Pelo menos 7.490 rio-pretenses têm o vírus da AIDS, mas desconhecem estar contaminados e podem transmitir a doença para parceiros fixos ou eventuais Nany Fadil Agência BOM DIA Em uma previsão otimista, pelo menos 7.490 rio-pretenses têm HIV e não sabem. Se for considerar a perspectiva menos positiva, esse número sobe para 11.235. A estimativa é do Ministério da Saúde. Para cada diagnóstico positivo do vírus, outras duas ou três pessoas estão contaminadas sem saber. De 1984 a 2010 foram diagnosticados 3.745 casos de AIDS e mais 900 de HIV (quando a pessoa tem o vírus, mas ainda não desenvolveu a doença). Gabriela, 41 anos, (o nome é fictício) descobriu ter o vírus durante a primeira gravidez. O marido não revelou ser HIV positivo. “Ele foi ao meu médico e pediu para que fosse feito um exame de HIV. Só depois que o resultado chegou é que me contou. Fiquei desespera, era como se eu tivesse recebido um atestado de óbito”, diz. A descoberta foi há 24 anos. Na época não havia medicamentos para portadores, nem para o feto que se desenvolvia no ventre de Gabriela. “Era uma doença nova. Os médicos não sabiam que a cada relação sexual eu me recontaminava. Tive mais dois filhos. O segundo morreu com um ano e meio por causa da doença.” Os outros dois filhos de Gabriela são sadios, não foram contaminados durante a gravidez. O marido morreu. Hoje, ela toma cinco diferentes medicamentos. Tem a vida praticamente normal. Trabalha e namora. “Ele sabe que sou portadora. Usamos PRESERVATIVOS durante as relações.” Mortes Rio Preto tem uma particularidade preocupante. O índice de mortes causadas pelo vírus HIV por habitante é de 11 para cada grupo de 100 mil. No estado de São Paulo, esse índice cai para 8 a cada 100 mil. “O número maior de mortes é por causa da descoberta tardia da doença. Não existe cura, mas o acompanhamento e tratamento garantem qualidade e muitos anos de vida ao portador do HIV“, diz a gerente do Centro Municipal de Prevenção e Diagnóstico das DSTS/AIDS, Aracelis de Castro Achcar. Campanha de testagem Para aumentar o diagnóstico precoce da doença, a Secretaria de Saúde de Rio Preto faz testes para diagnóstico de HIV nas 25 unidades de saúde da cidade. De janeiro a setembro de 2009, foram 10.648 exames e, no mesmo período deste ano, 14.704 – aumento de 38,09%. Os números de Rio Preto Até a última semana, foram diagnosticados 79 casos de HIV Até semana passada, foram diagnosticados, em 2010, mais 79 casos de HIV positivos em Rio Preto e outros 67 de AIDS. Maior faixa de contaminados está entre 20 e 34 anos A prevalência do HIV positivo, em Rio Preto, está entre pessoas na faixa etária dos 20 aos 34 anos. São 466 contaminações diagnosticadas. O segundo grupo com maior prevalência é 35 e 49 anos, com 279 casos. Primeiro caso da doença entre idosos é de 2004 Até 2003, não havia nenhum diagnóstico positivo entre pessoas na faixa dos 65 aos 79 anos. O primeiro foi em 2004. Hoje são 11 e mais 1 com mais de 80 anos. São quase 4 mil casos de AIDS em Rio Preto Dos 3.790 casos de AIDS registrados em Rio Preto, 1.841 pessoas estão vivas, 1.915 morreram e a situação de 34 é desconhecida. 2.574 é o número de homens que desenvolveram a AIDS e 1.216 são mulheres. AIDS prevalece entre os heterossexuais Enquanto 415 homossexuais têm AIDS, o número de heterossexuais com a doença chega a 1.515 e de bissexuais, a 214. Rio Preto fará testes por 16 dias Para incentivar a procura pelo exame e conscientizar sobre a importância do diagnóstico precoce começa no dia 16 campanha de testes gratuitos. É o terceiro ano da campanha em Rio Preto. “Queremos ampliar o diagnóstico precoce do HIV. Além das 25 unidades de saúde e do CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento) montaremos pontos em dois locais de grande