Uma equipa internacional de investigadores reporta na edição online do Journal of Acquired Immune Deficiency Symdromes, que ao adicionar um medicamento extra que atravessa a barreira hemato-encefálica, como intensificação de uma terapêutica anti-VIH bem-sucedida, não reduz os níveis residuais de replicação viral no líquido cefalo-raquidiano (LCR) ou no sangue.
Os investigadores, também, constataram que os doentes continuaram a apresentar evidência de activação imunitária e inflamação no cérebro.
“A intensificação do tratamento com um medicamento anti-retroviral potente, que penetra o SNC [sistema nervoso central], não reduz os níveis residuais do VIH no LCR ou a activação imunitária intratecal”, afirmam os investigadores.
A terapêutica anti-retroviral eficaz de combinação tem vindo a reduzir drasticamente as taxas de doença e morte nos doentes infectados pelo VIH. Devido aos avanços recentes no tratamento anti-retroviral, a carga viral indetectável é uma meta realística para a grande maioria dos doentes.
Quando, em 1996, o tratamento [altamente eficaz] se tornou disponível, havia no início a esperança que a supressão a longo prazo do VIH no sangue levaria, consequentemente, à erradicação do vírus. No entanto, percebeu-se rapidamente que os níveis do VIH no sangue estavam a ser mantidos pelas células CD4 latentes infectadas pelo vírus.
Além disso, os testes ultra-sensíveis da carga viral têm mostrado que a grande maioria dos doentes em tratamento continuava a ter níveis muito baixos de VIH no sangue.
A carga viral residual (2 a 20 cópias/ml) também tem sido observada no LCR das pessoas com carga viral indetectável no sangue. Adicionalmente, muitos doentes sob terapêutica anti-retroviral, mesmo com medicamentos capazes de atravessar a barreira hemato-encefálica, apresentam evidência de activação imunitária intratecal e inflamação.
Por causa destes resultados, os investigadores quiseram verificar se, acrescentando um medicamento anti-retroviral a regimes que já eram eficazes a suprimir a carga viral, iriam reduzir os níveis residuais do VIH no LCR, a activação imunitária e a inflamação no cérebro.
O estudo envolveu 10 doentes. Estes indivíduos tinham mantido carga viral indetectável no sangue (abaixo de 50 cópias/ml) durante um período médio de 6,5 anos. A contagem média das células CD4 foi de 465/mm3, oito eram homens e a idade média foi de 52 anos.
O estudo durou oito semanas. Foram realizadas punções lombares à entrada do estudo, no início, após quatro semanas de tratamento e, de novo, no fim. A carga viral foi medida no LCR e, também, foram monitorizadas a activação imunitária intratecal e a inflamação.
O tratamento foi intensificado adicionando maraviroc (Celsentri®) ou lopinavir/ritonavir (Kaletra®), ambos com uma boa penetração no sistema nervoso central, ou T-20 (enfuvirtida, Fuzeon®), que não atrvessa a barreira hemato-encefálica.
Durante as primeiras quatro semanas do estudo, os doentes receberam um medicamento que penetra o cérebro, depois passaram para T-20.
No início do estudo, a carga viral média no sangue foi de 5 cópias/ml e a carga viral média no fluido cerebrospinal foi de 2 cópias/ml. A activação imunitária ou a inflamação no cérebro foram evidentes na maioria dos doentes.
A intensificação da terapêutica não reduziu ulteriormente os níveis da carga viral residual no LCR, que aliás não se alteraram durante as oito semanas do estudo. Sete doentes apresentaram carga viral detectável nestes compartimentos pelo menos uma vez. A carga viral no sangue também não foi afectada, bem como os marcadores da inflamação intratecal e da activação imunitária.
As concentrações de maraviroc e Kaletra® estavam dentro dos limites terapêuticos e o maraviroc foi detectável no LCR em sete doentes.
“Mostramos que a intensificação do tratamento não tem efeito nem sobre os níveis residuais do VIH no LCR, nem sobre a activação imunitária intratecal, durante um período terapêutico de 4 semanas com um medicamento anti-retroviral que penetra no SNC”, comentam os autores. “Não conseguimos detectar qualquer mudança significativa a nível da virémia residual no plasma durante o período total de tratamento intensificado de oito semanas”.
Os investigadores não acreditam que as suas conclusões tenham implicações imediatas no tratamento da infecção pelo VIH. No entanto, são de interesse no que se refere “à persistência do VIH e reservatórios…estes resultados são um argumento contra a hipótese de que ciclos contínuos de replicação viral são a principal fonte da virémia residual no SNC e da activação imunitária intratecal”.
Referência
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