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O Dia – RJ | Editoria: | Pág. | Dia / Mês/Ano: |
Ciência & Saúde |
| 16/MARÇO/08 |
Porta fechada para doentes
Falta de investimentos e profissionais fez com que, ao longo dos anos, serviços da rede pública de saúde fossem suspensos e unidades deixassem de funcionar. Quem sofre é a população
Pâmela Oliveira
Rio – Com diabete, Carlos acorda de madrugada em busca de um médico para tratar seu pé. Alex tem fortes dores no ouvido. Os dois pacientes vivem dramas semelhantes: a peregrinação em busca de socorro médico. Nos últimos anos, o fechamento de unidades como o Hospital do Iaserj, no Centro, e a Emergência do Hospital Universitário Antônio Pedro, em Niterói, têm deixado a vida dos que necessitam de saúde pública mais difícil. A suspensão de serviços como o de neurologia e de transplantes reforçam o drama.
"Fomos a três hospitais e em nenhum havia médico para me atender. O que fazem com a gente é um absurdo", lamentou o estudante Alex Figueiredo, 25 anos. Com parte do pé amputado há alguns meses, Carlos Alberto de Faria, 48, reclama do fechamento do Pólo de Pé Diabético no Hospital do Andaraí. "Eu sempre fui muito bem tratado aqui, mas agora tenho que esperar atendimento com todo mundo porque fecharam o pólo. Estou aqui há horas porque preciso fazer a revisão", contou Carlos na semana passada, ainda com curativo no pé.
Presidente do Sindicato dos Médicos, Jorge Darze acompanhou de perto o fechamento de diversas unidades, como o Instituto de Infectologia São Sebastião, no Caju. Em péssimas condições estruturais, o instituto, que já foi referência para doenças contagiosas como meningite, HIV e tuberculose, não tem condições de oferecer tratamento médico.
"Essa unidade foi sucateada. Atualmente há cinco pacientes internados. Num país como o nosso, em que doenças como tuberculose, febre amarela e HIV ameaçam a vida, esse instituto é vital", afirma, lembrando a dificuldade dos médicos quando precisam transferir um paciente com doenças infecto-contagiosas de uma emergência.
O médico lamenta o fechamento do Hospital Central do Iaserj. "O dinheiro que o servidor contribuiu uma vida interia e que deveria ter sido investido na unidade, foi desviado para outros setores. Isso é um escândalo. E ninguém, além do servidor que ficou sem atendimento, é punido. Apenas ambulatório de ginecologia funciona", critica. "O governo, em vez de resolver os problemas, se acomodou com o fechamento", diz.
Presidente do Conselho Distrital de Saúde, Adelson Alípio critica o fechamento do setor de neurologia do Rocha Faria, em Campo Grande. "Um acidentado na Zona Oeste não tem o serviço na região.
E é preciso lembrar que, em casos graves, tempo é vida", diz.
Presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio, a médica Márcia Rosa de Araújo lembra que o número limitado de médicos é um dos problemas. "É preciso fazer concurso público e pagar decentemente. Senão, a rede que sofre com falta de equipamentos perde a cada dia mais profissionais", alerta. "É impossível para o médico, muitas vezes sozinho, dar conta de uma emergência. Com os casos de dengue, fica ainda mais grave".
NA FILA DE TRANSPLANTE
O Rio tem quase 8 mil pacientes na fila de transplantados, de acordo com o Ministério da Saúde. Há 3.541 aguardando só por doação de rins. O Hospital dos Servidores do Estado, que já realizou transplantes de rins e córneas, parou de fazer os procedimentos há anos. "Começou a faltar tudo e fomos obrigados a parar as operações", diz um médico, que pediu para não ser identificado. Há quatro anos na fila por um transplante de rins, o aposentado Ivan Anselmo Campos, 53 anos, sofre com as três sessões semanais de hemodiálise enquanto não consegue ser operado.
"É tudo muito precário, falta eficiência nos atendimentos, e não há material e equipamentos. Os exames de quem aguarda por um transplante têm que estar sempre em dia, mas só para ser atendido em uma consulta demora-se quase um mês. Depois, vem a espera pelo resultado. E se nesse meio tempo surge um doador, perde-se a vez porque não temos os exames atualizados. Até hoje não fui chamado para checar a possibilidade de operar", diz.
Presidente da Associação de Renais Crônicos e Transplantados, Gilson Nascimento lembra que muitas vezes o problema não termina com o transplante devido à dificuldade de se conseguir a medicação contra rejeição.
Outras cerca de 3.200 pessoas aguardam por um transplante de córnea. O único banco de olhos do estado, no entanto, está fechado por falta de documentação.
Burocracia e falta de verbas entre as justificativas
Segundo a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde, o Hospital do Servidores realiza, quando surge uma demanda interna, transplantes renais inter-vivos. E aguarda a autorização do Rio-Transplante para fazer cirurgias de córneas.
Já o Hospital de Ipanema informa que seis salas do centro cirúrgico estão funcionando, enquanto outras são preparadas para obras. Paralelamente, a unidade colocou em funcionamento duas salas cirúrgicas para procedimentos ambulatoriais. Em relação ao Hospital do Andaraí, a informação do ministério é de que o antigo Centro de Hemorragia Digestiva perdeu a sua razão de existir, em decorrência da evolução dos tratamentos de úlceras gástricas. E o Pólo de Pé Diabético, criado quando a unidade ainda era municipalizada também perdeu a razão de existir, uma vez que tratava-se de pólo preventivo com perfil ambulatorial na rede municipalis.
O Hospital do Fundão tem problemas de desabastecimento devido à falta de verbas. Mas pretende voltar a realizar transplantes.
Já o Pedro Ernesto alega que a Clínica da Dor está funcionando em outra sala, mas não garante o atendimento de primeira vez. O setor neonatal funciona com parte da capacidade.
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