circulação de pessoas e o posto itinerante vai para um bairro que nunca foi visitado”, diz a gerente do Centro Municipal de Prevenção e Diagnóstico das DSTS/AIDS. A intenção este ano é fazer 15% mais testes do que em 2009, quando foram feitos 2787 exames. No total, serão cerca de 3,2 mil testes, 500 de resultados rápidos. Medo “Estudos mostram que as pessoas demoram para fazer o exame por medo do resultados e por já ter, em algum momento, se exposto a uma condição de risco”, diz. Mas são essas pessoas, em especial, que devem fazer o teste. Com o diagnóstico precoce é iniciado o acompanhamento e, quando necessário, o tratamento para que o HIV positivo não sofra com as doenças oportunistas. “Pessoas que descobrem ter AIDS em função de alguma doença que se manifestou vivem, me média, 5 anos. Quem faz tratamento passa dos 20, 30 anos, sem problemas”, diz Fábio Takahashi, coordenador de projetos do Gada (Grupo de Amparo ao Doente de AIDS). CAMISINHA Fábio chama a atenção também para o uso de PRESERVATIVO. As mulheres estão sendo contaminadas por seus maridos. Todo mundo que já fez sexo sem proteção deve fazer o teste de HIV.” 15% dos resultados não são retirados O medo não está só na hora de fazer o exame, 15% das pessoas que fazem o teste, não voltam às unidades para pegar o resultado, que é sigiloso e entregue por psicólogos Centro faz teste rápido O CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento), de Rio Preto, faz testes rápidos de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h. O resultado fica pronto em até uma hora. Informações: (17) 3231-9939 begin_of_the_skype_highlighting (17) 3231-9939 |
Mulheres e AIDS
Pelo menos 7.490 rio-pretenses têm o vírus da AIDS, mas desconhecem estar contaminados e podem transmitir a doença para parceiros fixos ou eventuais Nany Fadil Agência BOM DIA Em uma previsão otimista, pelo menos 7.490 rio-pretenses têm HIV e não sabem. Se for considerar a perspectiva menos positiva, esse número sobe para 11.235. A estimativa é do Ministério da Saúde. Para cada diagnóstico positivo do vírus, outras duas ou três pessoas estão contaminadas sem saber. De 1984 a 2010 foram diagnosticados 3.745 casos de AIDS e mais 900 de HIV (quando a pessoa tem o vírus, mas ainda não desenvolveu a doença). Gabriela, 41 anos, (o nome é fictício) descobriu ter o vírus durante a primeira gravidez. O marido não revelou ser HIV positivo. “Ele foi ao meu médico e pediu para que fosse feito um exame de HIV. Só depois que o resultado chegou é que me contou. Fiquei desespera, era como se eu tivesse recebido um atestado de óbito”, diz. A descoberta foi há 24 anos. Na época não havia medicamentos para portadores, nem para o feto que se desenvolvia no ventre de Gabriela. “Era uma doença nova. Os médicos não sabiam que a cada relação sexual eu me recontaminava. Tive mais dois filhos. O segundo morreu com um ano e meio por causa da doença.” Os outros dois filhos de Gabriela são sadios, não foram contaminados durante a gravidez. O marido morreu. Hoje, ela toma cinco diferentes medicamentos. Tem a vida praticamente normal. Trabalha e namora. “Ele sabe que sou portadora. Usamos PRESERVATIVOS durante as relações.” Mortes Rio Preto tem uma particularidade preocupante. O índice de mortes causadas pelo vírus HIV por habitante é de 11 para cada grupo de 100 mil. No estado de São Paulo, esse índice cai para 8 a cada 100 mil. “O número maior de mortes é por causa da descoberta tardia da doença. Não existe cura, mas o acompanhamento e tratamento garantem qualidade e muitos anos de vida ao portador do HIV“, diz a gerente do Centro Municipal de Prevenção e Diagnóstico das DSTS/AIDS, Aracelis de Castro Achcar. Campanha de testagem Para aumentar o diagnóstico precoce da doença, a Secretaria de