Cortar verbas de HIV é abrir de novo a porta do cemitério
Eu li na POZ, numa matéria de Eva Lorenz publicada em 26 de junho de 2026, que estados americanos estão sob pressão financeira depois de cortes federais em programas de HIV.
E preciso dizer uma coisa antes que o sangue me suba de novo:
isso não é uma notícia distante.
Isso não é “problema dos Estados Unidos”.
Isso não é linha de orçamento.
Para quem vive com HIV, para quem viu a AIDS chegar sem pedir licença, para quem enterrou amigos, amores, conhecidos, desconhecidos e pedaços de si mesmo, corte em programa de HIV não é economia.
É ameaça.
É recado.
É a velha porta do cemitério rangendo outra vez.
Segundo a POZ, programas como o Ryan White HIV/AIDS Program, que financia serviços de cuidado, tratamento e apoio a pessoas vivendo com HIV nos Estados Unidos, vêm sofrendo cortes e pressões desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca. O texto menciona também impactos sobre o PEPFAR, programa americano que apoia o enfrentamento do HIV fora dos Estados Unidos.
E aqui eu preciso respirar.
Porque há palavras que, para alguns, são apenas siglas.
Para mim, não.
HIV não é sigla.
AIDS não é sigla.
Tratamento não é sigla.
Adesão não é sigla.
Carga viral indetectável não é sigla.
PEPFAR não é sigla.
Ryan White não é sigla.
São vidas.
São comprimidos chegando na mão de quem precisa.
São consultas marcadas.
São exames feitos.
São pessoas pobres conseguindo permanecer em tratamento.
São equipes que buscam quem desapareceu do serviço.
São assistentes sociais segurando gente pela beirada do abismo.
São programas que impedem o vírus de encontrar, de novo, a avenida aberta.
Quando um governo corta verba de HIV, ele não corta “gasto”.
Ele corta vínculo.
Corta consulta.
Corta transporte.
Corta moradia.
Corta saúde mental.
Corta apoio odontológico.
Corta busca ativa.
Corta prevenção.
Corta PrEP.
Corta PEP.
Corta teste.
Corta a chance de uma pessoa continuar indetectável.
E quando uma pessoa deixa de estar indetectável, não é só ela que perde. A sociedade inteira perde.
A epidemia agradece.
O vírus, se tivesse boca, aplaudiria de pé.
O Sofrido Drama da Janela Imunológica Eterna e Minha Resposta para Ryan
Ryan White: o nome de um menino que virou política pública
O programa Ryan White nasceu de uma história que todo mundo que trabalha com HIV deveria conhecer.
Ryan White era um adolescente americano com hemofilia. Contraiu HIV por transfusão de sangue nos anos 1980, quando o preconceito era uma segunda epidemia, tão cruel quanto o vírus. Foi expulso da escola, discriminado, tratado como ameaça ambulante.
Ryan morreu em 1990.
Mas seu nome virou lei.
Virou programa.
Virou cuidado.
Virou uma das principais estruturas de apoio a pessoas vivendo com HIV nos Estados Unidos, especialmente pessoas de baixa renda.
E agora querem desmontar isso?
Querem cortar exatamente aquilo que mantém as pessoas em tratamento?
Querem mexer numa engrenagem que funciona?
Funciona.
E isso é o mais revoltante.
Porque não estamos falando de um programa inútil, de propaganda vazia, de placa em porta de ministério. Estamos falando de cuidado real. De gente que recebe atendimento. De gente que consegue medicamento. De gente que permanece viva.
Quase metade das pessoas diagnosticadas com HIV nos Estados Unidos recebe algum serviço ligado ao Ryan White.
Quase metade.
Tire isso da equação e veja o que acontece.
Aliás, nem precisa imaginar. Pesquisadores já modelaram o desastre: acabar com esses serviços poderia provocar dezenas de milhares de novas infecções por HIV até 2030.
Tradução para quem prefere português sem anestesia:
cortar Ryan White é fabricar novas infecções.
É pegar uma epidemia que a ciência aprendeu a controlar e entregar de volta ao improviso, à pobreza e à política pequena.
O nome disso não é austeridade. É crueldade.
Eu conheço esse filme.
Conheço pela pele.
Conheço pelo prontuário.
Conheço pela memória.
Conheço pela noite em que a gente procurava notícia boa e só encontrava obituário.
Conheço pelo tempo em que tratamento era promessa, fila, protocolo, liminar, favor, susto, boato, esperança e medo.
