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03/DEZEMBRO/07 |
2 DE DEZEMBRO DE 2007 – 17h43
Nossas lutas são correlatas, diz a transexual Bárbara Graner
Bárbara Graner é uma bela mulher, de olhos verdes e cabelos aloirados. Tem 33 anos, é educadora social e integrante do Centro de Apoio à Vida (CASVI) e do Fórum Paulista GLBT. Só uma coisa a difere das outras mulheres: Bárbara tem um pênis, do qual ainda não conseguiu se livrar, diferentemente dos testículos, que ela mesma resolveu cortar. Ela foi uma das ativistas do movimento GLBT que participaram do seminário Ousadia e Sexualidade, uma iniciativa do PCdoB e do Instituto Maurício Grabois.
“Nunca me descobri como homossexual porque sempre me senti como uma menina. O mundo, no entanto, insistia em dizer que eu era um menino. Mas, nunca tive crise de identidade”, explica. Bárbara jogava bola como os meninos, mas no fundo sempre sonhou ser uma heroína, coisa que anos mais tarde acabou se tornando por sua resistência ao preconceito e pela luta que vem travando pelos direitos dos homossexuais. “Eu tenho um pênis, descobri isso na infância, como todo mundo, mas nunca me identifiquei com ele”, disse.
Foi na juventude, lendo livros da então sexóloga Marta Suplicy, que Bárbara acabou tomando consciência do que acontecia com sua personalidade. O nome no RG – que Bárbara não revela – é estranho à sua identidade. “Não é um pedaço de papel verde que vai me dizer quem sou de fato ou que vai garantir minha cidadania”, protestou.
Com o corpo já formado e os pêlos tomando maior proporção, Bárbara decidiu que queria ser operada. “Mas na Unicamp, que eu procurei, havia muito preconceito na época. E acabei não conseguindo”. Ela decidiu então estudar sobre o assunto e descobriu que a fonte dos hormônios masculinos eram os testículos. “Injetei Xilocaína e cortei os testículos. Joguei fora no vaso sanitário, para garantir que não fossem repostos em mim”, conta. Foi levada para o hospital, onde foi tratada. E, depois disso, a família a expulsou de casa.
Bárbara precisava ganhar a vida, mas por conta do preconceito, não conseguia emprego. “Resolvi me prostituir. Nesse meio, aprendi muito porque ali temos contato com o que a sociedade é de fato. Saí do mundo burguês para a realidade”, disse. “Foi dureza, mas foi também um aprendizado. Hoje vejo as coisas com outros olhos. O poder público recolhe as prostitutas como se fossem lixo”.
Ela passou seis anos na prostituição. “Trabalhava das 20h às 5h da manhã e de lá, ia procurar emprego, mas não conseguia”, lembra. Até que foi convidada para participar de campanhas de prevenção a DSTs e Aids. “Foi a primeira vez que tive uma experiência profissional formal”. Do contato com ongs e entidades de trabalho social, Bárbara herdou uma visão política e social mais aguçada.
De fala articulada e idéias claras, se diz simpatizante do PCdoB, bem como de outros partidos de esquerda que atuem em prol da igualdade de direitos e contra o preconceito de qualquer ordem. “Sou educadora, feminista, ativista política. E, entre todas as características que formam o que sou, está a transexualidade. Defino-me como heterossexual porque me sinto mulher e gosto de homens”, esclarece. E brinca: “é muita pobreza dizer que só há dois sexos. Não dá para obrigar mais de seis bilhões de pessoas no mundo a se encaixarem em apenas duas categorias, homem ou mulher”.
Com relação aos comunistas, diz: “nossas lutas são correlatas. Estamos aqui para lutar contra o capital e contra a forma como ele se estabelece, incentivando o individualismo e o preconceito.Está na hora de mudarmos isso porque as relações impostas pelo capital destroem todo o conjunto humano”. Para ela, “a homofobia é burguesa. Mas a postura homossexual é tão revolucionária quanto o comunismo”.
Leia também: Diversidade e amplitude marcam seminário GLBT do PCdoB em SP
De São Paulo,
Priscila Lobregatte
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