Nota de Falecimento: Telma de Souza – Ex-Prefeita de Santos
A única mulher a ser prefeita eleita da cidade de Santos fez o que muito hipócita "temente a Deus" não fez. Tirou de Santos a triste marca de capital nacional da AIDS no Brasil. E fez muito mais

# Telma de Souza morreu. Mas há mulheres que continuam salvando vidas muito após partir. **Telma Sandra Augusto de Souza — 29 de setembro de 1944 a 10 de outubro de 2026** *Uma homenagem de Cláudio Santos de Souza, fundador do Soropositivo.Org, à mulher que ajudou a transformar Santos de uma cidade marcada pela epidemia de AIDS numa referência histórica de enfrentamento, acolhimento e saúde pública.* ## É com profundo pesar que registramos o falecimento de Telma de Souza, ex-prefeita de Santos, uma mulher cuja coragem política ajudou a mudar a história da resposta brasileira à AIDS. Telma de Souza faleceu na noite de sábado, 10 de outubro de 2026, aos 82 anos. Foi prefeita de Santos entre 1989 e 1992, deputada estadual, deputada federal e vereadora.
Temas Tratados Nesta Página
- Que Seria De Nós Sem Professoras E Professores?
- Santos Era A Capital Nacional da AIDS
- O Sanitarista David Capistrano Da Costa Filho Coordenou A Resposta Santista à AIDS
- Oferecer Assistência Às Vítimas Da AIDS
- Sem Julgamentos Morais – Que Atire A Primeira Pedra Aquele Que Nunca Pecou João, capítulo 8, versículo 7
- O valor de uma equipe — e o valor de quem permitiu que ela trabalhasse
- A cidade mudou. Mas a epidemia não acabou por decreto.
- A continuidade: de Telma a David Capistrano Em janeiro de 1993, David Capistrano sucedeu Telma na Prefeitura de Santos.
- As policlínicas: aproximar a saúde de quem precisava dela Outra transformação importante da administração foi a criação e ampliação das policlínicas municipais.
- O mar, os canais e o direito a uma cidade mais saudável. A Cidade de e o Mar são inseparáveis do mar.
- Fevereiro de 1991: a prefeita que não aceitou o abandono de milhares de trabalhadores Em 1991, Santos viveu um dos episódios mais marcantes de sua história trabalhista.
- Da Prefeitura ao Congresso Nacional: Santos continuou presente. Encerrado seu mandato como prefeita, Telma não abandonou a vida pública.
- A luta pelos direitos das mulheres não terminou com a Prefeitura Ao longo de sua trajetória, Telma enfrentou um problema ainda presente no Brasil: a violência contra mulheres.
- O reconhecimento que recebeu ainda em vida Em 2014, Telma foi homenageada em Brasília por sua contribuição ao enfrentamento da AIDS.
- O que a vida de Telma significa para quem vive com HIV Escrevo agora não apenas como editor de um site dedicado à informação sobre HIV e AIDS.
- ### Adeus, Telma de Souza morreu em 10 de outubro de 2026.
- Minha Memória
- **Você não eliminou a epidemia de AIDS. Ninguém poderia fazer isso sozinho.**
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Que Seria De Nós Sem Professoras E Professores?
Pedagoga, professora e advogada de formação, Telma participou ativamente da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) em 1980. Ao longo de mais de quatro décadas de vida pública, exerceu mandatos como vereadora em Santos (1983–1986 e 2017–2024), deputada estadual (1987–1988) e três mandatos como deputada federal (1995–2007).
Mas essa enumeração, embora verdadeira, não explica suficientemente quem foi Telma de Souza. Há pessoas cuja importância se mede pelos cargos que ocuparam. Outras deixam como medida de sua passagem pelo mundo aquilo que tiveram a coragem de fazer quando fazer alguma coisa significava contrariar interesses, desafiar preconceitos e assumir responsabilidades. Telma pertence a essa segunda categoria. Foi uma mulher que assumiu o governo de Santos em um dos momentos mais difíceis da história contemporânea da saúde pública brasileira. A AIDS avançava, havia muitas perguntas sem resposta, a medicina ainda não dispunha dos recursos terapêuticos que hoje conhecemos e a sociedade frequentemente respondia ao sofrimento com medo, discriminação e abandono. Naqueles anos, receber um diagnóstico de infecção pelo HIV podia significar, além da ameaça concreta à vida, o risco de perder o emprego, os amigos, a convivência familiar e até o direito de ser tratado com dignidade.
