<</<h3 align="center" <p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Às vésperas do dia em que se celebra a luta contra a epidemia que dizimou uma geração, saiba por que ela ainda mata 11 mil pessoas por ano no Brasil, duas décadas após o surgimento do AZT<p class="MsoHeader" <span Ofinal dos anos 80 deixou o Rio traumatizado.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Depois de tantas notícias assustadoras sobre um tal “câncer gay” que vinha exterminando homossexuais em todo o mundo, a <span Aids mostrava sua cara por aqui. Gente que dava um toque maravilha à cidade começava a ir embora: o artista plástico Jorge Guinle Filho, o carnavalesco Arlindo Rodrigues e o cineasta Leon Hirszman morreram em 1987; o cartunista Henfil e o irmão Chico Mário, músico, em 88; o cabeleireiro Silvinho e o ator Lauro Corona, em 89; Cazuza, no ano seguinte. Ao longo dos anos 90, mais razões para a cidade chorar: iam embora o ator Carlos Augusto Strazzer, em 93, o estilista Mauro Taubman, o coreógrafo Lennie Dale e os atores Caíque Ferreira e Claudia Magno, em 94, e Renato Russo, em 96. Era a face mais conhecida de um vírus que não dava tréguas.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Famosos no auge de suas carreiras eram obrigados a expor em público a imagem da <span Aids — rostos encavados e corpos esquálidos — que ficou impressa na memória daquela geração. Foram silenciados, muitos sem jamais admitirem a infecção, numa época em que não havia medicamentos eficazes contra o <span HIV. As pessoas adoeciam e morriam rápido demais. Desde que o Zidovudine, vulgo AZT — aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) há exatos 20 anos, em 1987 — surgiu no cenário internacional como a primeira arma capaz de conter o avanço devastador que o <span HIV provoca no organismo, os portadores contam com mais recursos para enfrentar a batalha. O AZT abriu caminho para uma série de novas drogas que, combinadas, ajudam a dar ao soropositivo uma qualidade de vida que parecia impensável há duas décadas.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Hoje, convive-se com uma certa invisibilidade de uma epidemia que, se já não obriga tantas pessoas públicas a se exporem, assombra um número estimado em 600 mil <span HIV positivos no país. Mas há quanto tempo ninguém canta que “o meu prazer agora é risco de vida”, como fez Cazuza? O assunto, às vésperas do dia em que se celebra a luta contra a epidemia que dizimou uma geração, saiba por que ela ainda mata 11 mil pessoas por ano no Brasil, duas décadas após o surgimento do AZT a Aqui, a oferta de preservativos segue caminhos próprios.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Em comunidades carentes do Rio, têm papel importante as agentes de saúde voluntárias conhecidas como as “tias da <span camisinha”. Moradora do Morro da Cotia, a dona de casa Geni Rodrigues de Assis, de 63 anos, é uma delas. Em casa, na associação de moradores, nos pontos de ônibus, ela repassa as <span camisinhas que recebe do governo.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Nos postos da rede municipal, são distribuídos os preservativos enviados pela União, para quem participa de programas de prevenção e para os soropositivos cadastrados (uma cota mensal de 20 preservativos). Em farmácias e supermercados da rede privada, custam em média R$ 3, a embalagem com três.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span — As máquinas de preservativos são comuns nos países riscos. Aqui é uma possibilidade futura — admite Ricardo Wolff, gerente de marketing da Jontex.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span No Dia Mundial de Luta Contra a <span Aids, em 1º de dezembro, haverá uma cerimônia unindo a CNBB e o Ministério da Saúde, no Cristo Redentor. A estátua receberá o laço vermelho que serve de alerta para o combate mundial à epidemia. Não deverá haver doação de preservativos.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Aqui, a principal campanha de distribuição de <span camisinhas, feita pelo governo federal, fica restrita ao carnaval.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Para o francês Gilles Lascar, dono da Le Boy, a boate gay mais famosa da cidade, todas essas campanhas têm cara de “Se beber, não dirija”.