Por Laura Dorwart | Atualizado em 16 de O que é delirium? Sintomas, causas e o que a ciência mais recente diz
Por Laura Dorwart | Atualizado em 16 de fevereiro de 2026 | Revisão médica: Dr. Steven Gans, MD
Tradução, ampliação e adaptação: soropositivo.org | Fontes acadêmicas adicionais: StatPearls/NCBI (2024), Frontiers in Aging Neuroscience (2024), Trivedi et al./Discover Medicine (2024)
Delirium é uma alteração súbita no pensamento que deixa a pessoa confusa e desorientada.
É extremamente comum em pacientes internados em UTI — especialmente nos que usam ventilação mecânica — e, em geral, é temporário.
Os fatores de risco incluem idade avançada, internação, infecções, pneumonia e certos medicamentos.
Delirium é uma mudança repentina na forma como a pessoa pensa — ela passa a se sentir confusa, desorientada, como se estivesse dentro de um sonho em que as coisas não fazem sentido. Pode ser difícil se concentrar, lembrar de coisas ou reconhecer pessoas ao redor.
É uma condição comum em adultos hospitalizados ou gravemente enfermos, mas também pode surgir como consequência de infecções, cirurgias, medicamentos ou abstinência de substâncias. O delirium é uma síndrome — não uma doença em si — o que significa que costuma ser temporário e melhora quando a causa subjacente é tratada.
Na medicina, o delirium também é chamado de “estado confusional agudo”, “encefalopatia tóxica ou metabólica” ou “falência cerebral aguda”. O termo “psicose de UTI”, que você pode encontrar em textos mais antigos, é considerado hoje ultrapassado e impreciso.
O que a pessoa sente durante o delirium?
Quem passa por delirium experimenta uma confusão repentina e dificuldade para pensar com clareza. A pessoa pode ter problemas de atenção, sentir-se desorientada, e até ver ou ouvir coisas que não existem — as chamadas alucinações.
Os sintomas mais comuns incluem:
- Confusão súbita que aparece em horas ou dias
- Dificuldade para se concentrar, ouvir ou entender informações
- Indiferença ao que está acontecendo ao redor, como se estivesse “desligada” do ambiente
- Dificuldade para pensar com clareza ou lembrar de coisas
- Sonolência intensa ou falta de energia
- Não saber onde está ou que horas são (desorientação)
- Sensibilidade exagerada a luzes brilhantes ou sons altos
- Sensações distorcidas — sons ou imagens parecem estranhos
- Alucinações, como sentir insetos na pele ou achar que objetos estão se movendo
- Crenças fixas em coisas que não são verdade (delírios), como achar que médicos ou familiares querem fazer mal
- Mudanças repentinas de humor: euforia, ansiedade intensa ou agitação
Os sintomas costumam aparecer de repente e podem ir e vir ao longo do dia. Na maioria das vezes, o delirium acontece enquanto a pessoa está internada por outro problema de saúde — e com frequência são os profissionais de saúde ou os familiares que percebem as mudanças primeiro.
Qual é a frequência do delirium? Os números surpreendem
O delirium é muito mais comum do que a maioria das pessoas imagina. Estima-se que ocorra em 20% a 70% dos pacientes hospitalizados em geral. Em Unidades de Terapia Intensiva (UTI), esse número sobe para até 74% dos pacientes — e chega a 80% a 83% naqueles que estão no ventilador mecânico, segundo revisão publicada no StatPearls (Ali & Cascella, 2024) e dados compilados por Inouye et al.
Em outras palavras: se você foi para a UTI e precisou de ventilação mecânica, a probabilidade de ter tido algum grau de delirium é de quatro em cinco. Não é uma complicação rara — é quase uma certeza estatística.
Até dois terços dos casos de delirium em ambiente hospitalar são subdiagnosticados ou confundidos com demência, depressão ou fadiga. Isso significa que a maioria das pessoas que passa por isso não recebe o diagnóstico correto — e muitas nunca ficam sabendo o que viveram.
O que causa o delirium?
Ainda não se conhece com exatidão a causa do delirium, mas ele tende a aparecer quando a pessoa já está doente ou se recuperando de uma doença grave ou cirurgia.
