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Discurso do ex – presidente Nelson Mandela

Discurso do ex – presidente Nelson Mandela no encerramento da XIII Conferencia Internacional de AIDS.

Nelson MandelaNão tenho a intenção de menosprezar as muitas ocasiões em que tive o privilégio de falar, quando digo que este é um evento em que cada palavra pronunciada, cada gesto, deve ser medido na relação ao efeito que podem ter e terão sobre as vidas de milhões de seres humanos que vivem neste continente e neste planeta. Esta não é uma conferencia acadêmica. Trata – se, no meu entendimento, de uma reunião de seres humanos preocupados em reverter uma das ameaças mais graves que a humanidade vem enfrentando, e certamente a mais séria depois do fim das grandes guerras do século passado.

Não tenho o costume de usar a palavra de forma leviana. Se 27 anos na prisão tiveram algum efeito, foi o de usar a solidão para entender o quão preciosas são as palavras e quão real é a fala em seu impacto sobre a maneira como as pessoas vivem e morrem.

Se a título de introdução destaco a importância da forma como falamos, é também porque uma grande atenção desnecessária em torno desta conferencia foi direcionada para uma controvérsia que involuntariamente desvia a atenção de questões reais de vida e de morte que enfrentamos como região, país, continente e mundo.

Não conheço o suficiente sobre ciência e suas tecnologias ou sobre a política da ciência e a prática cientifica para sequer tentar contribuir para o debate que vem se desenvolvendo na periferia desta conferencia.

Entretanto, tenho idade suficiente para ter vivenciado conflitos e disputas durante a minha vida e para saber que em todas as disputas chega – se a um ponto em que nenhuma das partes, não importa o quão certo estivessem no inicio da mesma, estará totalmente certa ou errada. Este ponto, creio eu, foi atingido neste debate.

O presidente deste país é um homem de grande intelecto que trata com muita seriedade o pensamento cientifico e conduz um governo dedicado aos princípios da ciência e da razão.

A comunidade cientifica deste pais, tenho certeza, preza o principio da liberdade da investigação cientifica, livre de indevida interferência política e direcionamento da ciência.
Agora, entretanto, as pessoas comuns do continente e do mundo – e particularmente os pobres que no nosso continente novamente suportarão o peso desproporcional deste flagelo – desejariam, se alguém se preocupasse em pedir a sua opinião, que a disputa sobre a primazia da política ou da ciência fosse adiada e se prosseguisse tratando as necessidades e preocupações dos que estão sofrendo e morrendo. E isto só pode se feito em conjunto.

Venho de uma longa tradição de liderança coletiva, processo decisório consultivo e ação conjunta com respeito ao bem comum. Tivemos que superar muito do que se considerava intransponível na adesão àquelas praticas. Diante da grave ameaça representada pelo HIV/AIDS, temos que superar nossas diferenças e combinar nossos esforços para salvar nosso povo. A história vai julgar-nos severamente, se falharmos, e terá razão.

Sem ambiguidade: uma tragédia de proporções inauditas esta assolando a África. A AIDS hoje, na África, esta reivindicando mais vidas que a soma de todas as guerras, escassez alimentar e inundações, além da destruição causada por doenças fatais como a malária.. Está devastando famílias e comunidades, sufocando e exaurindo os serviços de saúde e roubando as escola tanto de alunos como professores.

Os negócios sofreram, ou ainda vão sofrer, perdas de pessoal, produtividade e lucros; o crescimento econômico esta sendo solapado e recursos escassos do desenvolvimento precisam ser desviados para enfrentar as conseqüências desta pandemia.

O HIV/AIDS está tendo um impacto devastador sobre famílias e comunidades, sociedades e economias. Décadas foram podadas a expectativa de vida e espera se que a mortalidade infantil dobre nos países mais afetados da África. A AIDS É CLARAMENTE UM DESASTRE, EFETIVAMENTE ELIMINANDO GANHOS DO DESENVOLVIMENTO E SABOTANDO O FUTURO.

Nelson Mandela- Biografia Resumida - 3 - 02JUL13

No início desta semana ficamos chocados ao saber que na África do Sul um em cada dois, vale dizer, a metade de nossos jovens morrerão de AIDS. A coisa mais assustadora é que todas estas infecções e o conseqüente sofrimento humano podem ser evitadas.