Saúde de Rio Preto faz testes para diagnóstico de HIV nas 25 unidades de saúde da cidade. De janeiro a setembro de 2009, foram 10.648 exames e, no mesmo período deste ano, 14.704 – aumento de 38,09%. Os números de Rio Preto Até a última semana, foram diagnosticados 79 casos de HIV Até semana passada, foram diagnosticados, em 2010, mais 79 casos de HIV positivos em Rio Preto e outros 67 de AIDS. Maior faixa de contaminados está entre 20 e 34 anos A prevalência do HIV positivo, em Rio Preto, está entre pessoas na faixa etária dos 20 aos 34 anos. São 466 contaminações diagnosticadas. O segundo grupo com maior prevalência é 35 e 49 anos, com 279 casos. Primeiro caso da doença entre idosos é de 2004 Até 2003, não havia nenhum diagnóstico positivo entre pessoas na faixa dos 65 aos 79 anos. O primeiro foi em 2004. Hoje são 11 e mais 1 com mais de 80 anos. São quase 4 mil casos de AIDS em Rio Preto Dos 3.790 casos de AIDS registrados em Rio Preto, 1.841 pessoas estão vivas, 1.915 morreram e a situação de 34 é desconhecida. 2.574 é o número de homens que desenvolveram a AIDS e 1.216 são mulheres. AIDS prevalece entre os heterossexuais Enquanto 415 homossexuais têm AIDS, o número de heterossexuais com a doença chega a 1.515 e de bissexuais, a 214. Rio Preto fará testes por 16 dias Para incentivar a procura pelo exame e conscientizar sobre a importância do diagnóstico precoce começa no dia 16 campanha de testes gratuitos. É o terceiro ano da campanha em Rio Preto. “Queremos ampliar o diagnóstico precoce do HIV. Além das 25 unidades de saúde e do CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento) montaremos pontos em dois locais de grande circulação de pessoas e o posto itinerante vai para um bairro que nunca foi visitado”, diz a gerente do Centro Municipal de Prevenção e Diagnóstico das DSTS/AIDS. A intenção este ano é fazer 15% mais testes do que em 2009, quando foram feitos 2787 exames. No total, serão cerca de 3,2 mil testes, 500 de resultados rápidos. Medo “Estudos mostram que as pessoas demoram para fazer o exame por medo do resultados e por já ter, em algum momento, se exposto a uma condição de risco”, diz. Mas são essas pessoas, em especial, que devem fazer o teste. Com o diagnóstico precoce é iniciado o acompanhamento e, quando necessário, o tratamento para que o HIV positivo não sofra com as doenças oportunistas. “Pessoas que descobrem ter AIDS em função de alguma doença que se manifestou vivem, me média, 5 anos. Quem faz tratamento passa dos 20, 30 anos, sem problemas”, diz Fábio Takahashi, coordenador de projetos do Gada (Grupo de Amparo ao Doente de AIDS). CAMISINHA Fábio chama a atenção também para o uso de PRESERVATIVO. As mulheres estão sendo contaminadas por seus maridos. Todo mundo que já fez sexo sem proteção deve fazer o teste de HIV.” 15% dos resultados não são retirados O medo não está só na hora de fazer o exame, 15% das pessoas que fazem o teste, não voltam às unidades para pegar o resultado, que é sigiloso e entregue por psicólogos Centro faz teste rápido O CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento), de Rio Preto, faz testes rápidos de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h. O resultado fica pronto em até uma hora. Informações: (17) 3231-9939 begin_of_the_skype_highlighting (17) 3231-9939 | |