Conheço pela fase em que a AIDS não era doença crônica controlável.
Era sentença.
Era contagem regressiva.
Era olhar para o corpo tentando adivinhar qual infecção oportunista viria primeiro.
Então, quando vejo governantes tratando verba de HIV como se fosse gordura para cortar, eu quase passo mal.
Não é exagero.
É memória corporal.
É TEPT histórico de uma geração que viu a morte trabalhar em horário comercial e plantão noturno.
E aí olho para o Brasil.
Olho para nossos próprios riscos.
Olho para político que acha bonito se ajoelhar diante de Trump.
Olho para essa submissão ideológica travestida de “alinhamento internacional”.
E me dá um calafrio.
Porque o Brasil tem uma das histórias mais importantes do mundo no enfrentamento do HIV.
O SUS, com todos os seus problemas, defeitos, filas, buracos, esperas e humilhações, construiu algo que muitos países não tiveram: tratamento universal, distribuição de antirretrovirais, política pública de testagem, prevenção, acolhimento, assistência.
O Brasil não pode brincar de importar atraso.
Não pode.
Não depois de tudo.
Não depois dos mortos.
Não depois das casas de apoio.
Não depois das ONGs.
Não depois das liminares.
Não depois das noites esperando carga viral.
Não depois da luta para transformar HIV em vida possível.
Cortar HIV é cortar futuro
A ciência já nos deu o caminho.
Diagnosticar.
Tratar.
Prevenir.
Manter pessoas em cuidado.
Garantir medicamento.
Reduzir carga viral.
Ampliar PrEP.
Garantir PEP.
Combater estigma.
Fazer teste chegar a quem precisa.
Acolher quem tem medo.
Falar com quem está na madrugada, sozinho, tremendo diante de uma tela, digitando “peguei HIV?” como quem pede socorro sem saber a quem pedir.
É isso que funciona.
Não é mistério.
Não é magia.
Não é oração em gabinete.
É política pública.
E política pública precisa de dinheiro.
Essa é a parte que os falsos moralistas fingem não entender.
Querem resultado sem orçamento.
Querem epidemia controlada sem serviço.
Querem prevenção sem campanha.
Querem tratamento sem equipe.
Querem indetectável sem consulta.
Querem fim da AIDS sem pagar a conta do cuidado.
Não existe.
O vírus não negocia com planilha.
O vírus não respeita discurso.
O vírus não se comove com patriotada.
O vírus aproveita ausência.
Onde o Estado sai, o HIV entra.
Simples assim.
PEPFAR também é vida
E há ainda o PEPFAR.
O PEPFAR não é uma abstração americana. É um dos maiores programas globais de enfrentamento ao HIV. Em muitos lugares do mundo, ele significou tratamento, prevenção, testagem, estrutura, equipe, medicamento, sobrevivência.
Cortar o PEPFAR não é mexer numa rubrica internacional para agradar eleitor doméstico.
É colocar pessoas reais em risco real.
É dizer, na prática, que algumas vidas valem menos porque estão longe, são pobres, negras, africanas, periféricas, invisíveis ao eleitorado que bate palma para brutalidade.
Isso também é política.
E é uma política muito velha.
Velha como o abandono.
Velha como o racismo.
Velha como a ideia de que certas mortes são aceitáveis desde que aconteçam longe da sala de jantar.
A epidemia não acabou
Há uma mentira confortável circulando pelo mundo:
a de que a AIDS acabou.
Não acabou.
O que mudou foi a capacidade de tratar, prevenir e controlar.
Mas isso depende de continuidade.
Depende de serviço aberto.
Depende de medicamento disponível.
Depende de profissional treinado.
Depende de financiamento.
Depende de Estado.
Depende de não deixar a memória morrer.
Porque, quando a memória morre, a política pública vira alvo fácil.
Aí vem alguém de caneta na mão e corta aquilo que não entende, ou finge não entender.
Corta porque não viveu.
Corta porque não enterrrou.
Corta porque não viu.
Corta porque acha que pobre em tratamento é despesa.
Corta porque acha que vida vulnerável não dá voto.
Corta porque sabe exatamente o que está fazendo.
E essa talvez seja a hipótese mais terrível.
Eu não esqueço
Eu não esqueço o que era HIV antes do tratamento.
Eu não esqueço o que era esperar morrer.
Eu não esqueço o que era ouvir “seis meses de vida”.
Eu não esqueço a solidão.
Eu não esqueço a casa de apoio.
Eu não esqueço os nomes.
Eu não esqueço os corpos.