Santos Era A Capital Nacional da AIDS
Havia gente morrendo. Havia gente escondendo o diagnóstico. Havia gente que, antes mesmo de morrer biologicamente, era expulsa da própria vida social. E havia uma cidade, Santos, que passara a ser chamada de capital brasileira da AIDS. Telma de Souza resolveu enfrentar essa realidade. Não apenas discursar sobre ela. Enfrentá-la. ### Santos, a cidade que carregava um título que ninguém deveria desejar No final da década de 1980, Santos apresentava uma das mais graves situações epidemiológicas do país em relação à AIDS. A expressão “capital da AIDS” surgiu da elevada incidência da doença, isto é, da quantidade de casos em relação ao tamanho da população. Não era um título turístico. Não era uma distinção administrativa. Era o nome que se dava a uma tragédia sanitária. Santos tinha características que exigiam atenção especial. Cidade portuária, conectada ao comércio, às viagens e à circulação de pessoas, também enfrentava uma grave epidemia de HIV associada ao compartilhamento de equipamentos para uso de drogas injetáveis. A transmissão sexual igualmente fazia parte do problema. Entretanto, o HIV não era, nem é, uma doença de determinadas profissões, identidades, classes sociais ou condições morais. Era necessário compreender os mecanismos de transmissão e impedir novas infecções. Parece evidente agora. Não era evidente para todos naquele momento. O Brasil ainda atravessava a fase inicial de organização de suas políticas de enfrentamento à AIDS. O Sistema Único de Saúde, estabelecido constitucionalmente em 1988, começava a ser construído. A terapia antirretroviral combinada, que anos depois transformaria o prognóstico da infecção, ainda não existia. E Santos precisava agir. Telma compreendeu que não bastava lamentar os mortos e contabilizar novos casos. Era preciso criar serviços, organizar profissionais, estabelecer prioridades e reconhecer que uma epidemia não desaparece porque a sociedade prefere não falar sobre ela. Era preciso enfrentá-la de frente. ### Janeiro de 1989: quando uma prefeitura decidiu enfrentar a epidemia Eleita em novembro de 1988, Telma tomou posse em 1º de janeiro de 1989.
O Sanitarista David Capistrano Da Costa Filho Coordenou A Resposta Santista à AIDS
Escolheu para a Secretaria Municipal de Saúde o médico sanitarista David Capistrano da Costa Filho, um dos nomes ligados à construção da reforma sanitária brasileira. Fábio Mesquita, médico epidemiologista, foi chamado para coordenar a resposta municipal à AIDS. Nascia, naquele janeiro, o primeiro Programa Municipal de Aids do Brasil, segundo a reconstrução histórica publicada pelo Ministério da Saúde. Essa decisão precisa ser compreendida em sua dimensão histórica. Hoje estamos acostumados à existência de serviços especializados, equipes multiprofissionais, campanhas de testagem, distribuição de preservativos, medicamentos gratuitos e políticas de prevenção combinada. Em 1989, esse sistema ainda precisava ser inventado, organizado, financiado e defendido. Não havia um modelo municipal brasileiro consolidado a ser simplesmente copiado. Havia experiências nacionais e internacionais, havia profissionais comprometidos e havia a urgência de uma epidemia que não esperaria pelos tempos da burocracia. A administração de Telma deu respaldo político a uma equipe que procurou transformar conhecimento médico e epidemiológico em atendimento concreto. O enfrentamento à AIDS deixou de depender exclusivamente de iniciativas isoladas e passou a ocupar um lugar central na política municipal de saúde. Esse é um dos feitos pelos quais Telma deve ser lembrada. Não porque tivesse encontrado uma cura para a AIDS. Não porque tivesse encerrado a epidemia. Mas porque ajudou a estabelecer, no âmbito municipal, a obrigação de enfrentá-la como problema de saúde pública. ### O Centro de Referência em Aids: quando o diagnóstico precisava encontrar uma porta aberta Entre os marcos da administração de Telma está a implantação do Centro de Referência em Aids de Santos, o Craids.