| VISITA À ESPANHA “Peço um encontro entre a fé e o laicismo e não um confronto na Europa. A fé deve continuar se renovando para chegar a encontrar-se com o laicismo” Papa Bento XVI O papa Bento XVI aproveitou a estada na famosa cidade de Santiago de Compostela, no norte da Espanha, para pedir ontem um encontro entre a fé e o laicismo na Europa e não um enfrentamento. A visita ocorre no momento em que o país assiste a um forte choque entre a fé e a modernidade. Em declaração aos jornalistas ainda a bordo do avião, ele pediu a reevangelização na Espanha. O pontífice disse que, quando anunciou neste ano a criação de uma outra estrutura para a evangelização, pensou no Ocidente e, especialmente, na Espanha. As palavras de Bento XVI são uma crítica velada ao primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodriguez Zapatero, cujo governo propõe a modernização das instituições do país, buscando diminuir a influência do clero perante os poderes Executivo e Legislativo. “Este movimento e o enfrentamento entre a fé e a modernidade voltam a ocorrer hoje e é muito forte”, acrescentou, ao ser indagado sobre a fragilização do catolicismo espanhol. O chefe da Igreja Católica disse ter constatado esse problema em suas viagens à República Tcheca, à França e ao Reino Unido, apesar de estar “muito acentuado” na Espanha. “Peço um encontro entre a fé e o laicismo e não um confronto na Europa. A fé deve continuar se renovando para chegar a encontrar-se com o laicismo”, insistiu. Mais tarde, durante missa campal, o papa reforçou o apelo: “A Europa há de se abrir a Deus, sair ao seu encontro sem medo”, destacou. Cercado por um forte esquema de segurança, Bento XVI foi recebido no aeroporto de Santiago de Compostela pelo príncipe herdeiro, Felipe de Bourbon, pela princesa Letizia, por membros do governo espanhol e por autoridades políticas e religiosas. Enquanto o pontífice desembarcava na Espanha, Zapatero fazia uma viagem oficial ao Afeganistão. “Venho como peregrino neste ano santo compostelano e desejo unir-me assim a essa larga fileira de homens e mulheres que, ao longo dos séculos, chegaram a Compostela de todos os cantos da Península e da Europa e, inclusive, do mundo interior, para colocar-se aos pés de Santiago”, anunciou, durante o encontro. Bento XVI recordou que seu antecessor, João Paulo II, durante viagem a Santiago de Compostela em 1982, exortou o Velho Continente a dar nova pujança às raízes cristãs. “(É preciso) Uma Espanha e uma Europa não apenas preocupadas com as necessidades materiais dos homens, como também morais e sociais, espirituais e religiosas, porque só assim se trabalha eficaz, íntegra e fecundamente por seu bem”, afirmou o pontífice alemão, em espanhol e em galego. O papa recordou os principais lugares da peregrinação católica. “A Terra Santa e Jerusalém são vinculados à paixão, à morte e à ressurreição do Senhor; Roma é a cidade do martírio de Pedro e Paulo”, disse Bento XVI. Ele citou também Santiago de Compostela, “que recebe peregrinos de todo o mundo, desejosos de fortalecer seu espírito com o testemunho de fé e amor do apóstolo”. A cidade seria o local onde o corpo de Tiago, um dos 12 seguidores de Jesus Cristo, estaria enterrado. Depois do almoço, o papa celebrou uma missa por ocasião do Ano Jubilar Compostelano, ano santo comemorado desde o século 12 e no qual a Igreja concede indulgência plenária ou o jubileu – a libertação do peregrino das penas por seus pecados. Desde sexta-feira, milhares de pessoas fizeram fila para garantir um bom lugar na Praça do Obradoiro, onde fica a Catedral de Santiago de Compostela. Beijaço gay O pontífice encerra hoje o tour pela Espanha em Barcelona, onde terá um encontro privado com os reis da Espanha, Juan Carlos I e Sofia, e elevará a catedral Sagrada Família ao grau de basílica. A igreja é um monumento emblemático da cidade – uma criação do arquiteto catalão Antoni Gaudi (1852-1926). Durante essa parte da visita, Bento XVI deverá passar por momentos de constrangimento. Gays e lésbicas receberão o pontífice com um “beijaço” de dois minutos, que coincidirá com a saída dele da catedral. A manifestação foi organizada por meio de um blog e uma página no site de relacionamentos Facebook.
