As histórias de quem fala abertamente sobre sexo em casa, com os pais, melhor maneira de não ter noias, dizem especialistas
Lauro Neto
lauro.neto@oglobo.com.br
Há quem morra de vergonha de sequer pronunciar a palavra sexo per to dos pais. E há quem aprenda sobre masturbação, menstruação, primeira vez, DSTS, gravidez e muito mais com eles. Acredite, a galera deste segundo time está mais bem parada. Falar abertamente, sem tabus – e em casa – é o melhor caminho para desenvolver uma sexualidade sem noias, dizem especialistas.
– Se rola vergonha de abordar o assunto, procure um gancho no dia a dia, como uma cena de novela em que o pai flagrou a filha dormindo com o namorado em casa – ensina o sexólogo Marcos Ribeiro, consultor do Ministério da Saúde e da Unesco. – Se a timidez não deixar, comece explorando outros temas, para criar confiança.
Já imaginou sua mãe falando que não se importaria se você perdesse a virgindade? E se seu pai encomendasse um bolo para comemorar a sua primeira menstruação? Que tal se eles te comprassem camisinhas e ainda liberassem a casa para você e sua (seu) namorada( o)? Conheça as histórias de garotos e garotas que passaram por essas experiências – e, ao contrário de muita gente travada, acham tranquilo falar sobre isso.
Se tiver que acontecer…
Quando o namoro de Mariana Moraes, de 16 anos, começou a ficar sério, sua mãe, Edma, a chamou para conversar e mandou na lata: “Ficaria triste se você perdesse um braço, uma perna, mas não o hímen”.
– Não posso impor a hora certa, mas quero acompanhála não apenas na parte física e médica, senão também na psicológica e emocional – explica Edma.
– Se eles tiverem que transar, vão transar, mas acho que ainda é cedo…
– Mãe, tô ficando com vergonhinha – interrompe Mariana, para depois completar.
– Aprendi a confiar nos meus pais. Se pudesse dar um conselho às minhas amigas, falaria para procurarem seus pais para conversar, caso eles não tomassem a iniciativa.
Antes, Mariana era mais tímida e só falava de sexo quando a mãe puxava assunto.
Hoje, sente-se à vontade para tirar suas dúvidas.
– Ela é experiente, bem direta e sabe quebrar minha vergonha – diz a menina.
Papo na cama de casal
Em sua cama de casal, o conselheiro da Megazine Ivan Brandão ora dorme com a namorada, ora conversa com a mãe Marta Maria sobre os assuntos mais inusitados.
– O Ivan não tem o menor pudor de contar as coisas. Às vezes, ele vai a uma sex shop e vem me mostrar o que comprou.
Já sei que a noite vai ser boa – brinca Marta.
Tem sido assim desde que ele fez 13 anos, quando a mãe lhe repassou o livro “Conversando sobre sexo”, de Marta Suplicy, que antes fora lido por sua irmã mais velha. Aos 16, quando Ivan perdeu a virgindade com uma namorada de 20, Marta também teve um papel importante.
– Eu estava em casa com a menina, minha mãe chegou, nos viu, me entregou a chave e disse: “divirta-se” – lembra Ivan, hoje com 20 anos.
– Prefiro que seja na minha casa, aos meus olhos, do que em qualquer outro lugar – emenda Marta. – Sempre o alertei para usar CAMISINHA e nunca cair em papo de menina que toma PÍLULA.
Enquanto o diálogo entre os dois é sem rodeios, o filho mais novo, Guilherme, de 12 anos, procura se informar mais pela internet.
– Sou mais na minha, mas não há aquele tabu de falar sobre sexo – ele diz.
Coleção de camisinhas
A lembrança mais antiga que Sérgio dos Santos Filho tem de tirar dúvidas sobre sexo com seus pais remonta aos seus 6 anos de idade.
– Fui urinar e meu pênis estava ereto, perguntei por quê, e eles responderam. Aos 14, acordei “melado”, e minha mãe explicou que eu tinha tido uma polução noturna. Nunca tive vergonha de conversar com eles sobre isso – conta Serginho, hoje com 17 anos.
O diálogo com os pais sempre foi tão franco que, quando Sérgio quis saber para que serviam camisinhas, sua mãe, Sandra, orientadora de saúde sexual e reprodutiva, comprou várias e lhe ensinou a colocar numa prótese de borracha.
– Com minha filha, o tratamento é igual. No aniversário de 13 anos, ela convidou as amigas dizendo que eu daria aula sobre sexo. Muitas disseram que queriam que a mãe fosse como eu – diz Sandra.