Oferecer Assistência Às Vítimas Da AIDS
Uma instituição como essa não pode ser avaliada apenas por suas paredes, seus consultórios ou seus equipamentos. É necessário lembrar o que significava procurar assistência para HIV e AIDS no final dos anos 1980. Uma pessoa podia chegar ao serviço de saúde sem saber se seria acolhida. Podia temer a exposição pública de seu diagnóstico. Podia encontrar profissionais igualmente assustados, por desconhecimento, diante de uma infecção cercada por mitos. Podia precisar de apoio psicológico, orientação, exames, acompanhamento clínico e assistência social ao mesmo tempo. Um serviço especializado criava condições para organizar essas necessidades e oferecer continuidade ao atendimento. O Craids representou uma mudança institucional: o problema deixou de ser tratado como uma sucessão de acontecimentos individuais e passou a ser enfrentado por uma estrutura pública organizada. O atendimento não resolvia todas as dificuldades. Não eliminava a pobreza. Não fazia desaparecer o estigma. Não oferecia os antirretrovirais modernos que só seriam disponibilizados anos depois. Mas oferecia algo indispensável: a possibilidade de uma pessoa encontrar assistência dentro de uma política pública, e não depender exclusivamente da caridade ou da sorte. É preciso lembrar que, antes de existirem os medicamentos capazes de transformar radicalmente a expectativa de vida das pessoas com HIV, o acolhimento já era uma forma fundamental de cuidado. E Telma ajudou a criar as condições políticas para que esse acolhimento existisse. ### Prevenir sem perguntar quem merecia ser protegido A experiência santista também se destacou pela disposição de trabalhar com populações socialmente marginalizadas. O programa desenvolveu iniciativas de educação preventiva, distribuição gratuita de preservativos e atendimento voltado às necessidades concretas de diferentes grupos. Profissionais do sexo, por exemplo, precisavam de serviços acessíveis, capazes de considerar seus horários de trabalho e suas condições de vida. Não adiantava oferecer atendimento e, ao mesmo tempo, organizar esse atendimento de maneira que as pessoas não conseguissem utilizá-lo.
Sem Julgamentos Morais – Que Atire A Primeira Pedra Aquele Que Nunca Pecou João, capítulo 8, versículo 7
Também não adiantava impor julgamentos morais a quem precisava de orientação e cuidados. A prevenção ao HIV exigia conversas francas sobre práticas sexuais, uso de preservativos, acesso a serviços e situações de vulnerabilidade. A população precisava de informação. Precisava de meios de proteção. Precisava ter a confiança de que não seria humilhada ao procurar ajuda. Essa orientação tinha uma dimensão científica, mas também uma dimensão ética. Uma administração comprometida com a saúde pública não deveria escolher seus pacientes de acordo com aquilo que pensava sobre suas vidas particulares. Era preciso proteger pessoas. Pessoas reais. Com suas histórias, seus erros, suas dificuldades, suas escolhas e seus direitos. ### A guerra das seringas: quando evitar uma infecção se tornou motivo de perseguição Talvez um dos capítulos mais reveladores da coragem daquela administração tenha sido a tentativa de implantar a redução de danos entre pessoas que utilizavam drogas injetáveis. O problema epidemiológico era conhecido. O compartilhamento de seringas e agulhas contaminadas favorecia a transmissão do HIV. A resposta sanitária parecia lógica: oferecer orientação e meios para impedir esse compartilhamento. Mas a lógica da saúde pública entrou em choque com a repressão e com interpretações jurídicas que tratavam a oferta de equipamentos esterilizados como incentivo ao consumo de drogas. Em novembro de 1989, durante o Primeiro Seminário Santista sobre AIDS, a administração municipal anunciou a proposta de troca de seringas. Em vez de exigir que uma pessoa resolvesse imediatamente todos os problemas associados ao consumo de drogas para só então merecer proteção, a estratégia procurava reduzir um risco concreto de transmissão. Era uma ideia simples em sua finalidade. Difícil em sua implantação. A iniciativa encontrou oposição judicial. Houve investigações, questionamentos legais e processos envolvendo responsáveis pela política municipal de saúde. A experiência original de Santos foi interrompida e não se consolidou naquele momento como programa permanente de troca de seringas. É importante não esconder esse fato. O primeiro programa brasileiro de troca de seringas efetivamente implantado e consolidado surgiu em Salvador, em 1995. Mas Santos abriu uma discussão que ajudaria a modificar os limites do debate nacional. A redução de danos passou a ocupar um lugar fundamental nas reflexões sobre HIV, uso de drogas, prevenção e direitos humanos. Houve homens e mulheres que tiveram de justificar, diante das autoridades, a decisão de tentar impedir que outras pessoas contraíssem uma infecção potencialmente fatal. E a administração de Telma esteve no início dessa história. Essa disputa diz muito sobre a época. Diz muito sobre os obstáculos enfrentados pelos profissionais de saúde. E diz muito sobre a necessidade de coragem política para defender medidas sanitárias que ainda não conquistaram aceitação social.