Alguma coisa precisa ser feita com a maior urgência. Depois de quase duas décadas enfrentando a epidemia, agora temos alguma experiência sobre o que produz algum efeito.

A experiência de alguns países nos ensinou que a infecção por HIV pode ser prevenida investindo – se em informação e desenvolvimento da experiência prática entre os jovens. Promover a abstinência, o sexo seguro, o uso de preservativos e garantir o tratamento precoce de doenças sexualmente transmissíveis são alguns dos passos necessários e sobre os quais não pode haver controvérsia. Garantir as pessoas, especialmente os jovens, tenham acesso a serviços de aconselhamento, a testes voluntários e confidencias para HIV e introduzir medidas que reduzam a transmissão de mãe para filho provaram ser iniciativas essenciais na luta contra a AIDS. Reconhecemos a importância de confrontar o estigma e a discriminação e proporcionar ambientes com segurança e apoio para as pessoas afetadas pelo HIV/AIDS.

A experiência de Uganda, Senegal e Tailândia demonstrou que investimentos sérios e mobilização em torno dessas ações fazem uma diferença real. O estigma e a discriminação podem ser evitados; novas infecções podem ser prevenidas. E a capacidade de famílias e comunidades para cuidar de pessoas vivendo com HIV e AIDS pode ser aumentada.

Não quero dizer, devo acrescentar, que o governo da África do Sul não tem se movido significativamente em muitas destas áreas. Foi o primeiro presidente delegado em meu governo que supervisionou e dirigiu as iniciativas a este respeito e, como presidente, continua a colocar esta questão no primeiro lugar da agenda nacional e continental. Ele seria o primeiro a reconhecer que muito ainda há para ser feito. Não duvido por um momento sequer que ele irá prosseguir atacando esta tarefa com a resolução e dedicação pelas quais é conhecido.

O desafio é passar da retórica a ação em uma escala e intensidade sem precedentes. Existe a necessidade de nos concentrarmos no que sabemos que funciona.

Precisamos quebrar o silencio, banir o estigma e a discriminação e assegurar a inclusão total das pessoas na luta contra a AIDS. Aqueles que estão infectados come esta terrível doença não querem estigma, querem amor.

Precisamos de iniciativas ousadas para prevenir novas infecções entre os jovens e ações em ampla escala para prevenir a transmissão de mãe para filho e, também, de continuar o esforço internacional de buscar vacinas apropriadas. Devemos tratara agressivamente as infecções oportunistas, assim como trabalhar com famílias e comunidades para cuidar de crianças e jovens para protege – los da violência e de abusos, assegurando que cresçam num ambiente seguro e com apoio.

Para isso há a necessidade de nos concentrarmos, ser estratégicos e mobilizarmos todos os nossos recursos e alianças para sustentar o esforço até que esta guerra seja vencida. Há cerca de dois anos recebi uma das estrelas que abriu esta conferencia, Nkosi Jonhson, e conversando com ele, perguntei:´o que você quer ser quando envelhecer?´ e ele respondeu: ‘Bem, não sei’. Então lhe disse ‘você tem bastante tempo para meditar sobre esta pergunta’, e completei ‘você não quer ser presidente?’ e ele afirmou “parece ser um trabalho pesado’. Mas o ponto é que todos nós temos o dever de apoiar e amar todos aqueles que, em muitas ocasiões, tornaram se portadores de HIV, em especial as crianças.

Convidei para ir a minha casa um rapaz que tem 16 anos e ele me fez uma pergunta que eu temia porque, durante a conversa com outras crianças, algumas delas com câncer, outras com HIV, outras com tuberculose, ele me disse:’ O que você acha de homens como eu?’ Era muito difícil responder esta pergunta porque ele sofre de um tipo de câncer que afeta a ossatura e tornou seus ossos tão frágeis que cada vez que alguém o toca com mais força alguma coisa se quebra em seu corpo. Ele me fez esta pergunta: ‘o que você acha de pessoas como eu?’ A dificuldade é que eu não queria dar a ele falsas esperanças, ms ao mesmo tempo não poderia me furtar a responder a pergunta, então disse a ele ‘ o importante pé que você esta vivo, você tem a segurança de ter seus pais que o amam, você é u jovem inteligente. Não pense que você vai deixar sua família, seus entes queridos, seu país, seu povo, sob uma nuvem de vergonha. Você deve estar determinado a desaparecer sob uma nuvem de glória’ e citei um verso que costumo repetir com freqüência, especialmente quando me vejo na situação de ter que dizer adeus a alguém. ‘Os covardes morrem muitas vezes antes de sua more e os bravos só provam a morte uma vez. De todas as maravilhas que já vi parece muito estranho que os homens temam a morte, um ato necessário será a morte quando a morte vier’. Isso é Shakespeare e todos os que ouvem estas palavras desaparecem sob uma nuvem e glória tornam – se dignos candidatos à imortalidade. Queremos partir da retórica para a ação prática e, já como disse esta manhã, queremos homens e mulheres que posam penetrar o exterior e apreciar a beleza de cada ser humano.

