Dramas e solidão de quem convive com a Aids

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No Hospital São José, eles enfrentam as complicações da Aids, o preconceito, a solidão e a superlotação da unidade

 

João, Maria, Francisco, Carlos e Antônio (nomes fictícios) são cearenses de várias idades e histórias de vida com uma questão em comum: são portadores de HIV e estão internados no Hospital São José. Todos eles contraíram o vírus HIV da mesma forma: não fizeram uso de preservativos e agora, dependentes dos medicamentos antirretrovirais, enfrentam o preconceito, a solidão e o medo.

 

Maria, de 50 anos, fez tudo o que não deveria. Com medo de contrariar o antigo companheiro, não exigiu a camisinha na hora do sexo. Resultado: contraiu o HIV há 16 anos. Só tomou conhecimento que estava infectada depois de perder sua filha, aos três meses de nascida, também portadora do vírus, e não conseguir se curar da tuberculose. “A médica me contou que passei a doença para a criança e disse que eu precisava procurar atendimento especializado para continuar vivendo”.

 

Maria, natural do município de Fortim, passou a tomar os medicamentos, mas mesmo assim, subestimou o vírus e não exigiu do atual companheiro os cuidados necessários de proteção. “Eu avisei a ele, que disse não acreditar nisso. Na hora, ainda mostrei a camisinha, o que foi ignorada”. E foi o que deu. Ao brincar com “fogo”, Francisco, de 46 anos, se queimou. É soropositivo há 13 anos e atualmente, internado no São José, se cuida de uma pneumonia. “Na hora, eu não quis saber de nada e, muito menos, de preservativo. Foi meu erro”.

 

Os dois, unidos desde que se conheceram, têm uma filha, de 11 anos, não portadora da HIV. “Aprendemos a lição: Há nove anos, só transamos com camisinha para que o meu tipo de vírus não passe para ela e vice-versa”.

 

Lição ainda não entendida pelo marceneiro João. Aos 28 anos de idade, portador do HIV há três anos, já passou o vírus para a mãe de suas duas primeiras filhas, que morreu há quatro anos, e a atual já teve diagnóstico confirmado há um ano. “Eu não acredito que estou com Aids. Se pensar assim, fico pior ainda. Prefiro dizer para mim mesmo que vou ficar curado”.

 

Aos 57 anos e, com apenas seis meses que soube que é soropositivo, Carlos, natural de Pacajus, conta que não pensou quando fez sexo sem camisinha. “A falta de campanhas constantes, desliga a gente sobre os perigos da Aids. Agora, sem a família, enfrento a doença sozinho”.

 

Fato que só não acontece com Antônio, de 33 anos, devido a solidariedade do amigo de infância José. Desemprego, morador de abrigo da Prefeitura e alcoólatra, ele se encontra em pior estado dos cinco. Está depressivo e com quadro de toxoplasmose. “Conheço Antônio desde pequeno e não posso abandoná-lo como fizeram seus familiares”, afirma José.

 

Os cinco integram a atual lista dos 55 pacientes, portadores de HIV, internados no Hospital São José. A relação vai desde crianças a uma senhora de 80 anos de idade. Uma adolescente de 16 anos, em estado grave, foi isolada. Ontem, domingo, o cotidiano da unidade não mudou muito, mesmo sendo dia, normalmente dedicado às visitas.

 

O movimento de familiares foi pequeno. Os voluntários da ONG Girassol e Apoio Azul cobriram a ausência da família para a maioria. No momento em que a reportagem esteve no local, um homem de 54 anos morreu, devido a complicações da Aids. Dele, apenas a esposa que foi até lá, receber a notícia da assistente social. No mais, a notícia de seu falecimento deixou ainda mais angustiados os outros pacientes.

 

LÊDA GONÇALVES

REPÓRTER

DIÁRIO DO NORDESTE – CE

Editoria: Pág. Dia / Mês/Ano:

CIDADE

30/NOVEMBRO/09


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Claudio Souza DJ, Bloqueiro e Escritor
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