. Isso acontece por diversos motivos, começando pela característica muito peculiar do HIV, um vírus altamente mutante, capaz de enganar as drogas e o sistema imunológico. É por isso que os remédios são ministrados em forma de coquetéis com pelo menos três substâncias diferentes. A adesão ao tratamento é outro fator extremamente importante: se deixar de tomar os Antirretrovirais nos dias e nos horários certos, o paciente está abrindo caminho para novas mutações, pois a pressão que a droga exerce sobre o medicamento fica comprometida.
Em alguns casos, nem a combinação de Antirretrovirais consegue driblar o HIV. No relatório sobre resistência a Antirretrovirais lançado poucos dias antes da 12ª Conferência Internacional da Aids, que acaba na sexta-feira, a OMS alerta que, em um estudo realizado com 194 pessoas resistentes aos medicamentos, 69,5% não respondiam mais a qualquer tipo de substância 12 meses depois do início do tratamento.
A resistência é classificada em primária e secundária. No primeiro caso, o soropositivo sem exposição prévia aos Antirretrovirais apresenta resistência ao medicamento provavelmente porque foi infectado por uma cepa com essa característica. Já o tipo secundário ocorre depois que o paciente começa a tomar os remédios. Uma vez no organismo e pressionado pelos Antirretrovirais, o HIV tenta sobreviver. As cepas mutantes que não conseguem ser atingidas pelos medicamentos levam vantagem sobre as outras e, portanto, começam a se replicar em larga escala. “A má adesão ao tratamento é o principal fator da resistência secundária”, conta o infectologista da Rede D”Or Tomaz Albuquerque, que também atende em dois centros da rede de referência de Pernambuco, o Hospital Universitário Oswaldo Cruz e o Hospital Correia Picanço.
“A melhor maneira para combater a resistência aos Antirretrovirais é fazer com que os pacientes em tratamento utilizem rigorosamente os medicamentos da maneira como foram prescritos pelo médico. Quando utilizados adequadamente, dificilmente teremos o surgimento de resistência”, concorda Carlos Brites, professor associado de infectologia e coordenador do Laboratório de Virologia da Universidade Federal da Bahia, pesquisador do CNPq e editor-chefe do Brazilian Journal of Infectious Diseases (Leia entrevista). Em um comunicado à imprensa sobre o relatório, a OMS ressaltou que a baixa adesão pode ser combatida: “Nós precisamos ter certeza de que as pessoas estejam recebendo os medicamentos indicados e que elas continuem aderindo ao tratamento. Para isso, é preciso que as drogas sejam de fácil administração, que haja estoque suficiente e que os pacientes sejam seguidos de perto para identificar os casos de insucesso em um estágio precoce”, disse Joseph Perrïes, do Departamento de HIV da OMS.
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Para Thomaz Albuquerque, diversos fatores influenciam na baixa adesão ao tratamento. Ele destaca as questões socioeconômicas. “Imagine como um analfabeto vai tomar corretamente os remédios se não sabe ler as instruções”, exemplifica, citando ainda a dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Segundo o médico, embora, no Brasil, não exista falta de estoques de Antirretrovirais, os pacientes da rede pública constantemente se deparam com ambulatórios superlotados e precisam aguardar meses para agendar uma consulta.
Em outros casos, os efeitos colaterais podem assustar os pacientes. “Muitos acabam se desestimulando. Mas, se o paciente for bem orientado e bem acompanhado, é possível encontrar uma solução, como troca de medicamento ou ajustes na dosagem”, diz Albuquerque. O infectologista afirma que a atenção de uma rede multidisciplinar, formada por nutricionistas, psicólogos, médicos e farmacêuticos, por exemplo, pode ajudar na adesão. “O paciente se sente acolhido. A abordagem tem de ser mais holística”, afirma.
De acordo com o relatório da Organização Mundial de Saúde, para enfrentar a resistência, é preciso pesquisar com frequência os índices de insucesso entre soropositivos. “Monitorar a resistência ao HIV é fundamental para a gestão de um programa eficaz devido às suas importantes implicações políticas. Os dados sobre a resistência ao HIV fornecem a base para a seleção de futuros regimes de tratamento de primeira linha, a identificação das terapias de segunda linha mais eficientes para pacientes com falha no primeiro coquetel e para a seleção de abordagens mais eficientes de prevenção vertical, bem como para pré e pós-exposição ao vírus”, diz o documento.
CORREIO BRAZILIENSE – DF | SAÚDE
DST, AIDS E HEPATITES VIRAIS
25/07/2012
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