A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou no final de 2011 o uso de uma nova medicação para o tratamento de pacientes portadores da hepatite C crônica. O Telaprevir aumenta as chances de cura em até 79% em pacientes infectados pelo tipo 1 do vírus HVC. No Brasil, a estimativa é de que dois milhões de pessoas estejam infectadas. Cerca de 56% dos casos de câncer de fígado estão associados ao vírus, com taxa de mortalidade perto de 90% em grandes centros urbanos.
Recentemente, o médico infectologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Paulo Abrão esteve em Porto Alegre para um debate com o objetivo de trocar experiências sobre o tratamento. O infectologista participou do estudo da medicação e da elaboração do Protocolo Brasileiro de Tratamento. O Telaprevir está sendo utilizado apenas para tratamento particular, mas a expectativa é de que o medicamento esteja disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) até o final do ano.
Hoje a hepatite C é a principal causa de cirrose e câncer de fígado. É uma doença “silenciosa”: a pessoa pode viver durante muitos anos sem sentir nada e só ter algum sintoma quando a hepatite está na fase final.
Jornal do Comércio – Como é realizado o novo tratamento?
Paulo Abrão – Ao contrário do que as pessoas acham, a hepatite C é uma doença totalmente curável, só que as duas medicações disponíveis hoje, Interferon e Ribavirina, curam apenas 40% dos pacientes que tem o tipo 1 do vírus, o mais difícil de ser curado. Com o Telaprevir agregado a esses dois medicamentos, a chance dobra. O tratamento com a nova medicação dura três meses, ao valor de R$ 70 mil. Custa caro porque é uma medicação nova, de alta tecnologia, e o investimento para desenvolver foi muito grande. Geralmente, o paciente tem que tomar os três remédios: o Telaprevir por três meses e os outros dois por mais seis meses ou um ano.
JC – Os efeitos colaterais do Telaprevir são fortes?
Abrão – As principais reações são alergia na pele e anemia. A pessoa é monitorada e o tratamento poder ser realizado em casa. Mas ela tem um cronograma que deve seguir à risca, de consultas para o monitoramento médico com uma série de exames periodicamente. É um tratamento especializado, não pode ser feito em qualquer local, como uma Unidade Básica de Saúde, tem que ser feito numa unidade especializada, onde os médicos têm experiência em lidar com a doença.
JC – Como se avalia se o paciente está curado?
Abrão – Durante o tratamento, a quantidade de vírus é acompanhada e, com a sua eliminação, é sinal de que está dando certo. Depois de todo o tratamento, é preciso esperar seis meses sem os medicamentos. Se o vírus não retorna, o paciente está curado; se volta, o paciente deve ser tratado de outro modo, com outras medicações que estão em estudo e que futuramente serão utilizadas, mas não estão disponíveis ainda.
JC – Como será a implantação do medicamento pelo SUS?
Abrão – O Ministério da Saúde terminou o estudo de como seria implantado no Brasil, quem seriam os pacientes que receberiam primeiro a medicação, os critérios para essa indicação e os cuidados e orientações. É preciso todo um protocolo para o médico seguir na hora em que a medicação estiver disponível. Agora, se aguarda apenas a aprovação do ministro da Saúde e a negociação de preço com a empresa fabricante. Serão R$ 200 milhões em dois anos, com a perspectiva de tratar mais de cinco mil pacientes nesse período.
JC – Quantos pacientes o senhor já tratou com o Telaprevir?
Abrão – Mais de 30 pacientes, com excelentes resultados. A grande maioria se curou, uma média de 85%.
Fonte: Jornal do Comércio
JONATHAN HECKLER/JC
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