O valor de uma equipe — e o valor de quem permitiu que ela trabalhasse
Seria historicamente injusto contar essa história como se Telma tivesse realizado tudo sozinha. David Capistrano foi decisivo. Fábio Mesquita desempenhou papel central na organização do programa de AIDS e na defesa da redução de danos. Outros profissionais, servidores, pesquisadores, educadores, organizações comunitárias e pessoas diretamente atingidas pela epidemia participaram da construção dessas respostas. Também é indispensável lembrar a atuação da sociedade civil, incluindo o Grupo de Apoio à Prevenção à Aids da Baixada Santista, o GAPA, criado em 1988 por iniciativa de Nanci Alonso. A história do enfrentamento à AIDS não pertence exclusivamente a um governante, a um médico ou a uma instituição. Pertence também aos que insistiram em cuidar quando tantos preferiam se afastar. Mas existe uma responsabilidade específica de quem ocupa o governo. É o poder público que pode transformar propostas em estruturas administrativas, autorizar prioridades orçamentárias, organizar equipes e sustentar decisões diante de pressões. Telma teve a capacidade de reunir pessoas tecnicamente preparadas e oferecer respaldo político a medidas que nem sempre eram compreendidas pela sociedade. Uma boa administração não é aquela em que o governante precisa saber fazer pessoalmente o trabalho de todos. É aquela em que os profissionais encontram as condições necessárias para exercer seu trabalho em benefício da população. Telma soube reconhecer esse valor.
A cidade mudou. Mas a epidemia não acabou por decreto.
Ao longo dos anos 1990, Santos começou a registrar mudanças em seus indicadores relacionados à AIDS. Em abril de 1995, uma reportagem da Folha de S.Paulo registrava que o município já ocupava a terceira posição num levantamento de incidência, enquanto autoridades de saúde apontavam uma tendência de estabilização. Posteriormente, o município deixaria as primeiras posições daquele ranking e ampliaria sua rede de prevenção e tratamento. Essas mudanças precisam ser examinadas com responsabilidade histórica. Não seria correto afirmar que a administração de Telma, sozinha, eliminou a condição epidemiológica que havia levado Santos a ser conhecida como capital da AIDS. A epidemia foi influenciada por muitos fatores: mudanças no comportamento e nas redes de transmissão, intervenções preventivas, desenvolvimento dos serviços especializados, transformações no uso de drogas, ampliação do acesso à assistência e, mais tarde, pela extraordinária evolução da terapia antirretroviral. A pesquisa científica realizada na própria região de Santos mostra essa complexidade. Isso não torna menor o mérito político da administração iniciada em 1989. Ao contrário. A grandeza está em ter criado respostas institucionais quando o problema era grave, quando o futuro era incerto e quando ainda não existiam muitos dos instrumentos terapêuticos hoje disponíveis. A epidemia não se encerraria durante o mandato de Telma. O trabalho precisaria continuar. Excluído:E continuou.
A continuidade: de Telma a David Capistrano Em janeiro de 1993, David Capistrano sucedeu Telma na Prefeitura de Santos.
A continuidade administrativa permitiu que várias políticas iniciadas nos quatro anos anteriores fossem desenvolvidas e aperfeiçoadas. Novos serviços surgiram. A rede de atendimento cresceu. A prevenção passou a alcançar mais pessoas. Em 1996, durante a gestão de David Capistrano, Santos passou a oferecer medicamentos antirretrovirais gratuitamente antes mesmo da legislação federal que universalizaria esse acesso. É uma conquista extraordinária, mas que precisa ser atribuída corretamente ao período em que ocorreu. A importância de Telma não depende de transferirmos para ela todos os feitos dos administradores que vieram depois. Sua importância está também em ter ajudado a criar uma estrutura de governo e uma orientação política capazes de sobreviver ao encerramento de seu próprio mandato. Um governante verdadeiramente comprometido com o interesse público deve desejar que uma boa política continue existindo mesmo quando seu nome já não está na porta do gabinete. O enfrentamento à AIDS em Santos tornou-se parte dessa continuidade. ### Maio de 1989: as portas de um manicômio começaram a se fechar Se a luta contra a AIDS já justificaria uma homenagem histórica, Telma participou, naquele mesmo primeiro ano de governo, de outra transformação extraordinária. Em 3 de maio de 1989, a Prefeitura de Santos determinou a intervenção na Casa de Saúde Anchieta. O hospital psiquiátrico havia se tornado conhecido pelas denúncias de maus-tratos, violência, superlotação e condições indignas de internação. Pessoas com transtornos mentais eram submetidas a práticas que desrespeitavam profundamente sua condição humana. A intervenção abriu caminho para a construção de uma rede de atendimento que procurava substituir o confinamento por cuidado, acompanhamento clínico e convivência comunitária. Surgiram os Núcleos de Atenção Psicossocial, os NAPS, que ajudariam a influenciar a organização dos Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS, no Brasil. A experiência de Santos passou a ocupar lugar de destaque na reforma psiquiátrica brasileira. É impossível deixar de perceber uma ligação ética entre essas duas frentes da administração. De um lado, pessoas com HIV enfrentavam o preconceito e a exclusão. De outro, pessoas com sofrimento mental eram privadas da liberdade e submetidas a condições desumanas. As situações clínicas eram diferentes. As respostas assistenciais também precisavam ser diferentes. Mas havia um princípio comum: nenhuma pessoa deveria perder sua dignidade pelo fato de estar doente. O Estado não podia limitar-se a esconder os que sofriam. Precisava cuidar deles.
