Homens invisíveis
Homens invisíveis: é urgente actuar na comunidade de homossexual dos países do Hemisfério Sul
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Gus Cairns, Monday, August 04, 2008
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“Esta epidemia não pára de nos surpreender. Se olharmos para qualquer grande cidade da Ásia, verificamos hoje a existência de uma epidemia de VIH entre os homens que têm sexo com homens (HSH) – uma epidemia que me recorda aquilo que observámos nos EUA e na Europa na década de oitenta. A infecção pelo VIH está a aumentar agora tão rapidamente neste homens como o que aconteceu então.” Este foi o aviso de Peter Piot, Director em fim de mandato da ONUSIDA, no simpósio satélite sobre homens homossexuais /HSH, que precedeu o início da Conferência Mundial de SIDA, na cidade do México.
Os homens invisíveis: homossexuais e outros homens que têm sexo com homens e a epidemia de VIH a nível global, foi o tema de uma mini conferência organizada pelo Fórum Global sobre HSH e VIH (ver http://www.msmandhiv.org), que juntou cerca de 500 delegados de todos os continentes. A reunião de dois dias, foi organizada em torno de sessões plenárias, de 24 sessões simultâneas, apresentações de investigação científica sob formato de posters, sobre temas como a defesa dos direitos, os programas de VIH dirigidos aos HSH, maioritariamente do hemisfério Sul.
A reunião aconteceu antes da Conferência Mundial de SIDA, que se espera que reflicta largamente os aspectos da comunidade homossexual, como nunca anteriormente aconteceu.
David Wilson, epidemiologista do Banco Mundial, na área do VIH/SIDA, contextualizou as palavras de Peter Piot numa apresentação na sessão plenária, onde abordou a epidemiologia de VIH entre os homossexuais/HSH em todos os continentes.
Ele explicou que quando se avaliou as comunidades de HSH, a prevalência de VIH era, sem excepção, maior que na população em geral, mesmo nos países com epidemias generalizadas.
Quanto mais baixa era a prevalência de VIH na população em geral, maior era a disparidade entre esta e a prevalência entre a comunidade homossexual. Assim, entre os únicos quatro países de África avaliados (Quénia, Senegal, Sudão e África do Sul), os homossexuais estavam 3,8 vezes mais infectados pelo VIH que a população em geral; na Ásia, 18,7 vezes mais e nas Américas, 33,3 vezes mais infectados.
A prevalência era alta nesta comunidade, mesmo nos países que quase não apresentavam infecção na população em geral; um inquérito realizado em Alexandria no Egipto, por exemplo, encontrou uma prevalência de 6,5% na comunidade homossexual, sendo a prevalência geral do país de 0,01%.
De acordo com Peter Piot, Wilson referiu que, em algumas partes do mundo, a prevalência nos HSH está a subir de forma muito rápida. Inquéritos anuais realizados em Pequim, por exemplo, mostram que a prevalência do VIH nos homossexuais subiu anualmente de 0,8% em 2001 para 5,8% em 2006, e em Bangkok saltou de 17% em 2003 para 28% em 2005 (em 1990 este valor entre os homossexuais tailandeses era de 3%).
Estas aparentes novas epidemias ocorrem em países que, com frequência, reduziram com sucesso a prevalência do VIH entre as trabalhadoras de sexo e os seus clientes, acrescentou o epidemiologista. Na América do Sul, a prevalência do VIH era dramaticamente mais elevada entre os homossexuais do que nas trabalhadores de sexo, variando entre 7% e 27%, dependendo dos países, enquanto que a prevalência nas trabalhadores de sexo era de 7%.
Na Tailândia, por exemplo, a prevalência do VIH nas trabalhadoras de sexo e nos seus clientes atingiu um pico em 1993. Um inquérito realizado em Mombaça, Quénia, que comparou a prevalência nas trabalhadoras de sexo e nos homossexuais, verificou que a infecção pelo VIH era mais elevada no primeiro grupo (32% versus 23%), mas a incidência do VIH era consideravelmente mais elevada nos HSH (8,6%/ano versus 2,3% nas trabalhadoras de sexo).