CORREIO BRAZILIENSE – DF | MUNDO |

| Não é que as mulheres ocupem lentamente os altos cargos da República. Lenta mesma é a política masculinista que ainda hoje cria obstáculos ao surgimento de outras tantas Dilmas, Michelles e Cristinas, garante cientista social Carolina Rossetti Lula avisou: o governo vai ter ‘a cara dela’ Ela ganhou. E em 1º de janeiro de 2011 vai protagonizar um momento histórico. Aos 62 anos, Dilma Vana Rousseff deverá tomar posse como a primeira presidente eleita do País, a bordo de 56 milhões de votos. O feito foi celebrado pela ex-presidente chilena Michelle Bachelet, hoje à frente da ONU-Mulheres, como “uma mudança cultural que acaba de começar”. Por mais seca que possa aparecer, a chanceler alemã Angela Merkel mandou congratulações “do fundo do coração”. Cristina Kirchner, em luto pela perda do marido-parceiro no poder, não se furtou a saudar a colega brasileira: “Bem-vinda ao clube das companheiras de gênero”. Hugo Chávez, mais econômico e direto, fez seu assédio político cortando a frase de Cristina ao meio. “Bem-vinda ao clube”, resumiu o venezuelano. Em seu discurso de vitória, Dilma prometeu “honrar as mulheres” e pediu que “pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas, e lhes dissessem: sim, a mulher pode!” Para a cientista política cubano-americana Sonia Alvarez, autora de Engendrando Democracia no Brasil: Movimento Feminista e Transição Política (Princeton University), não há dúvida de que “Dilma pode”. Mas não se espere que, pelo fato de ser mulher, governará de forma diferente. “Ela o fará de acordo com a sua vontade política”, calcula. Nesta entrevista, Sonia despe os estereótipos do mundo da política, inclusive os mais regressivos, como “Dilma, a mãe do PAC”, “Lula, o filho do Brasil” e “Getúlio, o pai do povo”. Há quem diga que a participação da mulher na política latino-americana tem sido lenta e retardatária. No entanto, nesta década, tivemos presidentes mulheres na Argentina, Chile, Costa Rica, e agora no Brasil. A situação está finalmente se revertendo? Primeiro, é preciso frisar que a participação das mulheres na política formal pode ser limitada. Em outros espaços, como nos movimentos sociais, nas organizações comunitárias e nos processos mais significativos de transformação política – como o combate às ditaduras, a defesa dos direitos humanos e as transições democráticas -, a presença delas tem tido muito impacto, mesmo que indireto, sobre a política institucional. Segundo, o problema não é falta de interesse, vocação ou experiência das mulheres. Ele é estrutural, histórico, e envolve a política formal que, no mundo inteiro, continua dominada por homens das classes altas e pertencentes aos grupos raciais dominantes. O que é “lenta e retardatária”, então, é a política masculinista e elitista latino-americana, bem como da maioria dos países. Não as mulheres! A solução para a sub-representação das mulheres, especialmente as pobres, negras e indígenas, tem que passar pela reestruturação da política. As cotas eleitorais, mal-sucedidas, por mal implementadas no Brasil, seriam uma medida na direção dessa reforma necessária. Dá para avaliar o peso simbólico de uma mulher presidente? O simbolismo da eleição de Dilma serve, antes de mais nada, como exemplo para as cidadãs brasileiras. Uma coisa que Dilma falou em seu discurso é bem verdade: a importância de sua eleição reside na tentativa de desnaturalizar a ausência de mulheres no poder, para que sua eleição deixe de ser uma exceção. Mas, em vez de nos preocuparmos só com as presidentes, é importante pensar nas mulheres que conseguiram se eleger vereadoras, deputadas, senadoras, ou mulheres que estejam na liderança de partidos políticos e sindicatos. É preciso construir uma Nação desde a base, onde tanto mulheres, quanto homens sejam capazes de governar. O fato de só termos 17 mulheres líderes mundiais já diz muito. A agenda não deveria ser como eleger mais mulheres presidentes, mas como mudar a política