As policlínicas: aproximar a saúde de quem precisava dela Outra transformação importante da administração foi a criação e ampliação das policlínicas municipais.
Em um artigo publicado em 2013, a própria Telma recordou a proposta de David Capistrano de reorganizar profundamente a assistência à saúde de Santos. Ela conta que deu respaldo imediato ao projeto. A rede se expandiu pelos bairros, oferecendo atendimento em diferentes especialidades e procurando reduzir a dependência dos prontos-socorros. A proposta era aproximar os serviços públicos da população, organizar o acompanhamento e permitir que doenças fossem identificadas e tratadas sem que todas as necessidades terminassem numa emergência hospitalar. Também foram desenvolvidos programas de internação e atendimento domiciliar. Para pessoas com doenças crônicas ou dificuldades de locomoção, a possibilidade de receber assistência em casa representava uma transformação significativa. Havia ali uma concepção de saúde que não se limitava ao hospital. O cuidado precisava estar presente no cotidiano. Nos bairros. Na casa das pessoas. Nos serviços públicos acessíveis. Não é difícil compreender por que essa orientação encontrou apoio entre os moradores. É mais fácil confiar num sistema de saúde quando ele deixa de ser uma instituição distante e passa a fazer parte da vida cotidiana. ### Uma professora na Prefeitura Antes de ocupar os principais cargos políticos de sua trajetória, Telma foi professora. Trabalhou no ensino público estadual a partir de 1967 e lecionou Psicologia da Educação na Universidade Santa Cecília. Formou-se em Pedagogia e Direito e realizou estudos de pós-graduação em Psicologia da Educação, além de formação complementar no exterior. Sua experiência educacional não ficou separada da atuação pública. Na Prefeitura, a educação básica recebeu atenção especial, e sua administração iniciou um processo de ampliação da rede municipal que prosseguiria durante o governo seguinte. É necessário distinguir os resultados alcançados durante seu mandato daqueles acumulados até 1996. A expansão da escolarização foi uma obra administrativa de continuidade. Mas a prioridade dada à educação fazia parte do projeto iniciado em 1989. A escola, para Telma, não era apenas um prédio em que crianças recebiam aulas. Era uma instituição essencial ao desenvolvimento humano e à construção de uma cidade menos desigual. Uma educadora chegou ao governo municipal com a experiência de quem conhecia a importância da formação das pessoas. E levou essa convicção para a vida pública. ### Os morros de Santos: uma cidade também precisa proteger seus moradores A administração de Telma também enfrentou os riscos de deslizamentos nas encostas dos morros de Santos. Em vez de tratar essas tragédias como acontecimentos inevitáveis, o município passou a investir em identificação de áreas perigosas, levantamento geológico e participação dos próprios moradores na prevenção. A parceria com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas permitiu mapear os riscos. Famílias em situações especialmente perigosas foram identificadas, e moradores receberam orientações para reconhecer sinais de ameaça e colaborar com a Defesa Civil. Essas medidas mostram outra dimensão do governo municipal. Prevenção não se faz apenas em consultórios. Faz-se também conhecendo o território, reduzindo riscos e ouvindo quem vive neles. Uma cidade precisa proteger suas pessoas antes que a tragédia aconteça. Essa ideia estava presente em diversas iniciativas da administração.
O mar, os canais e o direito a uma cidade mais saudável. A Cidade de e o Mar são inseparáveis do mar.
Mas, durante muitos anos, a poluição de suas praias constituiu um problema ambiental, sanitário e econômico. A administração de Telma deu início, em novembro de 1990, a um programa de recuperação das praias, com participação técnica da Sabesp. O trabalho envolveu o sistema de canais e comportas, a identificação de ligações irregulares de esgoto e o encaminhamento de águas contaminadas para tratamento. A recuperação ambiental não ocorreu num único dia, nem pertenceu exclusivamente a uma gestão. Foi um processo que exigiu obras, fiscalização, continuidade administrativa e cooperação técnica. Mas começou a ganhar novo impulso durante seu governo. O saneamento e a qualidade das águas são temas de saúde pública. A degradação ambiental também atinge os corpos humanos. Uma cidade que cuida de suas praias cuida de seus moradores, de sua economia e do direito coletivo a um ambiente saudável.
Fevereiro de 1991: a prefeita que não aceitou o abandono de milhares de trabalhadores Em 1991, Santos viveu um dos episódios mais marcantes de sua história trabalhista.
