Doenças Autoimunes
Doenças Autoimunes
Durante muitos anos eu carreguei uma ideia simplista sobre o sistema imunológico. Eu vivia com uma doença marcada pela imunodeficiência e, por isso, imaginava que uma doença autoimune fosse quase o oposto lógico daquilo que eu conhecia. Como alguém poderia ter, ao mesmo tempo, um sistema imunológico incapaz de responder adequadamente a determinadas ameaças e, ainda assim, capaz de atacar o próprio organismo?
Hoje essa pergunta me constrange um pouco, porque a resposta estava justamente na complexidade que eu não compreendia.
Anos atrás, Cris Rosick, uma jurista brilhante que vivia com ELA, chegou a me perguntar se eu acreditava que a AIDS poderia ser uma doença autoimune. Eu lhe dei uma resposta tão rasa que, quando me lembro dela hoje, sinto vontade de me esconder debaixo da mesa. Eu tratava imunodeficiência e autoimunidade como se fossem dois extremos incapazes de coexistir.
A vida acabou me ensinando de outro modo.
O sistema imunológico não é um simples botão de “forte” ou “fraco”. Ele é uma rede extraordinariamente complexa. Pode haver deficiência em determinadas respostas e, ao mesmo tempo, desregulação em outras. Uma pessoa pode viver com HIV e também desenvolver uma doença autoimune. Isso não é uma contradição: é uma demonstração de quanto ainda precisamos compreender sobre a forma como nossas defesas reconhecem ameaças, regulam inflamações e distinguem o que pertence ao organismo daquilo que deve ser combatido.
Eu aprendi isso da maneira que menos esperava: pela experiência pessoal.
Esta categoria nasce também dessa aprendizagem.
Não pretendo falar como especialista em doenças autoimunes. Pretendo estudar, ouvir quem entende, consultar boas fontes e compartilhar aquilo que eu conseguir compreender com responsabilidade.
Porque uma das coisas que os anos me ensinaram é que admitir ignorância não diminui ninguém. Permanecer nela quando temos a oportunidade de aprender, sim.
Depois de tantos anos vivendo com HIV, acabei aprendendo no próprio corpo que imunodeficiência e autoimunidade não são realidades mutuamente excludentes.
Viver com miastenia gravis me obrigou a rever certezas antigas e a compreender, de uma forma que nenhum livro conseguiria ensinar sozinho, como o sistema imunológico pode ser complexo, contraditório e imprevisível.
E vivo com a sensação de ter, em certa medida, uma espada de Dâmocles sobre a cabeça. Não para transformar a doença em sentença, mas porque ela me lembra que existe sempre a possibilidade de agravamento, de crise, de necessidade de vigilância e de adaptação.
Talvez por isso eu tenha ainda mais cuidado ao escrever sobre doenças autoimunes. Eu não chego aqui como alguém que domina o assunto. Chego como alguém que precisou aprender — e continua aprendendo — porque a própria vida me colocou dentro dele.

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