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15/MARÇO/08 |
No Museu Nacional, encontro entre Augusto Boal e seus discípulos demonstrA o poder transformador do Teatro do Oprimido no pensamento e na prática cênica
Ricardo Daehn
Da equipe do Correio
Às vésperas de completar 77 anos, com festejo previsto para amanhã, o teatrólogo Augusto Boal, na passagem por Brasília, há dois dias, não deixou de ouvir o Parabéns pra você adiantado, num coro formado por estudantes de artes cênicas da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes e da Universidade de Brasília. Cercado por mais de 550 entusiasmados alunos, o aniversariante, na verdade, foi quem trouxe o presente: candidato ao Prêmio Nobel da Paz, o diretor artístico do Centro de Teatro do Oprimido, generosamente, e com o característico vigor, dividiu os conhecimentos na chamada Mostra Pública de Resultados, realizada no Museu Nacional. “Sou um homem da paz. Mas a paz tem um inimigo: a passividade”, disse o mestre, numa antecipação do corre-corre, com dose de exaltação positiva, que tomou conta do auditório do museu.
Na base da dinâmica de três grupos ligados ao projeto Teatro do Oprimido de Ponto a Ponto, estava a intervenção direta dos espectadores sobre breves esquetes apresentados. Satisfeito por ver na prática o que só havia lido nos livros teóricos de Boal ou ouvido nas salas universitárias, o estudante de artes cênicas da UnB Victor Abrão comemorava o contato vivo com os democráticos parâmetros do Teatro do Oprimido: “É um princípio simples, mas com resultados incisivos. Um olhar lançado sobre isso traz conseqüências muito bonitas. Você pára para pensar em problemas que não são necessariamente individuais. Partindo do fictício, você pode vir a mudar a vida real. Isso sai marcado nas pessoas”. “O Teatro do Oprimido foi criado com outros teatros de improviso, todos feitos em tempos de protesto”, complementou João Victor Morgado, 22 anos, em processo de licenciatura em arte-educação (UnB).
“Desejamos que a platéia abandone a sua prisão, que é a poltrona. No Teatro-Fórum, depois que alguns entram no palco, pegam o gosto e tendem a ser protagonistas na vida”, explicou Boal. Ele acompanhou com amplo sorriso todas as interferências dos envolvidos no evento, que demostrou o entrosamento de multiplicadores da fundamentação teórica de Boal, capacitados para atuarem no Pólo Centro-Oeste, sob coordenação dos curingas (título dos versados no universo de Boal) Helen Sarapeck e Geo Britto. Ligada há 18 anos à técnica do guru, Helen aprovou a reação dos ativos (ex-)espectadores locais. “É um público que polemiza. A gente não veio trazer verdades. A platéia se mostrou incomodada e isso pode até lembrar bagunça, mas ter inquietação é ótimo”. A maior lição da convivência de Helen com o teórico do teatro está na ponta da língua: “Ele fez com que eu me enxergasse como um ser humano capaz”.
No interior do museu, pipocavam os resultados de um teatro proposto como instrumento lúdico, pleno de questionamentos e eficaz no teor de mobilização. Tudo vem calcado no espírito libertário sufocado pelo exílio de Boal na Argentina, naqueles duros anos 1970. “É um mecanismo de transformação social. Nada fica condensado no palco, tudo que é visto pode ser levado ao dia-a-dia, na busca de soluções”, comentou o ator Eduardo Rosário, vinculado à temática do mestre carioca há três anos.
O repertório gerido pelo Teatro do Oprimido se aglomera na escala da progressão geométrica de sua expansão. Os assuntos partem de grupos que vão de pacifistas palestinos a membros de sindicatos e associações, atingindo ainda detentos, familiares, quilombolas e doentes mentais, entre incontáveis outros segmentos. Vale a lembrança de que as estimativas apontam mais de 300 grupos entrosados com a sistemática proposta por Boal. No mundo, as idéias dele alcançam cerca de 70 países e, mundo afora, mais de 30 publicações traduzem “a forma de pensar chamada arte”.
Alguns livros, por sinal, chegam ao Brasil depois de editados no exterior, como A estética do oprimido, com versão em português prevista para o fim do ano. “Estética é a comunicação através dos sentidos”, sintetiza Augusto Boal. Como mostra da relevância do trabalho desenvolvido, basta saber que, em Calcutá (Índia), 12 mil pessoas aderiram a uma marcha, na fundação da Associação Indiana de Teatro do Oprimido.
