Outro dia escrevi aqui sobre um bolo que dou ao meu vírus todos os anos. E também sobre o acordo não cumprido, da parte dele, em nome de uma convivência pacífica.
Uma pessoa me escreveu em privado e disse que enlouqueria se fizesse isso. Aí pensei que talvez não apenas ela, a pessoa — substantivo feminino — se sentisse assim. Essa pessoa me disse que chorou. Perdoe-me pelas lágrimas derramadas, não foi minha intenção.
Mas o fato é que pode ser que existam outras pessoas aqui que também não tenham se sentido bem com o meu deboche em relação ao vírus.
Lembro-me bem de mim mesmo seis anos atrás, pra não saber o que é a sensação do terror…
Acordei de um coma prolongado — um mês induzido. Após a retirada da sedação, eu simplesmente não voltava. E voltei.
Foi no dia 8 de novembro de 1994, logo de manhã, creio que por volta das sete e meia, em um hospital em São Paulo. Trinta e cinco quilos mais magro, barbudo e com muita dor de cabeça ainda… (foi uma meningite). Dei de cara com a médica que me examinava e prescrevia minhas medicações todos os dias. Lembro-me de tê-la visto sorrir ao me ver acordado. Ela disse:
— Oi! Até que enfim vejo luz nesses olhos… Como é seu nome?
— Cláudio.
— De quê?
— Santos de Souza. Onde estou?
— Não sabe?
— Não.
— Pode ver esta caneta? Siga-a com os olhos, por favor.
Ela fez uma série de movimentos com a caneta, testou meus reflexos, mediu meu pulso e disse:
— Não te perdi até hoje. Não te perco mais.
É uma guerreira, a Dra. Guadalupe. Isso tenho de admitir.
Entrei lá entre a vida e a morte, mais pra morte, três meses antes, após tratar uma meningite viral como gripe durante 28 dias. Morava sozinho, num hotel (vida de DJ) e não tinha quem se importasse comigo de verdade. Um belo dia, acordei com uma dor de cabeça — era como se tivessem instalado o campanário de Notre-Dame dentro da minha cabeça. Nunca fui de dar valor a dores e coisas assim. Tomei uma Neosaldina e fui trabalhar. Era sábado, e o La Concorde não podia prescindir do DJ. A maldita dor de cabeça não passava.
No final da noite fui dormir e mal consegui. A cabeça doía cada vez mais. O domingo foi terrível. Felizmente o La Concorde não abria aos domingos.
Na segunda-feira fui à Santa Casa. Diagnóstico: gripe. “Vamos tratar como gripe.”
Atalhando: fui inúmeras vezes à Santa Casa, sempre com o mesmo diagnóstico — quadro gripal — e a mesma prescrição: paciência, vitamina C e cama.
Vinte e oito dias depois da primeira badalada, já sem me alimentar direito (vomitava como um louco), ouvi um anjo suspirar em meu ouvido: troque de hospital, esse aí não resolve nada…
O hotel ficava na Rua Aurora — “a rua das putinelas”, segundo a Neidoca. Chamava-se “O Nosso Hotel”, e ainda está lá. Saí de lá a pé e fui pela Praça da República, Viaduto do Chá, Rua Direita, Praça da Sé e finalmente até o bairro da Liberdade…
Eu devia estar bonito quando cheguei lá, porque a atendente me viu e saiu às pressas. Voltou com uma médica, que ao me ver disse:
— Meu Deus!
Foi um festival de picadas, agulhas, cortes nos dedos… eu nem entendia direito o que estava acontecendo.
Não sei quanto tempo se passou, mas lembro de ouvir alguém dizer que eu estava com meningite viral, e que não apresentaria maiores problemas. Mas… o quadro estava grave, e o hospital fazia, nesses casos, exame para HIV. Perguntaram se eu autorizava.
Naquele ponto da vida, eu autorizaria que me fervesse em óleo. Disse que sim. Colheram o material rapidamente, pra eu não mudar de ideia. E, ato contínuo, fui internado.
Depois disso: cadeira de rodas, quarto, escuridão, vozes, silêncios, picadas, frio, medo, saudade e mais frio…
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Vazio
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Aí acordei. E vocês já sabem.
Era dia 8 de novembro. Faltavam 5 dias para a alta.
13 de novembro de 1994, 15h45. Sala da Dra. Guadalupe.
— Cláudio, preciso que você vá ao CRT-A e realize um novo exame para HIV. Seu primeiro teste deu positivo.
Foi como se um elefante tivesse espremido um cravo dentro de mim.
Pensei: vou morrer (como se antes não fosse), secar num vaso como uma samambaia sem água, virar um esqueletinho, todo mundo vai me desprezar, debochar de mim, me afastar… Matei Simone! Meu Deus, matei Simone! Eu amava Simone e a matei!
Como fui tão filho da puta, tão desgraçado? Irresponsável, assassino, canalha sórdido, sacripanta imundo! Ponderei me matar. Mas era covardia. Eu precisava arcar com as consequências dos meus atos. Decidi secar. Lenta — ou rapidamente — em meu vaso.