Precisamos, e isto esta cada vez mais evidente, da resolução africana para combater esta guerra., Os outros não nos salvarão se não nos empenharmos primeiro. Não subestimemos os recursos necessários para conduzir esta batalha. É vital a parceria com a comunidade internacional. Um tema constante em todas as nossas mensagens tem sido o de que neste mundo interdependente e globalizado precisamos ser de fato responsáveis por nosso irmãos e irmãs. O caso não pode ser mais óbvio do que na luta comum contra o HIV/AIDS.

A título de pequena contribuição para o grande esforço conjunto que se faz necessário, instrui minha Fundação a explorar em consulta com os demais a melhor maneira de nos envolvermos nesta batalha que vem assolando nosso continente e o mundo. Não é, acredito, algo que possa ser realizado por um indivíduo isolado. Não importa o quão importante e influente, em cada país é necessário um pacote entre governos, porque nenhum governo em nenhum lugar do mundo possui os recursos suficientes para ser capaz de lutar e vencer esta batalha. Desta forma, é preciso haver uma parceria entre empresas e a comunidade sem a qual a batalha não será vencida e também usar a prática, a experiência, a pesquisa que vem sendo realizada em todo o mundo para esclarecer nosso povo sobre como abordar esta tragédia.

Com estas palavras, agradeço sinceramente a todos por seu envolvimento nesta luta. Vamos combinar nossos esforços para assegurar um futuro para nossas crianças. O desafio não é menor.

Em inúmeras ocasiões perguntaram me quais chefes de estado mais me impressionaram. Tenho que ter cuidado porque a resposta pode criar um caos diplomático muitos países não citados podem retirar seus embaixadores da África do Sul, mas freqüentemente digo que meus heróis não são necessariamente os homens e mulheres que possuem títulos, mas os homens e mulheres humildes que existem em todas as comunidades e que escolheram o mundo como palco de suas operações, que julgam os maiores desafios são os problemas sócio – econômicos que desafiam o mundo, como a pobreza, o analfabetismo, a doença, a falta de moradia, a impossibilidade de mandar seus filhos para a escola. Estes são meus heróis.
Qualquer chefe de estado que se qualificar será meu herói.

Muito Obrigado
Nelson Mandela

Tradução Anamaria Monteiro

Extraído do boletim numero 45 da ABIA (associação Interdisciplinar de AIDS) dos meses de julho a setembro de 2000

 

Nota do Editor de Soropositivo.Org:

Este discurso é da época em que comecei com este site.

Quando o li pela primeira vez, senti-me emocionado, de alguma forma, agraciado.

Nos dias mais difíceis desta minha jornada, eu venho até aqui e leio este texto…

E sempre choro no parágrafo em verde… Como choro agora…

Pudera eu e iria ter com ele, para lhe beijar as mãos, e agradecer o impulso que ele me deu com uma simples (…) frase, que sempre me renova, quando a noite se faz mais escura…

Não verei Nelson Mandela nesta vida.

Entretanto… entretanto talvez eu possa ousar dizer de mim mesmo, que “fiz do mundo meu palco de operações” e lutei como um cão danado no afã de ser este presumido herói de Mandela…

Eu não sei… Tudo o que sei, é que nada sei…

Mas, algum dia, quando eu morrer, e EU VOU MORRER, não terei medo de cruzar os portões…

Sigo à frente, perseverando no bem, com a certeza que viverei para sempre…

Cau…

Uma Breve Biografia de Nelson Mandela (este link abre nesta janela do navegador. É justo que eu ceda espaço a este nome.

“Nelson Mandela: Tantu nominum nulum par elogium”

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