O governo federal, durante a presidência de Fernando Collor, promoveu a demissão de 5.372 trabalhadores ligados ao porto. O impacto ameaçava não apenas os empregos diretamente atingidos, mas também milhares de famílias e a economia regional. Telma assumiu posição de destaque na mobilização pela reversão das demissões. Sindicalistas, trabalhadores, comerciantes, representantes políticos e moradores participaram de uma ampla resistência. A cidade se mobilizou. A pressão durou semanas. Em 28 de fevereiro de 1991, a luta alcançou seu objetivo com a readmissão dos trabalhadores. A data passou a ser lembrada como o Dia da Resistência Portuária. Esse episódio revela que o compromisso social de Telma não se restringia aos serviços médicos. Ela compreendia que a vida de uma cidade também depende de trabalho, renda, vínculos comunitários e proteção social. Para milhares de famílias, a perda coletiva de empregos teria consequências que ultrapassariam o contracheque. A reação envolveu uma cidade inteira. E sua prefeita estava à frente daquela mobilização. ### Democracia não era uma palavra decorativa Telma iniciou sua atuação política no movimento pela anistia e nas lutas sindicais dos professores. Foi uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores e construiu sua trajetória durante o processo de redemocratização do Brasil. Santos conhecia de maneira particularmente dolorosa o significado da ausência de autonomia política. Durante a ditadura militar, a cidade foi submetida a um regime que retirou dos moradores o direito de escolher livremente seu prefeito. A reconquista da autonomia, em 1983, representou uma vitória da sociedade santista. Telma fez parte da geração política que viveu essas lutas e ajudou a construir as novas instituições democráticas. Eleita vereadora em 1982, chegou à Assembleia Legislativa de São Paulo em 1987. Venceu a eleição municipal de 1988, tornando-se a primeira mulher a governar Santos por escolha popular. Era um feito político importante. Mas o significado histórico seria construído sobretudo nos quatro anos seguintes. Governar democraticamente exige mais do que vencer eleições. Exige reconhecer o direito das pessoas a participar das decisões, exigir respostas e receber serviços públicos. Exige compreender que o poder não pertence definitivamente a quem o ocupa. Pertence à sociedade.
Da Prefeitura ao Congresso Nacional: Santos continuou presente. Encerrado seu mandato como prefeita, Telma não abandonou a vida pública.
Foi eleita deputada federal em 1994 e reeleita em 1998 e 2002, exercendo três mandatos consecutivos entre 1995 e 2007. Também exerceu posteriormente um breve período na Câmara dos Deputados como suplente. Sua atuação parlamentar alcançou áreas como saúde, seguridade social, direitos das mulheres, proteção de crianças e adolescentes, transportes, meio ambiente e questões portuárias. Participou de comissões e debates ligados ao desenvolvimento econômico e social do país. Na Câmara, também manteve ligação com o enfrentamento ao HIV e à AIDS, participando da articulação parlamentar em torno do tema. Para ela, Santos continuava sendo uma referência permanente. A questão portuária, a economia regional, a preservação ambiental e os serviços públicos permaneciam em sua agenda. Sua atuação não esteve livre de disputas políticas ou derrotas eleitorais. Como qualquer pessoa que permanece décadas na vida pública, Telma enfrentou mudanças no cenário político, resistências e divergências. Mas continuou participando. Retornou à Câmara Municipal em 2009, após uma votação expressiva na eleição de 2008. Foi novamente deputada estadual a partir de 2011 e, mais tarde, voltou a ocupar uma cadeira de vereadora entre 2017 e 2024. Não se contentou em fazer da antiga condição de prefeita um título honorífico. Continuou apresentando propostas e defendendo políticas públicas.
A luta pelos direitos das mulheres não terminou com a Prefeitura Ao longo de sua trajetória, Telma enfrentou um problema ainda presente no Brasil: a violência contra mulheres.
Como vereadora, apresentou propostas relacionadas à prevenção da violência doméstica e de gênero, à proteção de vítimas e à atuação coordenada dos serviços municipais. Uma dessas iniciativas ajudou a fundamentar a Política Municipal de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, instituída pela Lei Municipal nº 4.137, de 2022. A legislação estabeleceu medidas de prevenção, atendimento e articulação entre diferentes setores da administração pública. Saúde, educação, segurança, assistência social e cidadania deveriam participar dessa resposta. Era novamente a compreensão de que problemas complexos não podem ser resolvidos por um serviço isolado. Mulheres ameaçadas precisam de proteção. Mulheres agredidas precisam de atendimento. Mulheres que procuram ajuda precisam ser levadas a sério. A luta por dignidade que Telma ajudara a conduzir no enfrentamento à AIDS e na reforma da assistência psiquiátrica também se expressava nessa preocupação.
