Conteúdos gerais do Soropositivo.Org sobre saúde, prevenção, tratamento, cidadania, qualidade de vida e utilidade pública.
, Untitled Document
Washington Novaes
Há poucas semanas, a conceituada ONG britânica Oxfam divulgou estudo – Os Bilhões Perdidos na África – em que diz haverem custado 284 bilhões de dólares, entre 1990 e 2005, as 23 guerras em que se envolveram países africanos. Ou seja, o mesmo valor de toda a ajuda internacional canalizada nesse período para o continente, cuja economia encolheu 15% nos 15 anos, ao mesmo tempo em que crescia a desigualdade social (relatório do FMI). Uma das razões centrais para tantos conflitos – diz o estudo – é o comércio global de armas (o setor econômico com maior faturamento no mundo, segundo relatórios da ONU) e, principalmente, o comércio ilegal, que responde por 95% dos fuzis Kalashnikov introduzidos nesses países.
Todas essas informações tornam ainda mais relevante o livro As Áfricas que Descobri, que acaba de publicar o professor Ruy Rodrigues da Silva, ex-secretário de Educação de Goiás no governo Mauro Borges, ex-reitor da Universidade do Tocantins. Cassado pelo governo militar e exilado na Europa, o autor passou ali a trabalhar com a Cimade, uma organização de ajuda a refugiados e migrantes do Terceiro Mundo, primeiro em uma república de refugiados na França, depois concebendo e executando projetos nos próprios países africanos. É uma obra que ajuda a dissipar numerosos conceitos errôneos e preconceitos que permeiam a visão do continente.Os africanos, ao contrário do que mostra a visão equivocada quase geral, são tão diferentes entre eles "como um carajá de um xerente", diz o prof. Ruy. São "um cosmo múltiplo", centenas de etnias diferentes, que levam a pensar que "a não ser pela denominação geográfica, a África não existe". Trata-se de um imenso território de 30,2 milhões de quilômetros quadrados, onde, só na porção subsaariana, estão 48 países (35 deles com menos de 10 milhões de habitantes), quase todos (34) incluídos entre os 49 mais pobres do mundo. Em todo o Subsaara são 600 milhões de pessoas.
"É difícil imaginar a miséria quando nós mesmos temos praticamente tudo: água abundante e fria, comida farta e variada, aquecimento, roupas bonitas e sombra", observa a orelha do livro. Mas essa miséria continua lá e é, em grande parte, fruto do colonialismo que ali imperou durante séculos: "A África perseguida e indefesa foi despovoada, destruída e arruinada, além de barbaramente atingida pelo tráfico de escravos, a partir de meados do século XV até a segunda metade do século XIX". Cerca de 30 milhões de pessoas foram escravizadas e vendidas para outros continentes.
Uma das conseqüências da colonização foi o deslocamento de populações para outras áreas, gerando disputas territoriais em busca de recursos e serviços naturais. É um processo que ainda perdura em algumas regiões: basta ver a chamada guerra civil do Congo, na qual populações desse país, de Ruanda e Burundi, se massacraram mutuamente, em disputa de territórios mais férteis. Pelo menos 3,5 milhões de pessoas morreram e mereceram apenas meia dúzia de linhas nos jornais. Mas ali e em outras partes prevalecem os interesses de empresas que exploram diamantes, cobre, petróleo e outros recursos.
Raro é que não esteja envolvido nesses conflitos "o homem branco europeu, algo estranho, um intruso pálido, fraco, com a camisa empapada de suor, permanentemente sedento e desamparado". Ele "teme tudo: mosquitos, aranhas, escorpiões, cobra. Tudo que se mexe o deixa em pânico", observa o livro. E provavelmente por isso mesmo, para afugentar o medo, atira logo.
Nesse contexto de medo e exploração, assinala o texto, esse homem sequer enxerga a riqueza e a beleza cultural que estão à sua volta, vários mundos, na verdade – o real, que o cerca; o mundo dos antepassados, que interage com os viventes; o mundo dos espíritos, que tudo rege. E no topo, acima deles todos, Deus, comandando a vida de todas as pessoas. Ali, "o tempo é elástico", tudo "é distante, desértico", o ser humano está "sempre em movimento", pois "todos são migrantes".
O Brasil do século 18 tinha duas vezes mais escravos que seres de pele branca. Mas que sabemos nós dessa riqueza étnica e cultural de que descendemos? Que sabemos da África de hoje, tão ameaçada pelas mudanças climáticas (será a região do Planeta mais atingida por aumentos da temperatura, secas, desertificação, pragas em lavouras), pelo aumento da Aids, entre outros muitos problemas?
&nb
sp
;
O continente africano terá futuro? – pergunta Ruy Rodrigues da Silva. Ele lembra que ainda não foram superadas as conseqüências da escravidão e do tráfico de escravos, que empobreceram até demograficamente muitas regiões; "as chagas indeléveis do período do colonialismo, aparentemente insuperáveis; as conseqüências da divisão, imposta pelos países colonizadores, do território em Estados cujos limites geográficos não correspondiam à ocupação étnica e cultural".
Tudo isso gera problemas gigantescos, conflitos, guerras (Somália, Sudão, entre outras), migrações de milhões de pessoas. Há países, hoje, em que metade da renda provém das remessas de dinheiro por imigrantes. A saída, a seu ver estaria numa democratização efetiva e na integração regional.
Deveríamos preocupar-nos mais com o tema. Abrir para ele os currículos escolares em todos os níveis. Quando não seja por solidariedade, porque parte de nossas raízes étnicas e culturais está no continente africano. E porque poderíamos aprender muito com sua gente.
Já foi narrado aqui, mas vale a pena recontar um episódio de 2002, quando o autor destas linhas estava em Johannesburgo, na África do Sul, na Cúpula do Desenvolvimento Mundial. Johannesburgo é uma cidade onde o apartheid, a separação racial, terminou de direito, mas não de fato: a capital divide-se claramente numa cidade de brancos, menor, rica, e uma imensa cidade dos pobres, principalmente Soweto, onde vivem mais de 4 milhões de pessoas. Ônibus só circulam da parte pobre para a rica de manhã bem cedo e no fim do dia, para levar e trazer de volta quem trabalhe na cidade branca.
Mas impressiona qualquer um ver que, logo que se juntam quatro ou cinco pessoas negras, elas começam a cantar e dançar, exibindo largos sorrisos de dentes muito brancos. De onde proviria tanta alegria num povo que sofreu e sofre tanto, vê o apartheid ainda ali? Confrontado com a pergunta, um jovem negro, motorista de táxi, respondeu: "Pois é. Em relação ao apartheid, nós aprendemos que perdoar, sim, mas esquecer, nunca. E aprendemos que, apesar do sofrimento, a nossa alegria tem de estar dentro de nós, não depender de nada fora de nós. Ela tem de ser só nossa. Para ser vivida o tempo todo, em qualquer lugar."
Não houvesse outras razões para conhecer melhor a África, essa lição serve para qualquer um.
Washington Novaes é jornalista
Você precisa fazer login para comentar.