Muitos homens gay seropositivos para o VIH têm síndrome de stress pós-traumático

Hoje: 5 · Últimos 7 dias: 11 · Últimos 30 dias: 11 · Este ano: 11 · Desde 26/09/2010: 270
Michael Carter
Investigadores ingleses publicam na AIDS Patient Care and STDs que um terço dos homens gay seropositivos para o VIH têm síndrome de stress pós-traumático. Episódios que incluem o início da toma da terapêutica anti-retroviral, doenças relacionadas com o VIH e o testemunho de uma morte associada ao VIH foram relacionados com o desenvolvimento de sintomas associados a perturbações de stress pós-traumático. Respostas emocionais a estes episódios – em substituição da ameaça física – foram relacionadas com o desenvolvimento de sintomas de stress pós-traumático. “Uma variedade de episódios relacionados com o VIH podem ser fortemente traumatizantes para algumas pessoas” comentam os investigadores.

Doenças com risco de vida são reconhecidas como possíveis factores de stress que podem conduzir ao desenvolvimento de perturbações de stress pós-traumático. Numa fonte bibliográfica estandardizada sobre o diagnóstico de perturbações mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 4th Edition Text Revision) tal é definido como “experiência pessoal, testemunhada ou confrontada com uma ou mais situações ou episódios que envolveram ameaça ou morte, ou prejuízo grave ou ameaça à integridade física própria ou de outros”, com uma resposta emocional do indivíduo envolvendo “medo, impotência ou horror”.

Os investigadores pretendiam observar se um vasto número de episódios relacionados com o VIH estava associado ao desenvolvimento de perturbações de stress pós-traumático. Colocaram a hipótese de a vivência de um ou mais episódios estar relacionado com sintomas de stress pós-traumático, e se a suposta ameaça ou stress emocional estaria associado a estes sintomas. Pretendiam também observar se as emoções relacionadas com a vergonha eram associadas aos sintomas de síndrome pós-traumático.

O estudo incluiu 100 homens gay seropositivos para o VIH. Estes indivíduos auto-propuseram-se, recolhendo o seu questionário através de um estudo nos serviços de saúde para o VIH ou na internet.

Os doentes tinham uma média de idade de 43 anos, com um número de anos desde o diagnóstico de oito, a maioria (95%) era caucasiana, 68% tinham educação superior, 47% estava empregada e 56% definia-se solteiro.

No total, 33% da amostra correspondia aos critérios de selecção de perturbações de stress pós-traumático.

Cerca de metade da amostra (55%) reportou que o seu diagnóstico foi um momento traumático, 40% afirmou que os sintomas de doenças relacionadas com o VIH causaram trauma e 30% afirmou estar traumatizado com a morte relacionada com o VIH. Outros episódios traumatizantes incluíram o início da toma da terapêutica anti-retroviral (19%), ter efeitos secundários (29%) e a divulgação do estatuto serológico positivo (15%).

Ter sintomas relacionados com o VIH foi associado com sentimentos de ameaça física, levando ao desenvolvimento de perturbações de stress.

Para todas as outras medidas de perturbações emocionais – medo, impotência ou horror – foram associadas a sintomas de stress pós-traumático.

A única característica sócio-demográfica associada com o aumento do risco em relatar sintomas de stress pós-traumático foi estar desempregado ou em vias de perder o emprego (p < 0.05).

Os sintomas físicos (p < 0.01) e o testemunhar uma morte associada ao VIH (p < 0.05) foram  significativamente associados aos sintomas de stress pós-traumático. Os investigadores acreditam que tais experiências podem, imediatamente, recordar “directamente a ameaça causada pelo VIH”.

Os investigadores ficaram surpreendidos com as conclusões de o tratamento anti-retroviral (p < 0.01) ser fortemente associado a sintomas de stress pós-traumático. Algumas pessoas (27%) encararam o tratamento como uma ameaça física. Os investigadores especularam que poderia haver “expectativas dramáticas sobre o que as limitações [tratamento] podiam impor nas ocupações sociais e laborais, levando ao trauma do medo, ou à percepção de falhar em…impotência nos estilos de vida.

A inclusão de emoções relacionadas com a vergonha na análise do estudo aumentou, modestamente, a proporção de doentes em que se poderia afirmar terem vivido um episódio traumático.

As pessoas que vivem com VIH podem ter longos períodos de bem-estar e estabilidade, observam os investigadores. Contudo, sugerem que receber um resultado positivo do teste ou testemunhar uma doença relacionada com o VIH ou morte pode causar “um medo intenso, impotência ou horror” que pode prenunciar o desenvolvimento de sintomas de stress pós-traumático. Recomendam que os médicos infecciologistas devem estar atentos a sintomas tais como “reviver episódios, isolamento social e fragilidade emocional.”

Nas limitações do estudo foi incluído a estrutura transversal. Os investigadores também reconhecem não terem sido capazes de controlar potenciais factores de confusão como o apoio social, stress não relacionado com o VIH, estigma, episódios stressantes e historial de problemas mentais e de saúde.

Mas, mesmo assim, os investigadores acreditam que o estudo acrescenta dados à literatura que associa o stress pós-traumático relacionado com o VIH e que este é “primeiramente associada ao medo, impotência ou horror em oposição à vergonha, humilhação ou culpa”.

Referência

Theuninck AC et al. HIV-related posttraumatic stress disorder: investigating the traumatic events. AIDS Patient Care and STDs, 24: 485-91, 2010.
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