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span — São chatas, caretas — diz ele, que nunca fez exame de <span HIV, antes porque tinha medo de se ver positivo, e agora porque não tem interesse em saber. — Sei que, se eu tiver, só vou me tocar tarde demais. Não se fala sobre <span Aids, parece que já passou. E não deveríamos esperar pelo governo. Os próprios empresários não fazem nada, e a garotada não está preocupada com esse assunto.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Mariângela Simão, diretora do Programa Nacional de <span DST e <span Aids, do Ministério da Saúde, diz que há campanhas locais o ano inteiro.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span — As ações de mídia é que são concentradas no dia 1º de dezembro e no carnaval. Este ano, o foco da campanha é o jovem. E uma coisa que pouca gente sabe é que as farmácias populares vendem <span camisinha a 30 centavos — diz, referindose às quatro unidades do Programa Farmácia Popular na cidade (na Penha, na Ilha do Governador, na Praça XV e na Central do Brasil).<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span O programa de <span DST e <span Aids ajudou a distanciar o Brasil de países em que o percentual de infectados chega a 40% da população, como na África.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Hoje, menos de 1% dos brasileiros (0,61%) tem o <span HIV. Um desafio é conter novas notificações.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Na quarta-feira, o governo antecipou os novos números da epidemia no Brasil, por conta da divulgação de novo boletim da Un<span Aids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre <span HIV/<span Aids, baseado
na
Suíça), que reviu sua metodologia e reduziu de 40 milhões para 33 milhões o números de infectados pelo <span HIV no mundo.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Dados preliminares do governo apontam 32.628 novos casos de <span Aids em 2006, contra 35.965 em 2005. Uma taxa de 17,5 contaminados para cada cem mil habitantes (em 1996, essa taxa era de 15,6, mas já esteve em 22,2 em 2002). Uma das autoridades no assunto no Rio, Betina Durovni, coordenadora dos programas de doenças transmissíveis da secretaria municipal de Saúde, diz que chegamos a um ponto em que dá para ser otimista, sem deixar de ser realista: — É bom saber que há tratamento, mas não é correto pensar que a <span Aids é um problema superado — afirma.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span — É um momento diferente do que aconteceu na década de 80 e no início dos anos 90.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Houve uma queda de visibilidade da doença, que hoje atinge muito a camada mais desfavorecida da população.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span E as pessoas públicas que têm o vírus não se engajam.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Como elas levam uma vida normal, não querem discutir isso de forma pública. É compreensível, o preço a pagar é alto. Antes, não tinham como não revelar, estava na cara.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span O brasileiro Luiz Loures, diretor da Divisão de Iniciativas Globais do Un<span Aids, acredita que a situação no Brasil está “relativamente estabilizada”, mas que a epidemia tem de ser avaliada num contexto global. Afinal, não há fronteiras para a <span Aids.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span — O que está na raiz da epidemia é o <span HIV, mas o vírus está sendo ajudado por dificuldades históricas, de preconceito, de discriminação — avalia. — A resposta à <span Aids não pode ser somente técnica.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Deixamos de avançar em aspectos sociais, no combate ao tabu, na dificuldade de tratar uma epidemia relacionada ao sexo sem uma abordagem moral.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Em 1996, o número de mortes por <span Aids no país era de 15.156 pessoas. Caiu ao longo dos anos, mas como a incidência de novas contaminações é grande, desde 2000 a média anual de mortos não baixa: fica em torno de 11 mil.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span O estilista Luiz de Freitas lembra que, há 15 anos, vivia em hospitais visitando amigos internados.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Chegou a criar uma associação para angariar recursos e distribuir remédios para quem não podia comprálos.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Em 95, em campanha para a distribuição gratuita dos antiretrovirais, pôs 15 portadores do <span HIV na passarela de um desfile, com uma faixa: “Coquetel para todos.” — A <span Aids veio banalizar a morte — diz ele. — Somos milagres ambulantes. Não se tinha conhecimento algum.