Já não ouvia o que a médica dizia. Só sabia que eu ia morrer e que matara a mulher que mais amei. Hoje vejo o quanto era tolo. Como uma educação emocional me fez falta…
Curiosamente, não me passava pela cabeça que ela podia, sem querer, ter me passado o vírus. Era plausível. Ela era, assim como eu, digamos… “uma doidinha”.
Mas na minha cabeça, eu era o assassino.
Não me lembro como saí às ruas, nem por onde passei, nem quanto tempo fiquei nesse círculo de ideias. Cheguei ao CRT-A que nem sabia que existia. Palestras. Que maldita palestra. Eu não queria palestra, queria fazer o exame e acordar desse pesadelo.
O resultado só sairia em 15 dias. Pânico. Desespero. Ansiedade.
Fui ao trabalho: demitido. Fui ao hotel: despejado.
Não tive coragem de ligar pra ninguém. Nem de pedir ajuda. Vergonha era um dos sentimentos desse coquetel — marcante, colorido, quente.
Dormi na Praça da República. Passei horas e horas apavorado com a gripe que viria e me mataria. Tinha fome. Pedi dinheiro pra comer a uma amiga. Ela me deu e sumiu. Eu estava quarenta quilos mais magro. Estava evidente.
Passei dez dias na cama, aterrorizado, esperando a infecção fatal.
Matara Simone. Mas precisava avisá-la. Resolvi esperar o Natal e o Ano Novo. Julguei que dava tempo. Todos os dias eu pedia a Deus que a poupasse.
No dia 31, após as 15h, fui até a região da Av. São Luís e conversei com Deus. Pedi, implorei, negociei. Que se houvesse duas cruzes, que eu carregasse as duas.
Não pude contar. Toninho fez isso por mim. Deus sabe o desespero dela. Toninho me contou que, três segundos após dizer que eu estava com AIDS, ela entrou em colapso. Disse:
— Não vou me tratar porra nenhuma. Prefiro morrer logo.
Fez um teste e, felizmente, não estava contaminada. Mas só se convenceu depois de dez testes.
A casa de apoio era um lugar ambíguo. Pra muitos, seria o paraíso: cinco refeições por dia, lanches, frutas, TV a cabo, telefone, roupa lavada, cama feita, corpo de enfermagem… Mas eram pessoas que se viam sem um futuro. Não sem futuro brilhante. Sem nenhum futuro.
Eu não sou exemplo de nada, mas sempre tive essa necessidade de trabalhar, de construir o dia seguinte com as próprias mãos. Ficar ali, entre cinquenta pessoas que só falavam da vida alheia, não era minha praia. A administração percebeu.
Me arranjaram uma ocupação: cuidar do Waldir, um paciente debilitado, que ia ao hospital-dia de segunda a sexta. Essa história será contada depois.
Depois da morte do Waldir, não aguentei mais. Fui pra outra casa de apoio — igual, mas da Igreja. E saí de novo.
Eu, que já morara nas ruas… Amargo regresso. Mas ali, nas ruas, eu era dono da minha história. Podia recomeçar.
Catei latas e papelão até ter algum dinheiro. Comprei refrigerantes, bichinhos virtuais e comecei a vender nas ruas, na região do Bom Retiro (mordaz ironia). Saí das ruas pra uma vaga, de uma vaga pra um quarto, do quarto pra uma casinha em Guarulhos, da casinha pra um apê em Piracicaba e deste apê para uma casa.
Em 1996, o milagre! A “Revista Científica” dizia: AIDS, a 1% da cura.
Dizem que a última milha é a mais longa. Entrei no coquetel meio a contragosto. De certa forma, era assinar: “Sim, eu tenho AIDS”.
Tomo remédios há mais de três anos. O vírus nunca se manifestou de forma agressiva. (Enquanto reviso esse texto, em 2023, vejo o quanto eu mesmo estava desinformado. O vírus não se manifestou porque o tratamento impediu a queda do CD4, controlou a replicação viral e evitou as doenças oportunistas.)
Criar meu blog — o Soropositivo — pode ter ajudado muita gente. Mas quem mais ajudou, fui eu mesmo.
Tenho uma disciplina espartana com os remédios. Draconiana, talvez. Sou lembrado por e-mail, despertador, pop-ups do Outlook — e por mim, às vezes.
Descobri que não secaria como uma samambaia, nem como um pinheiro velho. Talvez, um dia, eu perca a batalha. Mas por enquanto, pessoa amiga: não é o vírus que está me matando.
Pense nisso.
Atravessei um deserto pra chegar até aqui. É justo que me sinta cansado.
Isso é só um resumo. Mas se você tem família, amigos… está em vantagem. Eu não tinha nada disso. Como milhões, nas décadas de 80 e 90…
Eu, se pude — pudemos — vencer como vencemos, e não somos melhores do que ninguém, você também pode.
Força.
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