Muçulmanos gays encontram alguma liberdade nos EUA

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Muçulmanos gays encontram alguma liberdade nos EUA

08/11/2007:

(Ayman, um muçulmano gay, participa de parada gay em São Francisco )

Neil MacFarquhar

Cerca de 15 pessoas marcharam com o carro alegórico muçulmano na Parada do Orgulho Gay de São Francisco, conhecida por sua liberdade de expressão, alguns meses atrás. Eram homens que portavam bandeiras do Egito, Líbano, Palestina, Turquia e até o velho pavilhão imperial iraniano.

 

Enquanto outros carros alegóricos transportavam homens em calções de banho sumários, em couro, e mulheres que mal ocultavam os mamilos com fita adesiva, muitos dos muçulmanos estavam disfarçados por grandes óculos de sol, ou usavam chapéus e até albornozes que lhes deixavam apenas os olhos à mostra.

Ainda que eles apreciem a liberdade recentemente conquistada, especialmente se comparada à situação que viviam no Oriente Médio, quase todos ainda vivem no armário, preocupados com a possibilidade de sofrer ostracismo nas mesquitas ou nas barracas de falafel que freqüentam.

"Eles temem o resto da comunidade,
Mahmoud Ahmadinejad discursou e mencionou a questão na Universidade Colúmbia. aqui", disse Ayman, 31 anos, um jordaniano corpulento que obteve asilo nos Estados Unidos um ano atrás devido à sua opção sexual. "Nossa escolha é vista como grande erro, pelo Corão, que seria impossível que fôssemos aceitos".

Para os muçulmanos gays, a mudança pode surgir por meio do desenvolvimento de um campo de estudos ainda incipiente sobre comunidades islâmicas minoritárias, que está dando ímpeto a uma reavaliação dos textos sacros usados para condenar a homossexualidade.

Em centros tradicionais de estudos islâmicos, como o Egito e o Irã, a punição a atividades homossexuais explícitas, para não mencionar tentativas de criar um movimento em defesa dos direitos dos homossexuais, pode ser severa. Os governos desses países estão propensos a definir homossexualidade como um fenômeno característico do Ocidente, que foi o que aconteceu em setembro, quando o presidente iraniano

Mas existe muito mais liberdade para estudar o tópico em lugares nos quais os direitos dos homossexuais contam com proteções mais firmes.

Como regra, os ativistas gays não dispõem da formação acadêmica necessária a esquadrinhar os ensinamentos reverenciados pelos muçulmanos. Mas isso está começando a mudar, dizem os ativistas, em parte porque, no Ocidente, não existe uma hierarquia religiosa rígida que proíba esse tipo de pesquisa.

Mesmo assim, conquistar aceitação continua a ser uma barreira forte a ponto de causar hesitação aos muçulmanos dos Estados Unidos.

Imam Daayiee Abdullah, 53 anos, se converteu ao islamismo mas foi expulso de um seminário financiado pela Arábia Saudita, na Virgínia, depois que a escola descobriu que ele era gay. Seus esforços para organizar uma mesquita gay em Washington fracassaram, em larga medida por medo, ele diz.

"Temos pessoas que dizem que explodiriam uma mesquita se ela fosse uma mesquita gay", disse Abdullah. Ele e outros estudiosos argumentam que não existe registro indisputável que de o Profeta Maomé se tenha pronunciado sobre a homossexualidade, e que exemplos de punição certamente existiriam caso ele tivesse sido hostil à idéia.

Reproduzindo o que acontece na escola de pensamento feminista quanto ao islamismo, os defensores da causa gay procuram por uma interpretação holística, que enfatize a aceitação de todos como igualmente criados por Deus.

A maior parte dos versículos do Corão que tratam de relações homossexuais são ambíguos, disse Omid Safi, professor de estudos islâmicos na Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill. "Eles estão falando sobre uma “abominação”", diz Safi, "mas determinar o que é essa abominação continua a ser uma questão aberta a interpretação".

Já que os versículos do Corão usados para condenar a homossexualidade também sugerem estupro praticado por homens, a interpretação progressista é a de que eles condenam o uso do sexo como forma de dominação, disse Scott Kugle, norte-americano que se converteu ao islamismo e é especialista no tópico. Os argumentos não são inteiramente modernos; alguns deles foram extraídos do trabalho de um estudioso medieval, na Andaluzia, que no passado abrigou um regime islâmico esclarecido, ele afirma.

A atitude clássica com relação às lésbicas é ainda mais opaca, acrescenta Kugle, porque sexo, em termos islâmicos, é definido como penetração.

A hostilidade se funda na versão islâmica da história de Lot, que se assemelha ao relato bíblico sobre Sodoma e Gomorra. Na mesquita Al-Tawhid, em San Francisco, o imã, Hassan al-Jalal, um iemenita que usa uma barba curta, imprime uma série de versículos que, em sua interpretação, condenam os homossexuais.

"Esse é o principal pecado, no Islã", afirmou Jalal, descrevendo como a cidade que abrigava a tribo de Lot foi erguida ao céu e arremessada ao chão, matando todos os moradores, antes de ser enterrada sob o que hoje é o Mar Morto. "Ele enviou o dilúvio para limpar a Terra da Aids. Não havia médicos, então, mas Deus sabia que eles tinham um vírus".

Todas as seitas muçulmanas dispõem pena de morte para os gays, ele argumenta, embora muitos outros estudiosos discordem.

Ayman, o organizador da participação muçulmana na parada de San Francisco, diz que sua vida na Jordânia era marcada pelo amigo. Ele foi detido aos 17 anos, depois de um encontro sexual em um edifício público, e a polícia o descreve como "manyak", um termo derrogatório quanto aos homossexuais, em sua ficha. Ele negou que fosse gay, mas temia que algum parente descobrisse o que consta em sua ficha policial.

Ayman está convencido de que um amigo gay de 22 anos, que morreu em uma queda do edifício em que morava, na verdade foi assassinado para preservar a "honra" da família. "Sinto-me muçulmano, ainda; não aceito que ninguém insulte minha fé", ele diz. "Quando leio o que o Corão diz, tenho medo do que me acontecerá no dia do Juízo Final".

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME


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