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Perdemos muita gente que era referência cultural e sempre fará falta na cidade.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Há 15 anos, dava-se uma sobrevida de seis meses para um paciente de <span Aids. O panorama agora é outro. A luta dos soropositivos é manter a qualidade de vida. Para quem depende unicamente da rede pública de saúde, há queixas freqüentes de falta de outros remédios além do coquetel, fundamentais para a profilaxia, e da dificuldade de fazer exames. Nos consultórios da Zona Sul, a visita a um infectologista renomado não custa menos de R$ 300.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span a Não é fácil encontrar quem assuma publicamente a condição de soropositivo. Entre os que se expõem, estão os que em algum momento não tiveram como mascarar a <span Aids e/ou os que participam de grupos de prevenção.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span — Hoje, muitos que se cuidam ficam bem, e querem mais é ficar bonitos de novo, usando botox — conta o dermatologista Marcio Serra, acostumado a prescrever preenchimento para os pacientes que têm lipodistrofia (redução de gordura em partes do corpo, em reação aos remédios), no seu consultório em Copacabana, e a cuidar de casos mais graves, de pacientes internados no Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, na Tijuca. — Morre-se menos, mas não se deixou de morrer de <span Aids no Brasil. O melhor ainda é não se contaminar.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Para se alcançar a tal qualidade de vida, é fundamental que o diagnóstico seja feito cedo e que o paciente encare com disciplina a rotina de tomar remédios diariamente e fazer exames. Não é fácil.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Todos os dias, Douglas dos Santos, de 29 anos, toma um coquetel com três comprimidos de manhã e três à noite, além de duas pílulas de Bactrim (que ele precisa comprar, porque não recebe no posto de saúde onde retira os antiretrovirais).<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Efeitos colaterais como enjôo e diarréia são cotidianos. Valéria de Paula, de 43 anos, também cumpre diariamente a tarefa de tomar o coquetel, mas no seu caso são dois comprimidos no início do dia e dois no final. Já sofreu com os efeitos de outros medicamentos, mas a cota de quatro pílulas por dia tem sido mais leve. Cazu Barros, de 33 anos, teve a medicação suspensa e controla seu sistema imunológico com exames regulares. Ele está no que se chama de “falha terapêutica”, quando os remédios já não surtem efeito.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span — Ainda luto pela qualidade de vida, mas meu organismo tem poucas defesas — diz Douglas, que se viu portador do <span HIV aos 22 anos, quando começava a trabalhar como trocador de ônibus numa empresa na Baixada Fluminense, onde mora, e teve tuberculose. — Comecei minha vida sexual muito cedo, aos 11, 12 anos. Só passei a usar <span camisinha aos 17 anos, mas já devia e
star infectado.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span O ator Cazu Barros, que desenvolve projetos de prevenção na Federação de Bandeirantes do Brasil, sabe que se expor tem seu preço. Ele conta que, depois de aparecer na campanha de prevenção do governo na TV, no ano passado, um vizinho parou de falar com ele.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span — Há preconceito, sim, mas acho que sou poupado porque sou classe média, moro em Copacabana, sou branco e artista — acredita Cazu, que contraiu o vírus em 1991, quando tinha 17 anos e namorou uma menina soropositiva que conheceu no Rock in Rio II.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span No caso de Valéria, funcionária do Instituto Nacional de Cardiologia, em Laranjeiras, foi impossível esconder a <span Aids. Quando teve o diagnóstico, há dez anos, já sofria com doenças oportunistas, e viu os amigos se afastarem e as pessoas no trabalho lançarem olhares de suspeita.<p class="MsoHeader" <span <p class="MsoHeader" <span Ela acredita que contraiu o vírus de um namorado. Falar sobre isso e participar de projetos no grupo Pela Vidda foi a saída que encontrou para encarar a nova fase: — Vejo as pessoas muito distanciadas dos riscos da <span Aids, parece que já é uma coisa banal. Mas não é.
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