A teoria mais aceita atualmente envolve alterações na química cerebral — em especial uma queda na acetilcolina, substância que ajuda na memória e na atenção. Pesquisas mais recentes apontam também para o papel da neuroinflamação: em pacientes criticamente enfermos, o sistema imunológico libera substâncias inflamatórias (citocinas como IL-6, IL-8 e TNF-α) que afetam diretamente o funcionamento do cérebro, segundo estudo publicado no Frontiers in Aging Neuroscience (2024).
As principais causas e fatores de risco incluem:
- Internação em UTI — especialmente com uso de ventilação mecânica
- Pneumonia grave e outras infecções do trato respiratório
- Sepse (infecção generalizada com comprometimento de órgãos)
- Idade avançada, em particular acima de 80 anos
- Desidratação e desnutrição
- Demência ou Doença de Parkinson preexistente
- Falência de órgãos (rim, fígado)
- Uso de múltiplos medicamentos, especialmente os com efeitos sobre o sistema nervoso
- Cirurgias de grande porte com anestesia geral
- Fraturas graves, como fratura de quadril
- Intoxicação ou abstinência de álcool e drogas
- Privação de oxigênio por doença pulmonar ou uso de opioides
- Hipoglicemia ou outros distúrbios metabólicos
- Dificuldade visual ou auditiva não corrigida (sem óculos ou aparelho auditivo durante a internação)
Tipos de delirium — e por que o mais comum é o mais perigoso
Existem três tipos principais, classificados pelo comportamento do paciente:
Delirium hipoativo: É o tipo mais frequente em UTI — e o mais perigoso justamente por ser o mais difícil de identificar. A pessoa parece muito sonolenta, se move e fala devagar, e não responde bem ao que acontece ao redor. Como se assemelha ao cansaço normal da recuperação, muitas vezes passa despercebido pela equipe médica e pelos familiares. Estudos mostram que o delirium hipoativo está associado a maior mortalidade em seis meses quando comparado aos outros tipos.
Delirium hiperativo: Mais fácil de notar. A pessoa fica agitada, inquieta ou agressiva. Pode andar de um lado para outro, ter mudanças bruscas de humor ou recusar cuidados por acreditar em algo que não é verdade. Alucinações também são comuns nesse tipo — e podem incluir visões, vozes ou sensações físicas que parecem completamente reais para quem está vivendo. Corresponde a apenas cerca de 23% dos casos de delirium em UTI.
Delirium misto: Combina características dos dois tipos anteriores e é o mais frequente de todos, correspondendo a cerca de metade dos casos em UTI. A pessoa alterna entre sonolência intensa e agitação — às vezes rapidamente, o que torna o diagnóstico mais difícil.
Delirium relacionado à COVID-19: Considerado por alguns especialistas como um quarto tipo, está associado a casos graves de COVID-19, especialmente em pacientes no ventilador mecânico ou com baixos níveis de oxigênio por pneumonia. A experiência de estar na UTI em isolamento, sem referências familiares, contribui adicionalmente para a confusão e desorientação.
Uma nota importante: as alucinações do delirium são neurologicamente reais para quem as vive. Não é “imaginação” — são percepções geradas por um cérebro sob estresse fisiológico intenso. Tratá-las com dismissão ou ironia piora o quadro e aumenta a agitação do paciente.
Delirium ou demência? Como diferenciar
As duas condições podem parecer semelhantes, mas são diferentes e exigem cuidados distintos. Ambas podem causar confusão, problemas de memória, agitação e dificuldade para falar — e algumas pessoas chegam a ter as duas ao mesmo tempo.
O delirium pode ser um sinal precoce de demência em idosos que se recuperam de uma internação. Alguns pacientes que desenvolvem delirium acabam sendo diagnosticados com demência posteriormente, mas o delirium em si é uma condição séria e temporária que precisa de atenção médica urgente.
DELIRIUM:
- Aparece de repente: em horas ou dias
- Sintomas vêm e vão ao longo do dia
- Pode causar mudanças súbitas no nível de alerta
- Desencadeado por uma condição específica: infecção, cirurgia, medicamentos
- Com frequência reversível após o tratamento
- Exige atenção médica urgente
DEMÊNCIA:
- Desenvolve-se gradualmente: ao longo de meses ou anos
- Sintomas persistem e pioram continuamente
- O nível de alerta costuma ser preservado até estágios avançados
- Causada por doença cerebral de longo prazo
- Irreversível (mas a progressão pode ser retardada)
- Requer acompanhamento de longo prazo
Como o delirium é diagnosticado?