O reconhecimento que recebeu ainda em vida Em 2014, Telma foi homenageada em Brasília por sua contribuição ao enfrentamento da AIDS.
A distinção reconhecia a experiência desenvolvida em Santos e a importância daquela administração para a história das políticas brasileiras de saúde pública. Em setembro de 2023, recebeu a Medalha de Honra ao Mérito Braz Cubas, maior honraria concedida pela Câmara Municipal de Santos. A cerimônia reuniu representantes de diferentes correntes políticas. Na ocasião, uma mensagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu a importância de sua administração e sua influência sobre outras experiências de políticas públicas. O reconhecimento ultrapassou as divergências partidárias. Telma também havia recebido outras distinções concedidas pela cidade. Essas homenagens indicam que seu trabalho passou a fazer parte da memória institucional de Santos. Mas as medalhas não são o seu principal legado. O principal legado está nas políticas, nas instituições e nas transformações que ajudou a construir. ### Uma mulher que se recusou a deixar de participar.
Em 2024, aos 80 anos, Telma voltou a disputar a Prefeitura de Santos. Não venceu. Recebeu 31.423 votos e terminou a eleição em terceiro lugar. O resultado não apagava sua trajetória. Mostrava que ela ainda desejava participar diretamente das discussões sobre os rumos da cidade. Em janeiro de 2025, participou do relançamento do antigo Instituto de Políticas Públicas para o Desenvolvimento da Baixada Santista, que passou a receber seu nome. O Instituto Telma de Souza assumiu a proposta de preservar experiências administrativas e promover estudos e debates sobre saúde, educação, cultura, desigualdade, desenvolvimento regional e integração entre porto e cidade. É significativo que, após tantas décadas, Telma ainda estivesse preocupada com a elaboração de propostas para o futuro. A política, para ela, não havia terminado quando deixou o cargo de prefeita. Nem quando concluiu os mandatos parlamentares. Havia trabalho por fazer. Havia problemas por enfrentar. Havia pessoas que continuavam precisando de respostas.
O que a vida de Telma significa para quem vive com HIV Escrevo agora não apenas como editor de um site dedicado à informação sobre HIV e AIDS.
Escrevo como alguém que vive com HIV desde 1994. Fui diagnosticado numa época em que o tratamento ainda estava muito distante das possibilidades atuais. Conheci o medo. Conheci as perdas. Conheci situações em que a doença parecia ocupar todo o horizonte, e o futuro se tornava uma coisa difícil de imaginar. Eu sei o que significa depender de um sistema de saúde capaz de tratar uma pessoa com dignidade. Sei o que representa encontrar profissionais que não confundem uma infecção com um julgamento sobre a vida de quem a adquiriu. Sei que a informação correta, oferecida no momento certo, pode modificar destinos. Também sei que muita gente não teve tempo de esperar pelos tratamentos que viriam depois. Por isso, quando leio a história das iniciativas adotadas em Santos a partir de 1989, não vejo apenas a trajetória administrativa de uma prefeita. Vejo uma mulher que escolheu enfrentar a epidemia quando tantas pessoas ainda preferiam se afastar dela. Vejo uma administração que reconheceu a necessidade de cuidar de pessoas frequentemente discriminadas. Vejo profissionais de saúde que encontraram respaldo para defender medidas difíceis. Vejo também aquilo que poderia ter acontecido com muitas outras pessoas se mais governos tivessem compreendido, tão cedo, a importância de agir. Isso não significa atribuir a Telma uma vitória individual sobre o HIV. Significa reconhecer o papel que desempenhou na construção de uma resposta pública à epidemia. E, para quem viveu aqueles anos, essa distinção é fundamental. ### Não sou santista. Mas há histórias que também me pertencem. Eu, Cláudio Santos de Souza, não sou santista. Não nasci em Santos. Não participei daquela administração municipal. Não pretendo reivindicar uma proximidade pessoal que não tive com Telma de Souza. Mas vivo com HIV desde 1994 e mantenho o Soropositivo.Org desde 1º de agosto de 2000. Há mais de 26 anos trabalho para oferecer informação, acolhimento e esperança a pessoas que vivem com HIV, a quem teme ter se exposto ao vírus e a famílias que procuram compreender o que está acontecendo com alguém que amam. Durante esse caminho, aprendi que a história da AIDS não pode ser contada apenas por meio de descobertas médicas. Ela também precisa registrar quem lutou para que a ciência se transformasse em cuidado. Quem enfrentou o preconceito. Quem defendeu o atendimento público. Quem abriu serviços. Quem se dispôs a ser criticado por proteger pessoas que outros preferiam abandonar. E foi justamente por isso que guardei Telma de Souza e seus feitos em meu coração. **Apesar de não ser santista, eu, Cláudio Santos de Souza, guardo Telma de Souza, sua história e seus feitos em meu coração. E, enquanto tiver forças, farei o que estiver ao alcance dos meus limitados recursos para honrar e preservar seu legado.