Movidos por mudanças
Com os sentidos aguçados no encontro na capital, pouco antes de entrarem em cena, sob o olhar atento do estudioso de teatro, um grupo de 20 atores dava, numa forma de roda, as coordenadas do combustível de Boal: “amor”, definia um; “caridade”, acrescentava o outro; “generosidade”, “diálogo”, “mudança” e, culminando, “vitória” foram outras palavras destacadas pelos multiplicadores do “jogo” do teatrólogo. Depois da exibição de três cenas levantadas por entidades ligadas ao projeto Teatro do Oprimido de Ponto a Ponto, como a Faculdade Dulcina de Moraes, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e a Escola de Teatro de Anápolis, os supostos espectadores foram convidados a expandir a criatividade, tomando parte nas cenas com temas que foram da discriminação ao abuso sexual infantil.
No Teatro-Fórum proposto, o esquete Invasão foi o grande objeto de interferências da motivada platéia. “Às vezes, essas intervenções feitas no palco podem mudar a vida de uma pessoa. Pelo método que ele implantou, o Boal é unanimidade no nosso grupo”, comentou a atriz Rafaela Mendes, 19 anos, da companhia Trupe em Cena (de Samambaia). “É uma palestra muito útil”, acrescentou a estudante de artes cênicas da UnB Júlia Fagundes, interessada em “teatro político”. “Boal é um ícone de arte-educação. Acho incrível a possibilidade de discussões levantadas por uma cena, que vão da questão de gênero às abordagens raciais. Como educadora, eu preciso disso para melhorar um pouco a educação no Brasil”, completou.
Entrevista – augusto boal
Resistências quebradas
Ricardo Daehn
Da equipe do Correio
Politizado por natureza, o teórico do teatro Augusto Boal apóia um governo brasileiro pela primeira vez na vida. Entretanto, ele reforça que nunca se preocupou com a divisão entre direita e esquerda. “O importante é que existem leis, atitudes e atos concretos a favor da população pobre. E existem aqueles a favor dos ricos, para que fiquem mais ricos ainda”, avalia. Daí, nem tudo são flores no prisma atual do artista, que goza de reconhecimento em países tão distintos quanto França, Venezuela, Suécia e Guiné-Bissau – todos forças de uma corrente que o faz candidato ao Nobel da Paz.
“Atualmente, alguns ministérios brasileiros estão submetidos a uma burocracia que impede o desenvolvimento real dos projetos que a gente apresenta”, denuncia. E emenda: “A arte é criativa, ela não pode ser amarrada em coisas pré-estabelecidas, caso contrário, deixa de ser arte e passa a ser a reprodução mecânica de algo”. Na essência, de ampla expressão democrática, o Teatro do Oprimido de Boal convida à participação e à queda de amarras. “No mundo, não existe o mais opressor. Não se tem um cavalo de corrida em ação. Existem, no Brasil, aqueles que são saudosos da ditadura e aqueles que odiaram e lutaram contra ela e que procuram criar espaço cada vez maior para a democracia”, avalia.
Diante da extensa difusão do seu teatro, é possível zelar por um ‘controle de qualidade’?
Um controle de qualidade não existe num movimento que é de massa, mundial. Nem Jesus Cristo tinha esse controle de qualidade, e é por isso que uma parte resultou na Inquisição e outra nos absurdos que diz o Papa sobre o problema do aborto e da prevenção da Aids. Jesus Cristo teria dito “Usem camisinha”, tenho certeza. Então, o controle de qualidade não existe. Existe é a intenção nossa de cada vez mais ajudar as pessoas que entendam bem o que é o Teatro do Oprimido para que o façam cada vez melhor. Estamos sempre à disposição, nunca no sentido policial de controlar, mas no pedagógico, de ajudar.
O senhor acredita que há chances no reconhecimento com o Nobel? Há vaidade nesse processo?
Chances todos os candidatos têm. Se um dia vier a ganhar, ficaria bastante orgulhoso com isso. Mas não ficaria vaidoso. Já estou extremamente orgulhoso de que minha candidatura, proposta por pessoas que eu nem sequer sabia que estavam propondo, foi defendida por pessoas do mundo inteiro dos cinco continentes, em mais de 70 países. Sou orgulhoso pelo fato de aquilo que comecei, hoje, ser praticado por dezenas de centenas de milhares de pessoas no mundo inteiro.
O que mudaria com o Nobel?
O futuro não sei, mas evidentemente mudaria a conta no banco (risos). Nada mudaria, porque as coisas já mudaram: o fato de ser candidato já faz com que o Teatro do Oprimido seja visto de uma maneira diferente. Em alguns lugares, existia resistência acadêmica ao Teatro do Oprimido. Agora, quase não existe mais. E onde existe, é por conta de falta de informação. Depois que as pessoas se informam, vêem que é bom para todo mundo o Teatro do Oprimido.
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