O diagnóstico é clínico — feito por observação direta e testes simples para avaliar consciência, raciocínio e atenção. O médico pode pedir que a pessoa faça uma conta simples, descreva o ambiente ao redor ou soletre uma palavra. A instalação súbita dos sintomas é o que diferencia o delirium de outras condições que se desenvolvem mais lentamente.
Se a causa não estiver clara, exames complementares podem ser solicitados:
- Exames de sangue e urina: verificam infecções, desequilíbrios metabólicos, função hepática e sinais de intoxicação
- Eletroencefalograma (EEG): detecta atividade elétrica anormal no cérebro, incluindo convulsões
- Exames de imagem (tomografia ou ressonância): geralmente não são necessários, mas podem identificar AVC ou inflamação cerebral
Como o delirium é tratado?
Não existe um medicamento específico para curar o delirium. As diretrizes mais recentes da Society of Critical Care Medicine (SCCM PADIS, atualização de 2025) reforçam que o tratamento deve focar em tratar a causa e oferecer cuidados de suporte:
- Tratar a causa primária: corrigir desidratação, infecções ou efeitos de medicamentos costuma interromper o delirium
- Criar um ambiente calmo e familiar: retirar equipamentos desnecessários, ajustar a iluminação e oferecer apoio emocional
- Estimular o movimento: fisioterapia e terapia ocupacional ajudam na mobilidade e na recuperação cognitiva
- Apoiar o ciclo sono-vigília: ambiente silencioso à noite e luz natural durante o dia
- Garantir que a pessoa veja e ouça bem: óculos e aparelhos auditivos reduzem a confusão
- Envolver familiares: o contato com pessoas conhecidas traz orientação e reduz a agitação
- Melatonina: as diretrizes SCCM 2025 sugerem o uso de melatonina em pacientes de UTI como auxiliar na regulação do sono
- Medicamentos: em casos graves, sedativos ou antipsicóticos podem ser usados com cautela para controlar alucinações angustiantes — mas os dados sobre eficácia ainda são limitados
Consequências a longo prazo: o que vem depois
O delirium costuma ser passageiro — os sintomas geralmente desaparecem em dias ou semanas após o tratamento da causa. Mas pesquisas recentes mostram que as consequências podem durar muito mais.
Se não for prevenido ou tratado adequadamente, o delirium está associado a:
- Declínio cognitivo que pode persistir por meses ou anos após a alta — o chamado Síndrome Pós-UTI (PICS)
- Maior risco de desenvolver demência, especialmente em idosos
- Internação prolongada e maiores custos médicos
- Necessidade de cuidados institucionais de longo prazo
- Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) — estudos mostram que memórias de alucinações e delírios da UTI podem ser intrusivas e perturbadoras por muito tempo depois
- Sofrimento emocional significativo, tanto para o paciente quanto para familiares que presenciaram os episódios
- Maior risco de morte, tanto a curto quanto a longo prazo
A Síndrome Pós-UTI (PICS) é um conjunto de sequelas físicas, cognitivas e psicológicas que afeta uma parcela significativa dos sobreviventes de UTI. O delirium durante a internação é um dos principais fatores de risco para desenvolvê-la.
Quando procurar ajuda médica?
Se você perceber sinais de delirium em si mesmo ou em outra pessoa, procure atendimento médico imediatamente. Fique com a pessoa até a ajuda chegar, anote os medicamentos que ela está tomando e tranquilize-a dizendo que você está ao lado dela.
Após a alta hospitalar, converse com o médico sobre o acompanhamento adequado e esteja atento a sinais de declínio cognitivo nas semanas seguintes. O delirium não termina necessariamente no dia da alta.
Fontes: Verywell Health (Dorwart, 2026); Ali & Cascella, ICU Delirium, StatPearls/NCBI (2024); Frontiers in Aging Neuroscience, mecanismos do delirium (2024); Trivedi et al., Discover Medicine (2024); SCCM PADIS Guidelines, atualização (2025). Tradução, ampliação e adaptação: soropositivo.org.g
Se você gosta deste trabalho, se ele te ajudou de alguma forma, deixe um comentário abaixo — eu leio todos e sempre respondo, mesmo que demore um pouco.
E se quiser, mande um Pix de R$ 0,25 pelos 25 anos de trabalho:
Chave Pix: solidariedade@soropositivo.org
Você também pode me escrever para: claudio@soropositivo.org
Descubra mais sobre Blog Soropositivio Arquivo HIV
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