Eu não esqueço a cara de quem recebia diagnóstico como quem recebia uma pá de cal.
Por isso, quando leio que programas de HIV estão sendo estrangulados por corte de verba, eu não consigo fingir equilíbrio.
Não me peçam neutralidade diante de uma estupidez criminosa.
Não me peçam calma enquanto desmontam pontes que demoraram décadas para ser construídas.
Não me peçam moderação quando a palavra certa é indignação.
Porque cortar cuidado em HIV é mais do que erro administrativo.
É convite à tragédia.
É negligência com assinatura.
É matar devagar, por orçamento.
O Brasil precisa olhar para isso
O Brasil precisa olhar para isso com muita atenção.
Não para imitar.
Para não repetir.
Não podemos aceitar que a política brasileira, por submissão ideológica, vaidade diplomática ou bajulação de líder estrangeiro, comece a relativizar aquilo que salvou milhares de vidas aqui.
HIV não pode virar moeda de guerra cultural.
PrEP não pode virar pauta moralista.
PEP não pode virar favor.
Tratamento não pode virar prêmio para quem se comporta.
Camisinhas não podem virar escândalo.
Campanha de prevenção não pode virar vergonha.
Saúde pública não pode pedir licença para fanático.
O Brasil já pagou caro demais para aprender o básico:
quem trata, protege.
Quem testa, protege.
Quem informa, protege.
Quem acolhe, protege.
Quem corta, expõe.
Quem abandona, mata.
A porta precisa continuar aberta
O Soropositivo.Org nasceu para manter uma porta aberta.
Uma porta para quem tinha medo.
Uma porta para quem recebeu diagnóstico.
Uma porta para quem procurava janela imunológica.
Uma porta para quem tremia depois de uma exposição.
Uma porta para quem não sabia se chegaria vivo ao próximo aniversário.
Essa porta não pode ser fechada por ignorância, moralismo ou corte de orçamento.
Nos Estados Unidos, segundo a POZ, estados como Virgínia e Missouri já sentem a pressão dos cortes. Serviços falam em perda de financiamento, risco de lista de espera, redução de apoio, dificuldade para manter pessoas em tratamento.
Lista de espera em HIV é uma expressão obscena.
Porque o vírus não entra em lista de espera.
A vida não entra em lista de espera.
A carga viral não entra em lista de espera.
A transmissão não entra em lista de espera.
A pessoa precisa de cuidado agora.
Não depois do ajuste fiscal.
Não depois da eleição.
Não depois que o governante terminar de posar para fotografia com extremista.
Agora.
Conclusão: não se corta aquilo que mantém gente viva
Cortar programas de HIV é esquecer, de propósito, tudo o que a epidemia ensinou.
E a epidemia ensinou com cadáveres.
Ensinou com medo.
Ensinou com abandono.
Ensinou com preconceito.
Ensinou com ciência.
Ensinou com ativismo.
Ensinou com gente gritando na rua porque ninguém queria ouvir nos gabinetes.
A resposta ao HIV nunca veio de uma coisa só.
Veio de remédio.
Veio de pesquisa.
Veio de SUS.
Veio de serviço comunitário.
Veio de ONG.
Veio de médico.
Veio de enfermeira.
Veio de assistente social.
Veio de militante.
Veio de gente vivendo com HIV se recusando a morrer calada.
E é por isso que cortes assim não são apenas cortes.
São ataques à memória.
Ataques à ciência.
Ataques ao cuidado.
Ataques à vida.
Quem corta verba de HIV não está “equilibrando orçamento”.
Está empurrando gente para fora do tratamento.
Está criando novas infecções.
Está abrindo espaço para a AIDS voltar a fazer o que ela sempre soube fazer quando encontra abandono:
matar.
E eu, que deveria apenas ler a notícia, respirar fundo e seguir o dia, não consigo.
Porque eu sei.
Eu estava lá.
Eu estou aqui.
E enquanto eu tiver voz, texto, blog e alguma força nas mãos, vou repetir:
não se corta aquilo que mantém gente viva.
Dados que sustentam o texto: o relatório anual do Ryan White mostra 601.853 pessoas atendidas em 2024 e mais de 91% de supressão viral entre pacientes em cuidado médico pelo programa; uma modelagem publicada em 2025 estimou cerca de 75 mil infecções adicionais até 2030 se os serviços Ryan White fossem encerrados; e veículos como The Guardian e Reuters vêm reportando cortes e ameaças recentes a programas de HIV nos EUA e no exterior, incluindo PEPFAR.
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