“A epidemia entre as trabalhadoras de sexo é uma velha epidemia que esta a abrandar lentamente, enquanto que a epidemia na comunidade homossexual está a ganhar amplitude”, referiu o orador. Em países onde o início da epidemia ocorreu entre os utilizadores de droga injectável (UDI), existe evidência da transmissão da infecção da comunidade UDI para a comunidade homossexual. Num estudo realizado no Vietname, por exemplo, a prevalência entre os HSH em geral era de 5-9%, mas entre os homossexuais que injectavam droga era de 26-28%.
Uma surpreendente alta prevalência de injecção de droga foi também encontrada num estudo recente realizado entre os homossexuais do Malawi (ver notícia). Este estudo constatou igualmente que a bissexualidade era a regra e não a excepção e Wilson acrescentou que nos inquéritos realizados na Ásia, a proporção de HSH que também tem sexo com mulheres varia entre 22%,na China, e 70% no Cambodja. Existem portanto condições para que a epidemia entre a comunidade homossexual alastre para a população feminina.
Existem menos programas de prevenção dirigidos aos homossexuais em comparação com os outros grupos vulneráveis à infecção pelo VIH, segundo Wilson. A ONUSIDA calcula que 60% das trabalhadoras sexuais, 46% dos UDI e 40% dos HSH nunca foram abrangidos por qualquer programa de prevenção. Estes programas dirigidos à comunidade homossexual podem ser altamente custo-eficazes, segundo o epidemiologista. Calcula-se que o gasto estimado ganho, de acordo com o Disability – Adjusted Life Year (DALY), com as diferentes intervenções na Ásia, seria de 3 dólares no grupo das trabalhadoras de sexo (porque são mais fáceis de atingir e o uso de preservativo é eficaz), de 39 dólares nos programas de redução de risco nos utilizadores de droga injectável e de 74 dólares dos programas dirigidos à comunidade homossexual.
A evidência da eficácia da prevenção do VIH entre os HSH no hemisfério do SUL só agora é conhecida, mas segundo o orador, desde a introdução do uso do preservativo e da prevenção do VIH em 2002, nos programas dirigidos à comunidade homossexual da Indonésia, o uso do preservativo duplicou em 2004 (de 30% para 60% no último episódio de sexo anal).
Um poster que será apresentado mais tarde na Conferência Mundial de SIDA irá mostrar que a prevalência da infecção pelo VIH e das infecções de transmissão sexual entre os homossexuais no Senegal diminuiu significativamente entre 2004 e 2007, nos jovens entre os 21 e os 25 anos. A proporção de HSH que alguma vez participou em programas de prevenção do VIH aumentou de 23 para 60% e a redução dos comportamentos de risco relacionados com a infecção pelo VIH relaciona-se de forma significativa com a participação nos programas de prevenção, de acordo com o mesmo autor do poster (Wade).
Do ponto de vista organizativo, o trabalho dirigido à comunidade homossexual está a ser tomado em mãos, pela primeira vez, por uma das agências das Nações Unidas, o Programa para o Desenvolvimento, tendo o director executivo fundador da International HIV/AIDS Alliance, Jeff O’Malley, decidido dirigi-lo. Até à data, nenhuma agência das Nações Unidas tinha tomado em mãos especificamente o trabalho dirigido aos HSH.
O’Malley formulou a seguinte pergunta retórica “como é que o mundo parece só ter redescoberto, ontem, que existe uma epidemia entre os homens que têm sexo com homens e nos transgéneros no hemisfério Sul, tal como existe no hemisfério Norte?.”
E continuou afirmando “O jornal Washington Post pensa que a conferência do México poderá s
er
a que irá colocar o tema do VIH e os homossexuais no palco principal, tal como a conferência de Durban fez no que se refere à epidemia na África Austral.”
Acrescentou o seguinte comentário “a direcção democrática do programa da agência das Nações Unidas para o Desenvolvimento tornou prioritária a promoção dos direitos humanos das populações excluídas e marginalizadas e assumiu o compromisso de assegurar que tal inclui as minorias sexuais.”
Peter Piot concordou e concluiu o seu discurso dizendo: “Em muitos países poderemos estar a atingir o momento em que é possível trabalhar com a comunidade homossexual e os resultados devem-se ao trabalho de defesa dos direitos”.
Referência:
Wade A et al. Reduction in risk behaviours amongst MSM in Senegal after targeted prevention interventions. XVII International Conference, Mexico City. Poster abstract THPE0349. 2008
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