** Não digo isso por formalidade. Não escrevo essas palavras porque uma ex-prefeita morreu e seria elegante publicar uma homenagem. Escrevo porque há pessoas que merecem ser lembradas pelo que fizeram quando ainda não era confortável fazer. Telma é uma delas. Eu gostaria que sua história fosse conhecida por quem nasceu depois da chegada dos antirretrovirais modernos. Por quem nunca precisou imaginar o que era um diagnóstico de AIDS em 1989. Por quem hoje encontra um serviço especializado de HIV e não sabe quantas lutas foram necessárias para que aquele serviço existisse. Por quem nunca ouviu falar de David Capistrano, Fábio Mesquita, dos primeiros movimentos de redução de danos ou das iniciativas municipais que ajudaram a construir a resposta brasileira à epidemia. Essas histórias precisam ser contadas. E recontadas. Precisam ser documentadas antes que desapareçam junto com as pessoas que as viveram. ### A história da AIDS também é feita de nomes que não podem desaparecer O Brasil perdeu muita gente durante a epidemia. Perdeu pessoas conhecidas. Perdeu pessoas anônimas. Perdeu profissionais de saúde, trabalhadores, artistas, jovens, homens, mulheres, mães, pais, filhos e amigos. Perdeu gente que jamais teve a oportunidade de conhecer os medicamentos que hoje permitem uma vida longa com HIV. Também construiu conquistas extraordinárias. Muitas nasceram da pesquisa científica. Outras dependeram de mobilização social, disputas jurídicas, decisões administrativas e coragem política. Telma de Souza pertence à história dessas conquistas. Não foi a única pessoa responsável por elas. Mas foi uma das mulheres que contribuíram para que existissem. E isso basta para justificar que seu nome seja preservado com respeito e gratidão. O Soropositivo.Org continuará sendo, dentro de suas possibilidades, um lugar de memória dessa história. Não porque a memória resolva todos os problemas do presente. E sim porque esquecer as dificuldades que enfrentamos torna mais fácil permitir que elas se repitam.
### Adeus, Telma de Souza morreu em 10 de outubro de 2026.
Santos perdeu uma de suas personagens públicas mais importantes. A política brasileira perdeu uma mulher que participou de lutas fundamentais na redemocratização, na saúde pública, na educação, na proteção de trabalhadores e na defesa de direitos humanos. E a história do enfrentamento à AIDS perdeu uma de suas pioneiras. Mas existe uma maneira de impedir que sua passagem pelo mundo se reduza a uma notícia antiga. Podemos preservar seus atos. Pesquisar os documentos. Contar às novas gerações o que aconteceu em Santos. Lembrar os profissionais que trabalharam ao seu lado. Reconhecer as pessoas acolhidas.
Defender a continuidade das políticas públicas que ajudou a construir. E recusar o esquecimento. Eu não tenho os recursos de uma grande instituição. Não disponho de uma redação numerosa. Não tenho uma estrutura capaz de competir com os grandes veículos de comunicação.
Minha Memória
Tenho minha experiência, minha memória, meu trabalho e um blog que mantenho há mais de um quarto de século. É com esses recursos, por menores que sejam, que posso oferecer esta homenagem. E é com eles que pretendo ajudar a preservar seu legado. Telma, muito obrigado pelo que você fez. Obrigado por compreender, numa época tão difícil, que pessoas com HIV precisavam de assistência, e não de condenação.
Agradeço por dar respaldo a profissionais que procuravam impedir novas infecções. Obrigado por ajudar a demonstrar que o poder público podia fazer mais do que contar seus mortos.
Sou grato a você por lembrar que a dignidade humana não deveria ser negociável.
Expressamos nossas mais sinceras condolências aos familiares, amigos, correligionários e a todas as pessoas cuja vida e lutas foram impactadas por sua coragem, liderança e dedicação à justiça social.
**Você não eliminou a epidemia de AIDS. Ninguém poderia fazer isso sozinho.**
Mas ajudou a construir um caminho para enfrentá-la. E quem ajuda a abrir um caminho para a vida merece ser lembrado. Descanse em paz, Telma de Souza. **Seu nome permanecerá nas páginas do Soropositivo.Org enquanto eu tiver condições de preservar esta história.** *Cláudio Santos de Souza* *Fundador e editor do Soropositivo.Org* *Vivendo com HIV desde 1994* *Soropositivo.Org — desde 1º de agosto de 2000* *11 de outubro de 2026*
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