para que isso não seja mais um feito excepcional. Agora, não há razão pela qual devemos esperar de uma mulher algo em particular na política, ou seja, que sejam mais ligadas às questões sociais. Não é pelo fato da Dilma ser mulher que o Brasil vai ter políticas mais progressistas em relação às mulheres. Isso dependerá da vontade política dela e das relações que mantiver com os movimentos sociais, especialmente, o movimento de mulheres. Pela primeira vez no Brasil, a campanha presidencial contou com duas mulheres entre os principais candidatos, ou seja, além de Dilma, Marina Silva, do PV. Marina teve papel expressivo nessa campanha. Provocou um impacto cultural e simbólico interessante no sentido de tentar mudar a cultura política do Brasil, quebrando estereótipos. E se declarou mulher negra, vinda de uma trajetória de vida muito simples. Nesse sentido, ela e Dilma são bem diferentes. Michelle Bachelet foi uma indicação do ex-presidente chileno Ricardo Lagos, Cristina Kirchner foi apontada pelo marido Néstor, e Dilma Rousseff, a escolhida de Lula. A senhora concorda que, aos poucos, mulheres alcançam o topo do poder, mas ainda são alavancadas ao primeiro escalão por figuras masculinas de forte apelo popular? Existe um padrão histórico comum, em que as mulheres chegam ao poder a partir de uma relação de parentesco com o “homem político”. São esposas, filhas… Elas são “pescadas”, por assim dizer. A façanha de Weslian Roriz (esposa de Joaquim Roriz, que desistiu da reeleição ao governo do Distrito Federal) só pode ser imaginada, e muito menos permitida, politicamente, porque o senso comum ainda aceita a ideia de que a esposa seja naturalmente submissa ao seu “dono”. Agora, o caso de Dilma é totalmente diferente. É mais parecido com o de Bachelet. Ou seja, não há uma ligação por casamento, ou uma relação consanguínea, com estes homens, mas existe o apadrinhamento político. Não quero tirar o mérito nem de Dilma, nem de Bachelet, que apesar de apresentadas como “amiga do homem”, tinham uma carreira política própria, essencialmente administrativa. Mas é fato que a relação com o masculino político de grande influência facilitou-lhes a chegada ao poder. Acredito que o fato de Bachelet, apesar de ter 80% de aprovação no final de seu governo, não ter conseguido fazer o sucessor, tem a ver com o ainda forte viés machista na política eleitoral. O ponto mais importante é dizer que, se Lula conseguiu ajudar Dilma ser eleita, isso significa que, certamente, um esforço institucional partidário, igualmente intenso e convicto – como no financiamento de suas campanhas – poderia levar muitas Dilmas, Michelles e Cristinas ao poder. Recentemente viúva, Cristina Kirchner terá de provar que consegue governar sem o marido, tido como presidente ‘de fato’. Será um duro teste para ela? O fato de Néstor ter sido visto como um presidente “de fato” já revela um sério problema. Reproduz estereótipos sobre uma suposta incompetência feminina para com as coisas políticas, e ainda reforça a nossa dependência. Os Kirchner sempre pregaram que eram parceiros, na vida e na política. Mas não há dúvida de que Néstor Kirchner continuou sendo o grande articulador político por trás da presidente. Resta agora saber se Lula estabelecerá outro tipo de papel no governo de Dilma. Fala-se do feito inédito de Dilma, assim como se falou de Obama por ser o primeiro negro a presidir os EUA. Esses ‘pioneirismos’ tendem a se eclipsar ao longo do mandato? Não acho que houve eclipse algum da identidade racial de Obama. Ele nunca deixou de ser o “Presidente Negro”, muito pelo contrário. As forças conservadoras nos EUA não deixam de remarcar a sua raça e continuamente a ressignificam, para o pior e de forma nem sempre sutil, para deslegitimá-lo. Mas os movimentos que o apoiaram como alternativa ao elitismo do homem branco, que ainda domina a política estadunidense, também não esqueceram de cobrar dele suas promessas de justiça social, racial, de gênero. Nesse