Sérgio, o pai, sabe até que as camisinhas preferidas do filho são as texturizadas. Mas, por ora, o adolescente só as usa para masturbação, já que a namorada quer se casar virgem.
– Meu pai disse para eu me masturbar com CAMISINHA para me acostumar a usá-la quando for necessário – explica.
– Lá em casa não há cobrança sobre os meninos para perder a virgindade. Sexo tem que ser vivido com amor e naturalidade – completa o pai.
Viva a menstruação!
Se nor malmente é a mãe que acompanha a vida sexual da filha, no caso de Anna Paula Mendes foi um pouco diferente.
Desde sua primeira menstruação, seu pai Ronaldo teve uma participação intensa na hora de informar a filha.
– Peguei um absorvente da mãe dela, coloquei na bolsa de maquiagem da Anna, e ela levou para a escola durante uns seis meses. – ri Ronaldo.
– Quando aconteceu, comprei uma torta na doceria e fomos cantar parabéns.
No mesmo dia, o pai sentou com a menina para conversar sobre sexo.
– Ele perguntou se eu tinha alguma dúvida, e eu disse que não, por vergonha, mas ele continuou me explicando sobre masturbação, relações sexuais etc. – recorda Anna.
Ela fugiu do assunto até os 15 anos, quando começou a namorar. Hoje, aos 16, reconhece a importância do diálogo com o pai.
– Não achava que as meninas da minha idade faziam sexo, mas depois vi que não era uma realidade tão distante. Hoje me sinto pressionada pela maioria das minhas amigas que já perderam a virgindade – ela diz.
Ronaldo, que é presbítero evangélico, procura tranquilizá-la: – Passo para a Anna que, quando acontecer, será uma coisa natural.
Se ela se envolver com um menino, não vou ficar vigiando. Sei que vai depender muito da cabeça dos dois descobrir o que é o amor e o que eles querem.
“Mãe, o que é orgasmo?”
Letícia Martins nunca teve vergonha de fazer perguntas embaraçosas para a mãe, Patricia.
Aos 12 anos, assistindo a um programa de TV que dizia que os filhos não tinham coragem de perguntar aos pais o que era orgasmo, ela não perdeu tempo e obteve a resposta na hora. Outra vez, apostou com o primo que teria cara de pau de indagar se sexo doía.
– Em outra ocasião, uma amiga minha estava no MSN com um menino que disse que batia punheta pensando nela. Ela não sabia o que era, e eu expliquei, pois minha mãe já havia me ensinado – recorda Letícia.
– Algumas amigas da minha filha vêm tirar dúvidas comigo, pois não têm abertura para conversar com os pais – conta Patricia.
Diálogo franco é o que não falta entre elas. Quando o papo é gravidez, a mãe procura dar as recomendações de sempre (CAMISINHA, pílulas etc.), mas sem aterrorizar: – Não é o fim do mundo.
Há males muito maiores na juventude como doenças incuráveis e acidentes fatais.
Aos 16 anos, Letícia segue à risca a cartilha de Patricia: – Quando chegar a hora de perder a virgindade, vou pedir conselhos a ela.
E na sala de aula…
Você já fez perguntas sobre sexo aos seus pais e eles te deixaram sem resposta? Nessas horas, a escola pode ser uma aliada e tanto. Segundo um estudo feito pela Associação Americana de Psicologia, a orientação sexual dentro de sala de aula pode ajudar a saciar a curiosidade natural da idade e contribuir para diminuir a incidência de doenças sexualmente transmissíveis e gravidez precoce.
No Brasil, o projeto Saúde e Prevenção nas Escolas, do Ministério da Saúde, existe desde 2003. De acordo com a última pesquisa sobre hábitos sexuais dos brasileiros, o número de jovens que usou a CAMISINHA na primeira relação subiu de 48% para 68%.
Para aumentar essa porcentagem, ainda este ano será implantado um projeto piloto de distribuição de camisinhas através de máquinas em colégios.
A orientação ou EDUCAÇÃO SEXUAL faz parte dos chamados temas transversais, incluídos nos Parâmetros Curriculares Nacionais. Esses temas são conteúdos trabalhados em diversas disciplinas, como ciência e biologia.
Como não há regras, as escolas podem fazê-lo conforme o projeto político-pedagógico de cada uma.
RODRIGO GOMES
O GLOBO |
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02/FEVEREIRO/2010 |
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