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Cabo verde: soropositivos a renascer

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Agência de Notícias da Aids

Editoria: Pág.

Dia / Mês/Ano:

 

 

16/DEZEMBRO/07

 

12/1/2008 – 15h00

Maria Moreno, 45 anos, gosta de sapatos de salto alto. As ruas do Plateau, bairro da cidade da Praia, capital do Cabo Verde, não a intimidam. Os saltos lembram que ela precisa pisar com cuidado, prever o próximo passo. Foi assim a vida toda. É assim agora, que ela é a presidente da Associação Renascer, a primeira organização de apoio a soropositivos em Cabo Verde, que ela fundou em 2004.

Moreno vem de uma longa carreira nos palcos. Conhecida como Mizé Badia, a sua voz grave encantou platéias em Portugal e nos Estados Unidos, países onde morou nos últimos 20 anos. Depois da longa temporada fora do país, Badia decidiu que era hora de voltar à sua terra natal. Trocou o glamour dos holofotes pelo trabalho social num projeto de re-inserção de jovens repatriados na Fundação Caboverdiana de Solidariedade. Entre eles, encontrou alguns soropositivos. Foi aí que tudo começou.

Renascer

Cabo Verde, um arquipélago de 10 ilhas na costa do Senegal, tem uma soroprevalência de 0,8 por cento numa população de cerca de 500 mil. Porém, mesmo sendo uma das soroprevalências mais baixas da África, Badia se deu conta de que uma rede de apoio para pessoas vivendo com o HIV era urgente.

“Muitos soropositivos, como o Zé Rocha [primeiro soropositivo a vir a público no país, falecido em Julho], iam até a Fundação em busca de ajuda, mas nós não tínhamos dinheiro”, lembra. “Foi aí que decidimos criar a Renascer.” Hoje a Associação Renascer é uma instituição registrada, que conta com uma sede e 60 associados, de todas as idades, que recebem todo tipo de auxílio.

A fachada é discreta. Uma porta estreita e um lance de escadas levam a uma sala com uma parede vermelha. É um espaço pequeno e abafado, mas um refúgio para as pessoas que vivem com HIV. “É um lar onde os soropositivos vêm para encontrar informação, exprimir o que eles estão a sentir”, diz Samira Fernandes, vice-presidente da associação e soropositiva desde 2004. “Teria sido muito mais fácil para mim se na época do meu diagnóstico já existisse uma associação desse tipo.”

O tipo de auxílio depende da avaliação do psicólogo, que identifica as principais necessidades do paciente. “Muitas vezes a pessoa foi expulsa de casa, então trabalhamos com a família. Outras vezes, a pessoa precisa de remédios para alguma doença oportunista”, diz Aldina Barros, psicóloga da Renascer. “Depende da necessidade da pessoa.”

Numa tarde ensolarada de Outubro, uma moça grávida de oito meses do seu segundo filho bate na porta da associação, referida pelo hospital onde recebe os seus anti-retrovirais. Ela é soropositiva, a sua filha mais velha também. Ela diz ter sido infectada pelo pai das crianças, mas que nem mesmo a sua família sabe da sua condição.

Badia abraça-a e a conduz para a sala. Lá, ela conta a sua história em detalhes e chora. Uma conversa com a psicóloga mostrará se ela precisa de apoio familiar ou social. “Mas para muitos soropositivos, só poder conversar com alguém já ajuda”, diz Badia. “A dor eu não posso fazer passar, mas os problemas sim”.

Um dos programas da Renascer é a distribuição de cestas de alimentos básicos mensais a 20 associados, graças a um financiamento do Comitê de Coordenação de Combate à Aids. Outro programa são as atividades geradoras de renda. Soropositivos recebem capacitações em estamparia, agricultura, e reciclagem de vidro. Parte da receita acumulada reverte para os soropositivos e o restante, para a Renascer.

Visitas em casa

Vinte associados com a saúde debilitada recebem desde Setembro uma visita semanal de um enfermeiro e uma psicóloga. Barros e o enfermeiro Damilton Rodrigues percorrem as ruas de Safendi, um bairro modesto na cidade da Praia, munidos de medidor de pressão, termômetro e balança. Não é raro o paciente chorar e não conseguir responder às perguntas da equipe.

“A comunicação é difícil, às vezes eles não conseguem falar o que estão a sentindo”, conta Rodrigues. “Mas com o tempo fica mais fácil porque aí eles já nos conhecem.” Cada paciente passou por uma avaliação das suas necessidades, inclusive psicológicas. "É preciso entender também a dinâmica do HIV dentro da família”, diz Barros.

Josefa*, 35 anos, solteira, mãe de três filhos e soropositiva, mora numa casa de três cômodos. No dia da visita, o seu humor e a sua saúde haviam melhorado. “A minha família sabe e apóia o tratamento. Os meus amigos não sabem. Se soubessem acho que ficariam com medo”, conta. “No início foi difícil, mas agora sinto-me feliz de tomar ARVs. Vale a pena.”

Boca-a-boca

As dificuldades existem, é claro. A falta de recursos torna o trabalho mais lento e limita seu alcance à capital. “Não conseguimos atender a todos como gostaríamos”, conta Fernandes. “Aí temos que procurar recursos em outros lugares.”

Badia lamenta não ter mais dinheiro para divulgar os serviços da Renascer, mas acredita que o boca-a-boca tem dado conta do recado. “O importante é que a divulgação existe”, diz. Para ela, mais do que apenas ajudar os soropositivos, a Renascer pretende motivar uma mudança de mentalidade. “Queremos promover a cultura de tolerância na sociedade caboverdiana”, diz.

À frente da Renascer, Badia encontrou a sua missão. “Entrei nesse barco, é uma coisa para a vida”, afirma, do alto dos seus saltos.

*nome fictício


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