sentido, tenho certeza de que as mulheres brasileiras, os pobres, os negros e indígenas, os/as LGBT, e todos os historicamente excluídos também não vão se esquecer de quem Dilma é, nem de onde veio. Vão lembrar quem e o quê a presidente disse que veio representar. Pesquisas de intenção de voto mostraram que Dilma tinha maior índice de rejeição entre as mulheres. O que isso sugere? É difícil saber o que esse dado nos diz. Penso que Dilma não teve muita rejeição por ser mulher. A resistência a ela deve ter espelhado uma rejeição ao partido. Mas é claro que o sexismo e a homofobia são nossos principais inimigos, e se expressam também nas urnas. Por isso muitas mulheres não acreditam que mulheres sejam capazes de governar. Mas o Brasil mostrou nessas eleições ter superado esse obstáculo. Mulheres no poder são associadas à imagens de ‘mãe da Nação’ ou ‘dama de ferro’. Dilma, por exemplo, foi apresentada como ‘mãe do PAC’. É comum que mulheres sejam representadas como a “grande mãe”. É interessante que Dilma seja a “mãe do PAC”, e Lula, “o filho do Brasil”, enquanto Getúlio Vargas, era o “pai do povo”. São estereótipos da política. Há uma tendência de ver o papel político das mulheres como extensão de suas funções no lar. E que elas levariam para a política características femininas que exercem em casa, como o carinho pelos filhos, a administração de despesas, etc. Assume-se que elas seriam mais gentis na política, mais honestas, cuidadosas e preocupadas com o bem-estar social. Mas acho que se explorou a “imagem maternal” de Dilma como forma de contestar sua fama de durona. Para enfrentar o sexismo intrínseco na política, muitas precisam mesmo fazer cara de duronas, mas pode ser mera performance. E, convenhamos, força não é monopólio masculino. Ao contrário, força e garra é o que todas as mulheres, especialmente negras, pobres, marginalizadas, precisam ter todos os dias para enfrentar a vida. Dilma, além de mãe, é duas vezes divorciada. Ou seja, contesta o modelo tradicional da família cristã. Pode ser um complicador para ela? A moral cristã, conservadora, patriarcal, esteve muito presente nessa eleição, de forma preocupante para o futuro da democracia. O Estado laico é fundamental para o exercício da cidadania democrática. E o avanço da agenda moral de valores cristãos na política, por parte de evangélicos, mas também por parte de católicos – vide o Papa Bento XVI e suas instruções aos bispos brasileiros sobre como orientar o voto dos fiéis – parece até reprise das “Marchas da Família com Deus pela Liberdade” que a direita organizou contra o presidente João Goulart em 1964, e que serviram de modelo para a manipulação dos papéis de gênero por todos os governos militares da região, nos anos 70 e 80. Nessa campanha, o debate sobre aborto foi preponderante no segundo turno e o confronto moral tornou-se central. A maneira como usaram argumentos religiosos para tentar deslegitimar Dilma não foi bom sinal para o futuro da política brasileira. Ficou evidente que os partidos precisam trabalhar seriamente essas questões ditas “morais”, e se engajarem num trabalho político sobre esses assuntos, evitando as manipulações. Aproveitando a nossa conversa, que rumos tomará o feminismo neste século 21? Não existe uma consciência única ou mesmo uma palavra-chave que aponte a demanda mais significativa dos movimentos feministas hoje. O que existe são mulheres lutando por seus direitos – muitas nem se dizem feministas – nos mais diversos espaços da sociedade. Ainda encontramos as plataformas históricas, mas a luta das mulheres não se restringe ao lobby do aborto ou do combate à violência doméstica. E isso muitas vezes não se entende. Sempre nos preocupamos com uma visão de mundo ampla, que diz respeito aos homens também. Um mundo mais humano, mais igualitário, menos racista, com mais justiça social e mais respeito aos direitos humanos.
O ESTADO DE S. PAULO – SP | ALIAS |
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